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Caso do Tio Paulo: por que nem toda notícia absurda deve acabar como meme nas redes sociais?
19.04.2024 - 11h56
Rio de Janeiro - RJ
Já se tornaram virais conteúdos relacionados ao que ficou conhecido como "Caso do Tio Paulo". Trata-se de Paulo Roberto Braga, de 68 anos, que na última terça (16), foi conduzido sem vida a uma agência bancária por Érika de Souza Vieira Nunes, 43 anos, que se identificou como sobrinha do idoso, na tentativa de aprovação de um empréstimo no valor de R$17 mil, no nome de Paulo. O caso aconteceu no bairro de Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro. 
Em menos de 24 horas depois, os comentários, inicialmente com tom de espanto, deram lugar a piadas e memes nas redes sociais. Apesar da morbidez do caso, o idoso foi transformado em uma espécie de personagem simpático: o "Tio Paulo". 
Imagens na TV e nas redes 
A preservação parcial do rosto e corpo da vítima nas imagens exibidas em canais de televisão pouco surtiu efeito para a dignidade de Paulo. Em plataformas como X (antigo Twitter) e Instagram, com no máximo dois cliques e uma rolagem de tela, usuários encontram versões do vídeo completo, gravado pelas funcionárias da agência onde o caso aconteceu. 
Difícil não saber do fato, já que durante toda a tarde de quarta-feira (17), hashtags como #TioPaulo, #SugarDead e #UmMortoMuitoLouco, estiveram entre os assuntos mais comentados no X do Brasil.
A história chegou no noticiário e na política internacional e por lá também foi utilizada como piada. O ativista Ryan Fournier, aliado do republicano Donald Trump, comparou o cadáver de Paulo ao atual presidente americano, o democrata Joe Biden, ao comentar em um vídeo compartilhado no X com a cena em que Erika tentava fazer o idoso, sem reação, assinar a autorização do empréstimo. "Faça-o presidente", escreveu Fournier no comentário, em referência irônica a Biden.
O limite do meme 
As imagens e vídeos da cena se tornaram prato cheio para a inserção de sorrisos, balões de falas e expressões faciais da vítima – que, é importante reforçar, havia acabado de falecer. 
O esboço de um riso pode ser a primeira reação de muita gente, mas é preciso questionar: até que ponto vai a graça de um meme? 
Nas redes sociais a resposta parece ser automática para a maioria dos usuários e está sintetizada em uma frase famosa que torna a aparecer em situações bizarras: "a internet não tem limites e eu também não". 
Mas na TV pode? 
Quando pensamos na TV, as fronteiras se pretendem mais bem definidas. Será? A resposta é não. E a evidência de que parece ser razoável caçoar de um caso brutal como este aconteceu nesta terça (18), quando o ator Fábio Porchat, em participação no programa Encontro, da TV Globo, reproduz com a ajuda de uma pessoa da plateia, a cena do idoso na cadeira de rodas, tendo sua cabeça sustentada enquanto está morto. 
Sobram piadas, falta sensibilidade  
A própria história do caso também virou piada, dentro e fora das redes. No coletivo indo para o trabalho, na fila do mercado ou em sala de aula, o caso foi assunto e repertório para analogias de pessoas que enfrentam problemas em sua vida pessoal e financeira. 
Figurinhas, gifs e deep fakes para todos os tipos de (mal)gosto – porque de humor, diga-se de passagem, não têm nada. E este é o ponto: nas redes sociais ou fora delas, é importante entender o limite da piada e da brincadeira. Trata-se de um crime que infringe de forma grave a dignidade do idoso, exposta em condição extremamente vulnerável.
Por mais piegas e óbvio que possa ser, fatos como estes devem servir ao menos para incomodar quem vê humor onde não há. Em tempos de guerras televisionadas mundo afora e acesso facilitado à produção de imagens artificiais, é preciso sensibilizar o olhar e perceber até que ponto um meme pode ser utilizado para fazer rir e refletir ou apenas zombar da dignidade alheia. 

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