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As omissões, os exageros e as verdades do filme sobre a Lava Jato
21.09.2017 - 13h00
Das investigações e delações premiadas para o cinema: a Operação Lava Jato chegou às telas no dia 7 de setembro com Polícia Federal – A Lei é Para Todos. Até o último fim de semana, o filme já havia sido visto por 840 mil espectadores – a equipe da Lupa entre eles.
Orçada em cerca de R$ 16 milhões e baseada em fatos reais, a obra adicionou uma “camada de roteiro à realidade”, como afirmou o diretor do filme, Marcelo Antunez. O filme apresenta, por exemplo, os delegados da Polícia Federal com nomes fictícios. O mesmo não ocorre, porém, com os investigados e políticos mencionados. Vale destacar, ainda, que são mostrados os episódios que vão da primeira fase da Lava Jato, em março de 2014, até a 24ª fase, em março de 2016, quando o ex-presidente Lula foi alvo de condução coercitiva. Checamos com dados públicos algumas informações do filme.
Paulo Roberto Costa foi preso – pela segunda vez – no dia de Brasil 1 x 7 Alemanha, na Copa do Mundo de 2014
Ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa foi preso pela primeira vez em 20 de março de 2014, na Operação Bidone, 2ª fase da Lava Jato. A investigação mostrou que ele recebeu uma Land Rover de presente do doleiro Alberto Yousseff. Uma liminar do Supremo Tribunal Federal, porém, o soltou em 19 de maio daquele ano – dois meses depois. A justificativa era de que Costa mencionou deputados federais e que, portanto, as investigações deveriam seguir para o STF.
O filme dedica alguns minutos a explicar toda essa dinâmica, e sugere que a segunda prisão do ex-diretor ocorreu em 8 de julho de 2014 – dia em que o Brasil foi derrotado por 7 a 1 pela Alemanha, e deu adeus à Copa do Mundo do Brasil. Na cena, ele chega na cela onde está o doleiro durante o jogo, semifinal da competição. Só que, na realidade, Paulo Roberto Costa foi preso em 11 de junho, bem antes do jogo. Na ocasião, o juiz Sergio Moro decretou a prisão para tentar evitar a fuga de Costa, uma vez que as investigações mostraram que ele tinha U$ 23 milhões no exterior.
Correção às 11h17 do dia 21/09/2017: Inicialmente a Lupa havia escrito que “a segunda prisão do ex-diretor ocorreu em 8 de junho de 2014”

Lula disse “hoje começa a guerra” após sua condução coercitiva
O clímax do filme é o momento em que a PF leva coercitivamente o ex-presidente Lula para depor. Após o depoimento, Lula teria dito que, a partir daquele momento, “começaria a guerra”. No entanto, não há registro público dessa afirmação. Depois do depoimento prestado à PF em Congonhas, ele fez um pronunciamento de cerca de 30 minutos na sede do PT, em São Paulo,  e não falou em “guerra”. Entre críticas às investigações e ao juiz Sergio Moro, Lula disse ter se sentido prisioneiro. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca está viva como sempre esteve”, declarou o petista na ocasião.

“Segundo a ONU, a corrupção move 200 bilhões por ano”
Antes de subirem os créditos, já no final, o filme divulga uma informação impossível de quantificar. A informação de que R$ 200 bilhões são desviados por ano no Brasil graças à corrupção foi mencionada algumas vezes por Deltan Dallagnol, procurador da República e coordenador da Lava Jato.  Uma delas ocorreu em setembro de 2015, no lançamento das 10 medidas de combate à corrupção. A Lupa checou a informação em 2016, após discurso de Deltan na Câmara dos Deputados. O procurador afirmou que sua fonte era o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Questionado novamente nesta semana, o programa voltou a informar que nunca produziu pesquisas para identificar quanto de verba pública já se desviou no país por meio de casos de corrupção. “O PNUD não realizou nenhum estudo sobre corrupção no Brasil, especificamente”, diz trecho da nota.
Neste ano, o procurador Paulo Roberto Galvão, outro integrante da Operação Lava Jato, também mencionou esse valor em um evento nos Estados Unidos. A informação é replicada até hoje por sites como o “Revolta Brasil”, que veicula notícias falsas. Fato é que, segundo estudo do Fórum Econômico Mundial divulgado em 2016, o Brasil é o quarto país mais corrupto do mundo, perdendo apenas para Venezuela, Bolívia e Chade.

O sítio de Atibaia foi visitado 111 vezes pela família de Lula
Relatórios do Palácio do Planalto confirmam que a família do ex-presidente visitou o sítio Santa Bárbara 111 vezes entre 2012 e janeiro de 2016. A informação foi revelada pela revista Época a partir da análise das diárias pagas a sete servidores que compunham a equipe de seguranças de Lula. Nos cerca de 1.400 dias compreendidos nesse período, os integrantes da equipe receberam 968 diárias e 283 pernoites.
Há, ainda, seis ocorrências em que os servidores foram deslocados para o sítio quando Lula estava fora do país – embora o ex-presidente tenha direito à escolta, o benefício é pessoal e não se estende a seus familiares. Tal assiduidade é um dos fatores que levou a PF a acusar Lula de ser dono da propriedade. À época da matéria, o Instituto Lula divulgou uma nota afirmando que os dados usados pela revista mostravam que Lula e sua família visitavam o sítio de amigos.
OS SILÊNCIOS DO FILME
Por que Youssef estava no Maranhão?
Logo no começo do filme, é mostrada uma sequência eletrizante que antecede a prisão do doleiro Alberto Yousseff, no Maranhão. Na telona, delegados federais em Curitiba e em São Luís se organizam para apanhar Yousseff antes dele fugir de um hotel de luxo na cidade. A cena mostra, inclusive, que o juiz Sergio Moro teria recebido uma mensagem de texto no celular para autorizar a ação contra o doleiro, no sistema interno da Justiça Federal. O que o filme não mostra é o que Yousseff estava fazendo lá: pagando propinas a servidores do governo Roseana Sarney, como informou uma reportagem de agosto de 2014 do jornal O Estado de S. Paulo.
O relatório da PF indica que o governo do Maranhão recebeu R$ 6 milhões para burlar a fila de pagamento de precatórios e antecipar um pagamento de R$ 113 milhões para a empreiteira UTC/Constran. O caso abriu uma investigação por lavagem de dinheiro e associação criminosa contra Roseana, que terminou absolvida em julho deste ano.

E o “envenenamento” e “morte” de Youssef na prisão ?
Na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, o doleiro Alberto Yousseff foi internado no hospital Santa Cruz, em Curitiba. Dois dias antes, ele havia afirmado em depoimento à PF, publicado pela Revista Veja, que Lula e Dilma sabiam do esquema de corrupção na Petrobras. Horas depois, surgiram diversos boatos de que ele havia sido envenenado a mando do PT – alguns diziam, inclusive, que Yousseff estaria morto.
Em nota divulgada na noite do sábado que antecedeu o pleito, a PF informou que o doleiro sofreu “forte queda de pressão arterial causada por uso de medicação no tratamento de doença cardíaca crônica”. Na manhã de domingo, a Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba confirmou o atendimento a Yousseff e disse que a provável causa tratada pelos médicos era uma angina instável, condição cardíaca. A filha do doleiro, Kemelly Yousseff, foi à público pedir o fim da história falsa. “Eu não queria dar muita informação para vocês [da imprensa]. Quero dizer que ele está bem, para parar este monte de especulação”, declarou à Folha.

E depois que Sergio Moro divulgou os áudios de Lula e Dilma?
Em um momento de reprodução direta de uma coletiva de imprensa, no dia 16 de março de 2016, o filme mostra a então presidente Dilma Rousseff anunciando a intenção de fazer de Lula o novo ministro-chefe da Casa Civil. A posse ocorreu um dia depois.
Só que, poucas horas após a cerimônia, um juiz de Brasília sustou a nomeação de Lula. E, no mesmo dia, como exibiu o filme, o juiz Sergio Moro divulgou áudios de uma conversa entre Lula e Dilma tratando da nomeação.
O que o filme não mostra, porém, é que o então ministro relator da Lava Jato, Teori Zavascki, considerou a divulgação inconstitucional. “Não há como conceber, portanto, a divulgação pública das conversações do modo como se operou, especialmente daquelas que sequer têm relação com o objeto da investigação criminal”, escreveu o magistrado, ao analisar a decisão de Moro. A obra também não exibe que Moro pediu desculpas pela polêmica gerada. Em despacho enviado ao STF o juiz escreveu que “jamais foi sua intenção” causar “polêmicas e constrangimentos desnecessários”.
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