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Ciro Gomes acerta ao comparar a educação no Brasil e na Colômbia?
03.10.2017 - 18h00
Rio de Janeiro - RJ
Nos últimos dias, o pré-candidato à Presidência Ciro Gomes deu entrevista ao jornal baiano “A Tarde” e, no Twitter, respondeu perguntas enviadas por usuários com a hashtag #PergunteaoCiro. Nesses dois momentos, usou uma série de números e falou bastante sobre educação e economia – levando os leitores da Lupa a pedirem uma série de checagens. Veja a seguir o resultado:
“Nossa vizinha Colômbia (…) tem 42% dos seus jovens de 18 a 25 anos matriculados no Ensino Superior. O Brasil (…) tem só 18%”
Ciro Gomes, respondendo usuários do Twitter por vídeo, no dia 26 de setembro
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que o Brasil tem um índice de jovens matriculados em instituições de ensino ligeiramente superior ao da Colômbia. Na faixa etária que vai de 20 e 29 anos, são 21,6% dos jovens brasileiros contra 19% dos colombianos. O relatório Education at Glance, publicado neste ano, também analisa a faixa etária entre 20 e 24 anos. Neste grupo demográfico, o Brasil tem 29% de seus jovens matriculados, e a Colômbia, 25%. Nas duas análises, no entanto, a OCDE soma cursos de Ensino Médio e Superior. (Não há dados públicos que separam as duas informações e comparam os dois países nesses quesitos).
Atualização às 17h do dia 04 de outubro de 2017: Ciro Gomes foi procurado ao longo de uma semana para comentar esta checagem, mas usou seu perfil de Facebook para apresentar seu posicionamento público. No texto postado na tarde desta quarta-feira (4), disse que usou o estudo “Increasing Higher Education Coverage: Supply Expansion and Student Sorting in Colombia” como uma das fontes de suas informações e que “lá é possível observar que de 2000 a 2013 a população universitária da Colômbia entre jovens de 18 a 24 anos saltou de 21% para 43%”.
A Lupa procurou o Banco Mundial e os pesquisadores responsáveis por este estudo para conferir esse novo dado. Em nota, ambos destacam que a alta de 21% para 43% citada por Ciro no Facebook não se refere à Colômbia, mas ao conjunto dos países da América Latina e Caribe. A informação está no primeiro parágrafo da “introdução” do estudo em questão.
Por conta disso, a etiqueta aplicada a esta frase foi alterada de “insustentável” para “exagerado”.
A Lupa destaca que, ao contrário do informado anteriormente, há – sim – pesquisas do Banco Mundial comparando os dois países no quesito educação superior. São estudos sobre a chamada “taxa bruta de matrícula”, índice obtido por meio da divisão do número total de universitários matriculados no ensino superior de um determinado país pela população total de jovens entre 18 e 24 anos naquele local.
Segundo o Banco Mundial, a “taxa bruta de matrícula” da Colômbia em 2013 (dado mais recente disponível) era de 30%. A do Brasil, no mesmo período, de 33%. Os dois dados oficiais do Banco Mundial diferem, portanto, dos apresentados por Ciro em sua fala.

“Me dá alegria afirmar que 77 das 100 melhores escolas de educação básica do Brasil pelo Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] estão no Ceará, que é um dos estados mais pobres do Brasil. Portanto, pelo exemplo, eu já quero mostrar que é possível ser diferente.”
Ciro Gomes em entrevista ao jornal A Tarde, de Salvador
No Ideb de 2015, o Ceará emplacou 77 escolas na lista das 100 melhores do país, mas apenas na categoria “anos iniciais”, que vai do primeiro ao quinto ano.
Mas nos anos finais, do sexto ao nono ano, o Ceará  colocou um número de escolas menor do que o mencionado por Ciro: 35 unidades entre as 100 melhores, mais do que qualquer outro estado. Nenhuma delas, entretanto, é estadual. Quase todas as escolas cearenses que aparecem nessas duas listas fazem parte da rede municipal, sendo que apenas uma é federal.
O município de Sobral, reduto eleitoral de Ciro e de seu irmão, Cid Gomes, lidera em ambas as listas, com 22 e 19 escolas, respectivamente.
No índice geral, que inclui todas as escolas públicas e privadas que foram avaliadas, o Ceará tem a sexta melhor nota média no Ideb para anos iniciais (5,9) e a quarta (4,8) para anos finais. É o melhor desempenho do Nordeste em ambos os casos.
É possível fazer o download do resultado de todas as escolas públicas nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental no site do INEP.

“É uma chance de ouro de (…) tirar do buraco 23 dos 27 estados que estão quebrados”
Ciro Gomes em entrevista ao jornal A Tarde, de Salvador
Tudo depende da conceituação de “quebrado”. Um dos indicadores possíveis é o tamanho de suas dívidas em relação ao que arrecadam. “No que diz respeito à dívida, o problema se restringiria a apenas quatro estados: Rio de Janeiro (232% da Receita Corrente Líquida – RCL), Rio Grande do Sul (213%), Minas Gerais (203%) e São Paulo (175%)”, diz relatório elaborado pela Firjan com base nas prestações de contas estaduais de 2016.
Outra conceituação possível é se os estados têm dinheiro para honrar suas obrigações imediatas. Segundo o mesmo estudo, cinco estados tinham mais contas do que verbas para pagá-las no final de 2016. São eles o Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Sergipe e Distrito Federal, estados que fecharam o ano com disponibilidade negativa de caixa.
Houve uma piora generalizada no quadro fiscal dos estados desde 2014, incluindo uma redução significativa no investimento devido a falta de caixa. “De fato, diversos entes federativos estão à beira da insolvência, tendo como agravante o fato de que já estão descumprindo os limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF. Isso significa que, além dos riscos fiscais, há riscos sociais e político-institucionais”, diz o relatório.
Mas dizer que isso se aplica a 23 dos 27 soa exagerado ao analisarmos os dados oficiais.
Procurado para comentar, Ciro Gomes não retornou.

“[A população] Está muito exasperada com as tensões da vida moderna, como a onda migratória provocada pelo maior número de refugiados da história – 65 milhões de pessoas expulsas de suas casas”
Ciro Gomes, respondendo usuários do Twitter por vídeo, no dia 26 de setembro
Os dados utilizados por Ciro batem com os do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Segundo relatório publicado pela instituição neste ano, em 2016, havia no mundo 65,6 milhões de pessoas deslocadas à força de suas casas. Neste grupo, 22,5 milhões eram tecnicamente consideradas como refugiadas. Pela Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, realizada pela ONU em 1951, apenas pessoas que estão fora de sua nação de origem possuem esse status. O mesmo relatório afirma que o número total de deslocados é o maior já registrado. Entretanto, o número de novas pessoas deslocadas está caindo desde 2014.

“Os americanos têm a maior população carcerária do mundo, e nós, no mesmo caminho, temos uma das maiores populações carcerárias do mundo”
Ciro Gomes, respondendo usuários do Twitter por vídeo, no dia 26 de setembro
Os dados mencionados pelo pré-candidato à presidência são verdadeiros, mas se levados em conta os números absolutos. Segundo dados de 2015 publicados pelo Centro Internacional de Estudos Penitenciários (ICPS, da sigla em inglês), os Estados Unidos possuem a maior população carcerária do mundo, com 2,1 milhões de presos. O Brasil fica em terceiro lugar neste ranking, com 657 mil detentos. Em números relativos à população total, os Estados Unidos continuam em destaque, em segundo lugar, atrás apenas de Seychelles, que tem 666 detentos por 100 mil habitantes. O Brasil, por outro lado, fica em 30º, com 318 por 100 mil. A média mundial é de 144 por 100 mil.
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Ítalo Rômany
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