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Por que Marielle Franco é citada em tantas notícias falsas – sobre ela e sobre outros?
25.03.2019 - 16h00
Rio de Janeiro - RJ
Que alguém me explique: por que Marielle Franco –  a vereadora do PSOL que foi assassinada a tiros em março do ano passado, no Centro do Rio de Janeiro – é citada em tantas notícias falsas? É por ser negra? Por ser mulher? Homossexual? Pelas causas que defendia? Por conta da morte trágica que teve? Mais: por que seu nome parece tão próximo do vórtice da desinformação no Brasil mesmo quando o alvo são pessoas que, possivelmente, ela nem sequer conheceu?
Impressionou-me, nos últimos dias, o volume de informações falsas que viralizaram nas redes sociais citando Marielle Franco. Só nas últimas quinta e sexta-feira (20 e 21 de março), foram quatro grandes fake news combatidas pelos checadores profissionais no Facebook, com enraizamentos óbvios no Twitter e no WhatsApp.
A mais grave delas, compartilhada à exaustão, afirmava que as impressões digitais de uma das assessoras da ex-vereadora tinham sido encontradas “na maçaneta da porta do carro dos assassinos” de Marielle Franco. Como isso seria possível se o carro utilizado pelos criminosos jamais foi encontrado pela polícia? Nunca houve coleta alguma de digital em carro algum. O veículo usado por quem matou Marielle no dia 14 de março do ano passado é uma das peças que faltam à investigação. Mas isso parece importar pouco. Muito pouco.
Veio então a falsa notícia de um possível pedido de canonização de Marielle. De acordo com a “nota” que viralizou nas redes, o PSOL apresentaria à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) um requerimento para fazer da vereadora assassinada a padroeira das minorias. Os que compartilharam a “informação” podem não ter percebido que a “notícia” não vinha do Twitter da colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, mas do perfil Mônica Bengamo, uma sátira à jornalista. O PSOL precisou se posicionar publicamente.
O nome de Marielle Franco também tem sido usado para atingir autoridades de forma indireta. São publicações que atacam governantes e poderosos em geral, deixando de lado o rigor dos fatos e o cuidado com a verdade. E isso me faz pensar que aquela narrativa da desconstrução de personalidades – a mesma que, horas depois do assassinato da vereadora, levou milhares a associá-la de forma indevida a famosos traficantes de drogas – continua ativa. E talvez ainda mais pulsante. Veja alguns exemplos a seguir.
Apenas nos dois dias citados anteriormente, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, acabaram envolvidos em fake news que citavam Marielle Franco.
De forma equivocada, circulou nas redes que Bolsonaro era o proprietário da casa onde mora o matador de Marielle” e que isso “está na declaração de bens dele ao TSE”. Falso e falso.
O presidente realmente é vizinho de Ronnie Lessa num condomínio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do RJ. Lessa foi preso no início de março, apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) como autor dos disparos contra a vereadora. Também é fato que o presidente declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tem dois imóveis no condomínio em questão: as casa de número 36 e 56. O inquérito da Polícia Civil que investiga o caso especifica, no entanto, que Lessa residia na casa 65/66. Ou seja: a história não fecha no mundo real.
Também foram fartamente compartilhadas as postagens criticando o ex-juiz e hoje ministro Moro por ter afastado do caso o delegado que investigou os assassinos de Marielle. Falso. E, para concluir isso, basta entender como funcionam as instituições deste país. O Ministério da Justiça, hoje gerido por Moro, não tem qualquer ingerência sobre a Polícia Civil do Rio de Janeiro. Ela está subordinada ao governo do Estado do RJ. Por lei, Moro não tem qualquer prerrogativa para solicitar o afastamento de um delegado de um determinado caso. Seria um abuso da sua parte.
Giniton Lages deixou o caso Marielle em 13 de março deste ano, no dia seguinte à prisão de Lessa, para fazer um intercâmbio na Itália. O anúncio foi feito pelo governador do RJ, Wilson Witzel (PSC) e foi tratado como um “prêmio” pelo trabalho realizado na investigação.
Mas a roda da desinformação não para. Nunca.
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