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Lupa
Reportagem italiana sobre pesquisa com coronavírus é antiga e não tem ligação com causador da Covid-19
08.04.2020 - 19h49
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais uma reportagem exibida no programa TGR Leonardo, da emissora italiana RAI, em 2015, sobre um estudo feito com um coronavírus. De acordo com a gravação, cientistas chineses inseriram uma proteína retirada de morcegos em um tipo de coronavírus adaptado para ratos. O experimento teria criado um “supervírus” capaz de infectar seres humanos em um laboratório na cidade de Wuhan, na China. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:
“Reportagem da RAI sobre o coronavírus em 2015… Vejam!”
Legenda de vídeo no Facebook que, até as 17h de 8 de abril de 2020, tinha 590 compartilhamentos
Falso
O vídeo analisado pela Lupa é antigo e trata de uma pesquisa sem qualquer relação com o novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da Covid-19. A informação já foi desmentida tanto pelo programa de TV TGR Leonardo, em edição recente, quanto pela revista Nature, que havia publicado em 2015 o artigo científico sobre o estudo retratado na RAI  Por isso, é falsa a afirmação de que a reportagem prove que o vírus responsável pela atual pandemia foi desenvolvido propositalmente em um laboratório na China.
O artigo que deu origem à reportagem da RAI saiu na Nature em 9 de novembro de 2015. A revista incluiu uma nota no final do texto, em 30 de março deste ano, dizendo que ele tem sido usado como base de teorias não verificadas sobre a suposta engenharia em laboratório do causador da Covid-19. “Não há evidências de que isso seja verdadeiro; cientistas acreditam que um animal é a mais provável origem do coronavírus”, diz o texto.
O estudo de 2015 trata da possibilidade de seres humanos serem contaminados por um novo tipo de coronavírus presente em animais. A preocupação surgiu depois que variantes dessa família de vírus causaram os surtos de SARS (síndrome respiratória aguda grave), de 2002 a 2003, e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), a partir de 2012. Acredita-se que as cepas responsáveis por essas doenças possam ter vindo de animais.
Para analisar a possibilidade de isso acontecer, os cientistas escolheram o SHC014-CoV, um tipo de coronavírus presente em uma espécie de morcegos. Ele foi então modificado em laboratório, com base no código genético do vírus da SARS adaptado para infectar ratos. Os cientistas conseguiram demonstrar que a versão modificada do SHC014-CoV, que chamam de vírus quimérico similar ao SARS-CoV, se replicou nos pulmões de ratos e também contaminou células respiratórias humanas in vitro, ou seja, em laboratório.
O vírus quimérico, no entanto, tem uma sequência genética muito diferente daquela presente no SARS-CoV-2. Logo, não poderia ter causado a pandemia, nem mesmo sofrendo mutações. Na edição de 26 de março do TGR Leonardo, a apresentadora do programa diz que a reportagem de cinco anos atrás tem sido associada de forma errada aos acontecimentos atuais. Em entrevista, um dos responsáveis pelo estudo da Nature, Antonio Lanzavecchia, diretor do Instituto de Pesquisa em Biomedicina de Bellinzona, na Suíça, desmentiu a associação feita com o novo coronavírus. “O vírus atual é totalmente diferente do primeiro vírus da SARS e também do vírus estudado em 2015”, disse.
Ao contrário do que diz a reportagem da RAI, a maior parte dos especialistas envolvidos é formada por norte-americanos que trabalham na Universidade da Carolina do Norte. Apenas dois dos autores da pesquisa de 2015 são chineses. As análises também não foram feitas no “Wuhan Virology Institute” (Instituto de Virologia de Wuhan, em português), como aparece no vídeo legendado em português, mas no Laboratório Baric, localizado na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. O texto indicando a cidade de Wuhan foi incluído digitalmente e não aparece no vídeo original.
Um artigo recente da Nature também mostrou que, de acordo com análise do código genético, é improvável que o SARS-CoV-2 tenha sido desenvolvido em laboratório. Os cientistas afirmam que a sequência identificada no novo coronavírus não provém de nenhum outro vírus pesquisado. Além disso, seu modo de atuação em células humanas é diferente do registrado em outras cepas da família.
A Lupa integra uma coalizão de mais de 100 plataformas de checagem em mais de 70 países para verificar informações sobre o novo coronavírus. A reportagem da RAI também foi analisada por alguns dos integrantes desse grupo: ColombiaCheck, da Colômbia; Faktograf, da Croácia; e Maldita e Newtral, da Espanha. Uma checagem semelhante foi feita ainda por Boatos.org e Projeto Comprova.
Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.
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Gabriela Soares
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