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Análise de Osmar Terra sobre efeitos da quarentena na Itália não tem respaldo científico
04.04.2020 - 18h00
Rio de Janeiro - RJ
Neste sábado, o ex-ministro da Cidadania e deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) tuitou um gráfico mostrando o número de novos casos de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, na Itália antes e depois do país instituir medidas de quarentena. Segundo ele, isso provaria a ineficiência da medida. A Lupa analisou essa informação, confira:
“Insisto que a quarentena aumenta os casos do coronavírus. A curva da epidemia nos países que a adotaram mostra isso (veja a curva do contágio na Itália,a linha verde marca início de quarentena radical). Isso pq  o contágio se transfere da rua para dentro de casa e fica mais fácil”
Deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), no Twitter, dia 4 de abril de 2020
Falso
Embora os números citados pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) estejam corretos, eles não indicam a ineficiência da quarentena. Pelo contrário, a manutenção da tendência de crescimento no número de casos nos dias imediatamente depois da instituição da medida é esperada. Segundo as pesquisas mais recentes sobre o assunto, o efeito da quarentena só começa a ser sentido entre oito e 11 dias depois de seu início. A tese do ex-ministro é falha por dois motivos: primeiro, ignora o tempo de incubação da doença. Segundo, ignora o fato de que o registro do resultado dos testes não é imediato.
A data marcada em verde no gráfico publicado pelo deputado é o dia 9 de março. Neste dia, o governo italiano estendeu para todo o território do país medidas de restrição de movimento. Até então, elas eram exclusivas para partes do norte do país onde a crise era mais severa, incluindo a Lombardia, a região de Veneza, o norte da Emília-Romanha e o leste de Piemonte. Você pode ler o decreto na íntegra, em italiano, aqui.
A fase mais grave da pandemia na Itália se seguiu logo após esse decreto. Segundo dados do Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), em 9 de março, a Itália tinha 7.375 casos confirmados, e 366 mortes. Quatro dias depois, em 13 de março, já eram 15.113 casos e 1.016 mortes. A situação se agravou ainda mais nos dias seguintes: o número de casos dobrou em cinco dias, e o número de mortes dobrou em quatro. Os dados podem ser vistos aqui.
Isso não é, porém, um indício de que a quarentena deu errado. Na verdade, esse números ainda refletem os dias anteriores ao decreto. Agentes patogênicos, como vírus e bactérias, não afetam o organismo assim que o infectam. No caso do SARS-Cov-2, o período de incubação pode durar de um a 14 dias, mas é mais comum que ele dure cerca de cinco, segundo a Organização Mundial da Saúde. Ou seja, uma pessoa que desenvolveu sintomas no dia 13 de março possivelmente contraiu o vírus antes do dia 9.
Isso não significa que, após sentir os primeiros sintomas no dia 13, ela aparecerá imediatamente nas estatísticas. Após apresentar os sintomas, o paciente é examinado. Somente quando o caso é confirmado, passará a fazer parte dos números apresentados pelas autoridades. Segundo o próprio ECDC, as datas nos relatórios oficiais correspondem à “data de registro” do caso, e não à data na qual o teste foi administrado, ou quando o paciente relatou os sintomas pela primeira vez.
Esse processo pode demorar alguns dias. As autoridades italianas não especificam em seus relatórios diários quando os testes foram realizados, mas os Países Baixos podem servir como exemplo, pois fornecem tabelas com esse dado. No último relatório, publicado neste sábado (4) pelas autoridades de saúde dos Países Baixos, é possível ver que cerca de metade dos “novos” casos de pessoas hospitalizadas com a doença são, na verdade, de pessoas que deram entrada em instituições de saúde no dia 2 de abril ou antes. No caso mais extremo, uma pessoa hospitalizada em 15 de março só teve seu caso confirmado agora.
O tempo de incubação e a espera entre a realização do exame e a apresentação dos resultados, portanto, faz com que o efeito da quarentena nas estatísticas não seja imediato. Uma nota técnica do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS) da PUC do Rio de Janeiro estima que essa diferença seja de entre 8 e 11 dias.
Nesta nota técnica, o caso da Itália é analisado. O relatório pontua que as medidas não foram tão eficientes quanto as da China e as da Coreia do Sul porque só foram tomadas “quando o país já tinha um número expressivo de casos confirmados”. Contudo, isso não quer dizer que elas não funcionaram. “Ao avaliar o crescimento na escala logarítmica, percebe-se uma desaceleração no crescimento de novos casos”, diz a nota, que foi publicada em 19 de março.

Resultados

Apesar de a situação na Itália ainda ser extremamente grave, os dados mostram que a quarentena está dando resultado. Desde o dia 22 de março, quando o país registrou seu maior número de novos casos (6.557), a expansão da doença se estabilizou. O número de mortes por dia está em tendência de queda desde o dia 28, quando foram 971 registros deste tipo no país.
Uma das métricas mais utilizadas por pesquisadores para analisar se há uma desaceleração na epidemia de Covid-19 é o tempo que leva para o número de casos e o número de mortes dobrar. Em 16 de março, o total de pacientes infectados na Itália, 23.980, era pouco menos do que o dobro de quatro dias antes, 12 de março (12.460). O número de casos no dia 4 de abril (119.827) é pouco mais do que o dobro do dia 23 de março (59.183). Ou seja, se antes o número total de casos dobrava a cada quatro dias, agora esse número dobra a cada 12. Esses números são de casos totais. Logo, incluem o número de pessoas que morreram ou se curaram.
Já o número de mortes pela doença, segundo o ECDC, dobra a cada 10 dias na Itália. A média mundial, atualmente, é sete. Nos Estados Unidos, onde a epidemia passa por sua fase mais aguda, as mortes dobram em apenas três dias, enquanto no Reino Unido isso está acontecendo a cada dois.

Osmar Terra

Não é a primeira vez que Terra compartilha desinformação sobre a Covid-19 no Twitter. No dia 31, ele publicou informações equivocadas sobre as políticas adotadas pelos Países Baixos no combate à doença. Até a publicação desta matéria, ele não tinha corrigido ou apagado este conteúdo.
A Lupa deixa este espaço aberto caso o deputado queira se posicionar.
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Iara Diniz
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