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Ataques ao fact checking precipitam ‘guerrilha’ que deve marcar eleições
21.05.2018 - 17h06
Rio de Janeiro - RJ
Desde o dia 10 de maio, quando a agência de checagem que dirijo anunciou publicamente que havia sido contratada pelo Facebook para participar da versão brasileira do projeto de verificação de notícias, o ambiente virtual em torno da Lupa e de alguns de meus funcionários ficou conturbado e perigoso.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) emitiu uma nota defendendo o fact-checking – tema constante desta coluna aqui na Época – e repudiando os ataques virtuais. O mesmo fez a diretoria da International Fact-Checking Network (IFCN), a rede de checadores que tem sede no Poynter Institute, nos Estados Unidos, e que anualmente audita a Agência Lupa, atestando publicamente a qualidade de sua produção.
Para ir além, solicitei à Fundação Getulio Vargas que analisasse as redes sociais em torno do anúncio do Facebook. Abro espaço nessa coluna semanal para o artigo que foi escrito por Marco Aurelio Ruediger e Amaro Grassi e para as conclusões que eles tiraram desse período de observação. Ambos trabalham na Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV.
Segue o artigo:

Ataques ao fact checking precipitam “guerrilha” que deve marcar eleições

Por Marco Aurelio Ruediger[2] e Amaro Grassi[3]
A onda de ataques às agências de fact checking brasileiras, em reação ao anúncio da parceria com o Facebook no último dia 10, precipitou um cenário que deverá marcar as eleições: a lógica de “guerrilha” virtual, pautada por pequenas ações concertadas no ambiente digital, mas com elevado potencial de danos reais ao debate público e ao processo político-eleitoral.
Confrontados com uma iniciativa necessária, orientada pelo propósito de qualificação do debate público, grupos supostamente ameaçados desatam ataques marcados pela ação de trolls, perseguições pessoais, “fake news” e ações de robôs – um arsenal de desinformação pronto para minar a credibilidade de qualquer ator que seja identificado como inimigo político.
Análise da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV identificou, entre os dias 10 e 17, quase 45 mil menções relacionadas ao anúncio da parceria entre Facebook e as agências. Dentre estas, aproximadamente 46% dos perfis mantiveram tom de oposição à iniciativa e aos parceiros, com discurso pautado por acusações de falta de isenção, críticas pessoais e denúncias de “censura” à internet. Já a reação em defesa das agências respondeu por cerca de 33% do total de perfis que participaram do debate. Os 21% restantes compartilharam notícias sobre a parceria e críticas legítimas à iniciativa.
Uma análise em série histórica dessa mesma base de dados é ainda mais clara ao evidenciar o caráter majoritário dos ataques ao fact checking. Após uma primeira – e pequena – onda de críticas na esteira do anúncio da parceria com o Facebook, o tema mantém um nível baixo de engajamento, sendo “reativado” apenas no final da semana passada, sobretudo após a exposição pessoal de profissionais que integram as agências checadoras.
Por fim, o trabalho identificou um volume significativo de interações motivadas direta ou indiretamente por perfis automatizados – os chamados “robôs” -, de acordo com critérios estabelecidos pela FGV DAPP em estudos sobre o tema desde o final do ano passado. No caso do grupo mais crítico às agências, cerca de 23,7% dos retuítes partiram diretamente de robôs ou foram compartilhados por usuários reais a partir de contas automatizadas. No caso do grupo em defesa das agências, esse volume foi de 16,6%.
O fato de haver fortes indícios da ação de robôs nos dois lados do debate é um indicativo da lógica de guerrilha, em que ataques entram em uma espiral de acirramento e polarização, interditando tentativas de debate pautado por críticas legítimas e pela busca por entendimento entre pontos de vista diversos acerca de temas tão sensíveis como “checagem de fatos”.
Recentemente, em análises sobre a repercussão da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes, a FGV DAPP identificou justamente como uma ação coordenada, partindo da sociedade, pode conter ondas de desinformação. Na ocasião, a adesão a valores republicanos representados por Marielle, como direitos humanos, igualdade de gênero e justiça social, foi mais forte do que seus detratores, que levou à contenção da espiral de ataques nas redes.
Nossa experiência recente mostra, portanto, a partir desse caso específico, a necessidade de: (1) acompanhamento em tempo real dos acontecimentos nas redes sociais, para identificação das ondas de desinformação; (2) uma ação coordenada em torno de valores comuns, partindo da sociedade, para interromper a disseminação de ataques virtuais; (3) durante o período eleitoral, a atenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a contenção, pela identificação de responsáveis, de “guerrilhas” nas redes com alto potencial de dano à democracia.
Notas:
[1] As manifestações aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem qualquer posição institucional da Fundação Getulio Vargas.
[2] Doutor em Sociologia Política
[3] Mestre em Sociologia
Este artigo foi publicado no site da revista Época no dia 21 de maio de 2018.
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