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Na TV, Bolsonaro se contradiz sobre desinformação e ‘tolerância zero’ com crimes ambientais
23.08.2019 - 22h29
Rio de Janeiro - RJ
O presidente Jair Bolsonaro foi à TV na noite desta sexta-feira (23) para um pronunciamento oficial sobre as queimadas na Amazônia. Em pouco mais de quatro minutos, ele falou sobre a ajuda oferecida aos estados que integram a Amazônia Legal, citou a repercussão internacional dos incêndios e fez críticas indiretas ao presidente francês, Emmanuel Macron – que afirmou que Bolsonaro mentiu ao dizer que estava comprometido com a preservação da floresta. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo presidente. Veja:
“Espalhar dados e mensagens infundadas, dentro ou fora do Brasil, não contribui para resolver o problema e se presta apenas ao uso político e à desinformação”
Presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento oficial no dia 23 de agosto de 2019
Contraditório
Embora peça para que as pessoas não publiquem mensagens infundadas, recentemente, o presidente acusou Organizações Não-Governamentais (ONGs) de estarem por trás dos incêndios que ocorrem atualmente na Amazônia – sem apresentar prova. “Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses ongueiros para exatamente chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos. Vamos fazer o possível e o impossível para conter esse incêndio criminoso”, disse, em entrevista no Palácio do Planalto, no dia 21 de agosto.
No dia seguinte, Bolsonaro admitiu não ter nenhuma prova de sua afirmação, mas voltou a insistir que as ONGs eram responsáveis. “São os índios, quer que eu culpe os índios? Vai escrever os índios amanhã? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que esse pessoal da ONG perdeu a teta deles”, disse. Depois, disse que alguns fazendeiros podem ter sido responsáveis e que todos podem ser suspeitos, mas que “a maior suspeita vem de ONGs”.
No último domingo (18), ainda no tema ambiental, Bolsonaro compartilhou um vídeo de matança de baleias nas Ilhas Feroe, arquipélago dependente da Dinamarca, e disse que as imagens eram da Noruega. O país suspendeu, no dia 15 de agosto, repasses para o Fundo Amazônia por insatisfação com a política ambiental do atual governo. Apesar de ser alertado sobre o fato de o vídeo não ser da Noruega, o presidente não corrigiu a informação. Até as 22h do dia 23 de agosto, o conteúdo desinformativo publicado por Bolsonaro continuava no ar.
Procurado para comentar, o governo federal não retornou até a publicação desta checagem.

“Somos um governo de tolerância zero com a criminalidade e na área ambiental não será diferente”
Presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento oficial no dia 23 de agosto de 2019
Contraditório
Em diversos momentos, Bolsonaro foi extremamente crítico a um suposto excesso de fiscalização do Ibama. Em abril deste ano, por exemplo, o presidente publicou vídeo nas redes sociais criticando fiscais do Ibama que realizaram operação contra roubo de madeira na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. Os fiscais destruíram veículos utilizados no processo, algo permitido pelo decreto 6.514/2008, artigo 111.
“Ontem, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, me veio falar comigo com essa informação. Ele já mandou abrir um processo administrativo para a apurar o responsável disso aí. Não é pra queimar nada, maquinário, trator, seja o que for, não é esse procedimento, não é essa a nossa orientação”, disse.
Em maio, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publicou em seu site que realizaria operações de fiscalização na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará – o que poderia servir de alerta para criminosos. “Estão planejadas operações de fiscalização contra o desmatamento ilegal nas áreas críticas da Amazônia, que incluem Terras Indígenas e Unidades de Conservação no sudoeste do Pará, região que abriga a Floresta Nacional do Jamanxim”, dizia a nota no site.
Em transmissão ao vivo na internet, em 11 de julho, o presidente criticou a fiscalização e disse que, antes de punir, era preciso esclarecer os responsáveis por crimes ambientais. “O cara já chegava com uma caneta em cada mão, aplicando multas astronômicas. Colocamos um ponto final nisso”, disse. “Não queremos passar a mão na cabeça de ninguém. Mas o contato inicial tem que ser para esclarecer, informar e não chegar multando.”
Procurado para comentar, o governo federal não retornou até a publicação desta checagem.

“O Brasil (…) conserva mais de 60% de sua vegetação nativa”
Presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento oficial no dia 23 de agosto de 2019
Verdadeiro, mas...
O Brasil, de fato, conserva mais de 60% de sua vegetação nativa. Divulgado em janeiro deste ano, um estudo da Embrapa mostrou que o país tinha um total de 632 milhões de hectares em vegetação nativa, o que correspondia à 66,3% do território brasileiro. Segundo a entidade, essa área correspondia a “43 países e 5 territórios da Europa, a título de comparação”. Um levantamento feito pela Nasa em dezembro de 2017 mostrava dados semelhantes. O Brasil preservava, na época, 66% de seu território.
Por fim, o último dado divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), apontava que o Brasil preservava 58,9% de seu território em 2016. Entre os estudos consultados pela Lupa, esse é o mais antigo.
Embora o país conserve a maior parte de seu território é importante destacar que as áreas de preservação vem diminuindo nos últimos 32 anos. O projeto MapBiomas mostra que o Brasil teve uma perda líquida (perda total com a subtração da recuperação) de 71 milhões de hectares de vegetação nativa. A floresta natural brasileira correspondia a 594 milhões de hectares em 1985 e este total caiu para 523 milhões de hectares em 2017. Segundo o Observatório do Clima, a área de preservação perdida equivale aos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos.

“Estamos numa estação (…) em que todos os anos, infelizmente, ocorrem queimadas na região amazônica”
Presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento oficial no dia 23 de agosto de 2019
Verdadeiro, mas...
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), agosto e setembro são os meses em que mais ocorrem incêndios florestais na Amazônia. Desde 1998, início da série histórica disponibilizada pelo instituto, o número médio de focos de incêndio na região é de 110,6 mil, dos quais 59,3 mil, ou 53%, ocorrem nesses dois meses.
Ainda assim, o número de focos registrados no mês de agosto de 2019, que ainda não terminou, já é o maior desde 2010. Até o dia 23, foram registrados, segundo o Inpe, 25.853 focos de incêndio, o que já representa um crescimento de 143% em relação a 2018. A média entre 2011 e 2018 está em 16.090 focos.
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