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Lupa
Texto traz informações falsas sobre características do novo coronavírus
12.03.2020 - 14h24
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais um post que traz uma série de afirmações sobre as características do novo coronavírus (SARS-CoV-2), atribuídas a um pesquisador não identificado que teria se transferido de Shenzhen para Wuhan, na China. O texto diz que o vírus não resiste a temperaturas superiores a 27 graus Celsius e também traz recomendações, como a de que ele pode ser morto se a pessoa tomar água ou chá quentes. Nesta quarta-feira (11), a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o surto da doença como uma pandemia. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:
“1 – o vírus é fraco e não resiste ao calor. Temperaturas de 26 ou 27° C já matam o dito cujo”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Falso
A afirmação checada pela Lupa é falsa. O novo coronavírus não é morto em temperaturas de 26 ou 27 graus, como diz o texto do post. Apenas temperaturas entre 30 e 40 graus conseguem reduzir significativamente a permanência do SARS-CoV-2 no ambiente. “E isso depende do tipo de superfície (umidade, material orgânico/não orgânico). Portanto, não, 26-27 graus não matam o vírus, e pelo que os estudos indicam, a essa temperatura, ele é capaz de persistir por mais de 48 horas”, explicou Camila Malta Romano, pesquisadora científica dos Laboratórios de Investigação Médica do Hospital das Clínicas e do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), em e-mail enviado à Lupa.
Os dados estão em uma revisão de 22 estudos sobre vários tipos de coronavírus publicada por quatro pesquisadores alemães no Journal of Hospital Infection em 6 de fevereiro deste ano. Temperaturas mais altas do que 30 graus podem reduzir o tempo de permanência desse tipo vírus no ambiente, mas são insuficientes para eliminá-lo imediatamente como dá a entender o texto da publicação. O tipo de superfície pode contribuir para que o novo coronavírus resista por mais tempo.

“2 – uma das características do vírus é a tosse seca. Por 3 a 4 dias ele fica restrito à garganta. Assim, nesta fase fazer gargarejos já ajuda a minimizar o impacto. A 2ª fase da doença dura 5 a 6 dias e nesta fase o vírus causa coriza e também infecta os pulmões causando pneumonia. A doença vencida este prazo se torna letal…a pessoa tem a sensação de estar respirando debaixo d’água”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Falso
Embora a tosse seca seja um dos sintomas comuns da Covid-19, isso não significa que o vírus fique restrito à garganta e não se espalhe para outras áreas do corpo no início da infecção – incluindo a parte inferior do sistema respiratório. Em nota enviada à Lupa, o Ministério da Saúde afirmou que não há nenhum medicamento ou substância capaz de prevenir a infecção. “Fazer gargarejos não mata o vírus. Pode apenas ajudar a aliviar o incômodo na garganta”, explica o texto.
Segundo Camila Malta Romano, da USP, também não está correta a afirmação de que o SARS-CoV-2 leva de cinco a seis dias para se agravar, atingindo os pulmões apenas nessa fase. “Não há um consenso para isso. Um estudo na China mostrou que há pessoas que desenvolvem sintomas graves (hipóxia, comprometimento pulmonar/pneumonia) apenas dois a três dias após o início de sintomas”, disse a pesquisadora. Ou seja, isso varia de acordo com o paciente.
Outro erro está em definir que a doença se torna letal apenas a partir do sétimo dia de infecção. Isso porque a evolução para um quadro mais perigoso vai depender da resposta de cada pessoa. “Novamente, não há uma regra ‘se torna letal’. O paciente pode evoluir bem ou não, a depender de fatores como outras doenças pré-existentes, estado imunológico, idade etc”, afirma Romano.

“3 – O vírus fica resistente nas mãos por 10 [minutos]”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Insustentável
Não foram feitos estudos ainda para identificar o tempo que o novo coronavírus permanece nas mãos, segundo nota enviada pelo Ministério da Saúde à Lupa. Sabe-se, contudo, que as mãos são um dos principais veículos de transmissão de vírus e bactérias. Isso ocorre porque costumamos tocar muitas vezes partes do rosto como nariz, olhos e boca – que são portas de entrada para contaminações – ao longo do dia. “Um estudo estimou que, em uma hora, uma pessoa toca o rosto até 20 vezes”, diz Camila Romano, da USP.
Com isso, a chance de alguém infectado contaminar as mãos o tempo todo é muito alta. “Suas mãos poderão estar praticamente o tempo todo sendo contaminadas e atuando como potenciais transmissoras”, afirma Romano. Esse indivíduo tocará outras pessoas e superfícies onde o novo coronavírus vai resistir por um tempo. Consequentemente, também é grande a probabilidade de alguém tocar o rosto e se contaminar depois de entrar em contato com o vírus pelas mãos. “Daí a importância de não levar as mãos ao rosto com tanta frequência e usar álcool gel”, destaca a pesquisadora.

“Assim, lavar as mãos frequentemente é muito importante é eficaz. Mas, deve-se evitar coçar os olhos ou nariz pois ele se propaga fácil”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Verdadeiro
Lavar as mãos com água e sabão ou com álcool em gel 70% é suficiente para eliminar o vírus, segundo o Ministério da Saúde. Evitar o contato com o rosto também é importante para evitar a contaminação, uma vez que as mãos podem ter tocado uma superfície com o vírus antes de ser higienizada. Outras recomendações incluem cobrir o nariz e a boca ao espirrar ou tossir com a parte interna do cotovelo, manter o ambiente ventilado, evitar aglomerações se estiver doente e não compartilhar objetos pessoais.

“4 – o vírus é muito mais resistente em superfícies metálicas onde pode se manter vivo por até 12 horas”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Falso
O tempo de permanência do vírus em superfícies inorgânicas, como as de metal, depende de vários fatores, como a temperatura ambiente e o tipo de material. Por isso, não é correto afirmar que o SARS-CoV-2 consegue resistir por 12 horas em qualquer superfície metálica. Sua resistência pode, inclusive, ser bem maior do que a que está descrita no post. Em superfícies inanimadas como as de metal, vidro e madeira, o vírus pode se manter infeccioso por vários dias em alguns casos.
O artigo de revisão de 22 estudos sobre diferentes tipos de coronavírus mostra que um deles, o HCoV, pode permanecer por até cinco dias sobre o ferro a 21 graus. Outras cepas, como o MERS-CoV, no entanto, conseguem persistir por 48 horas a uma temperatura de 20 graus nesse tipo de material.

“Assim, evitar passar as mãos em corrimãos é importantíssimo”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Verdadeiro
Como o tempo de permanência do vírus em superfícies inorgânicas pode durar muitas horas ou dias, é recomendável evitar o contato das mãos com qualquer área que seja tocada por muitas pessoas – e os corrimãos de escadas são uma delas. “A inativação do vírus não é imediata em nenhuma superfície, a menos que algum desinfetante seja usado”, explica a pesquisadora Camila Romano, da USP.
Também deve ser evitado o contato com outros locais onde as pessoas geralmente põem as mãos, como barras de apoio em ônibus, trens e metrô, e até carrinhos e cestas de supermercado. “Todas essas superfícies são igualmente perigosas, de metal ou não”, destaca Romano.

“5 – Conselhos: Beber água quente ou chás quentes para matar o vírus”
Trecho de post no Facebook que, até as 14h de 12 de março de 2020, tinha 219 compartilhamentos
Falso
Até agora, apenas desinfetantes, como álcool em gel 70%, têm eficácia comprovada em eliminar o novo coronavírus. Água ou outras bebidas quentes, como chá e café, não têm nenhum poder de matar o causador da Covid-19. “Os vírus infectam as células, e vivem dentro delas. Por regra, vírus são parasitas intracelulares obrigatórios. Portanto, além de água quente não ser um agente desinfetante, ela (mesmo se fosse) não entra em contato direto com todas as partículas virais que estão infectando o hospedeiro. Portanto, não há como ser eficaz”, explica Camila Romano, da USP.
Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.
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