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Lupa na Ciência: Uso de máscaras contra Covid-19 deve ser combinado a outras medidas protetivas
24.04.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Ainda não há estudos randomizados específicos que medem a eficácia da proteção de máscaras cirúrgicas e caseiras contra o novo coronavírus
  • Evidências a partir de estudos com outros tipos de vírus respiratórios levam à conclusão de que as máscaras podem ser consideradas uma barreira eficaz contra a disseminação
  • A eficácia do uso de máscaras depende da combinação com outras medidas protetivas e do correto manuseio delas
  • Frente às novas descobertas sobre o novo coronavírus, países estão recomendando o uso de máscaras pela população em geral
As máscaras cirúrgicas e caseiras servem para conter a propagação do novo coronavírus e proteger a população? Esta é uma pergunta aparentemente simples, mas que vem dividindo as opiniões e provocando mudanças nas recomendações em meio à pandemia em vários países.
As dúvidas surgem porque não há uma grande quantidade de evidência científica sobre o impacto positivo da adoção de máscaras pela população em geral. Há, porém, estudos comprovando que elas ajudam a reduzir a possibilidade de contágio entre profissionais de saúde em hospitais. Além disso, são poucos e preliminares os estudos que medem o grau de proteção de máscaras especificamente contra o novo coronavírus.
Em artigo publicado na revista Lancet no dia 16 de abril, pesquisadores ressaltam que, na falta de pesquisas específicas, é preciso compilar o que já se têm de estudos para chegar a consensos. O artigo indica que, até o momento, revisões da literatura médica convergem para a ideia de que o uso de máscaras pela população em geral é importante para o controle da atual pandemia e deve ser recomendado.
Entretanto, essa recomendação não é absoluta. Em um cenário de escassez de material para profissionais da saúde (no caso das máscaras cirúrgicas, principalmente), o uso desses equipamentos pela população comum não deve ser estimulado. Mais importante, porém, é que a adoção desse tipo de proteção não deve ser acompanhada de um relaxamento das demais medidas protetivas, como higiene das mãos e distanciamento social. A Lupa revisou uma série de artigos científicos sobre o assunto para sintetizar da melhor forma os principais pontos.

As evidências com outros vírus

No início do ano, quando do aumento de casos da Covid-19, a Organização Mundial da Saúde e autoridades de diversos países passaram a recomendar que somente pessoas infectadas e com sintomas da doença usassem máscaras – para evitar a falta de equipamento àqueles que realmente necessitam. Estudos anteriores comprovam que esses dispositivos servem como uma barreira física para a propagação de gotículas respiratórias ou aerossóis (partículas minúsculas liberadas no ar) que contenham vírus respiratórios.
Uma das pesquisas mais relevantes, publicada no início de abril na Nature Medicine, testou a eficácia das máscaras cirúrgicas em pessoas com pelo menos uma infecção respiratória ativa provocada por coronavírus humano sazonal (mais brando do que o novo), influenza ou rinovírus também sazonal. O SARS-CoV-2 não foi incluído, pois a pandemia ainda não havia começado no início do estudo. Os 246 participantes foram divididos em dois grupos, sendo que metade usou máscaras cirúrgicas e a outra metade não. Todos tiveram o ar expirado coletado por uma máquina durante 30 minutos. Como resultado, os pesquisadores encontraram partículas virais em até 40% das amostras dos voluntários que não usaram máscara. Entre os que usaram, não foram encontradas gotículas ou aerossóis contendo coronavírus ou rinovírus, mas em 4% das amostras houve presença de gotículas contendo influenza. A conclusão dos pesquisadores, que corrobora estudos anteriores, foi de que o uso de máscaras cirúrgicas por pessoas sintomáticas ajuda na prevenção de transmissão de vírus respiratórios.

Máscaras e o novo coronavírus

Só que as características já identificadas do novo coronavírus deixaram a equação um pouco mais complicada. Já nos primeiros meses do ano, descobriu-se que o vírus é transmitido com muita facilidade na fase inicial da doença, quando as pessoas ainda não têm sintomas, e mesmo por aquelas que permanecem assintomáticas.  Além disso, enquanto as formas mais comuns de propagação de outros vírus respiratórios são por meio de tosse ou espirro, um experimento feito por cientistas americanos constatou que o simples ato de falar com outra pessoa é suficiente para expelir milhares de microgotículas de saliva contendo SARS-CoV-2. Somou-se a isso um estudo publicado em meados de abril no New England Journal of Medicine, que revelou que o novo coronavírus permanece no ar por até três horas.
A partir daí, alguns países começaram a repensar suas estratégias. O Centro de Controle e Prevenção de Doença (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, publicou uma cartilha no início de abril recomendando o uso de máscaras caseiras mesmo por pessoas que não tenham sintomas, caso elas saiam para espaços públicos. Países como Canadá, Coréia do Sul e República Checa também passaram a fazer essa recomendação, e alguns tornaram obrigatório o uso das máscaras para entrada em supermercados e outros locais públicos.
Já no Brasil, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, recomendou, no início de abril, que a população fizesse sua própria peça de proteção, com pano e elástico, para usar ao sair na rua. Alguns estados e prefeituras estão tornando o uso da máscara obrigatório em determinadas situações. Na OMS, a recomendação oficial segue a mesma do início do ano, mas técnicos da organização indicam que ela pode estar sendo revisada.

Eficácia dos equipamentos caseiros

Os países evitam falar no uso de máscaras cirúrgicas, apesar de a grande maioria dos estudos ser feito com elas, para não agravar o problema de falta de oferta das peças aos profissionais da saúde. Mas especialistas dizem que máscaras caseiras podem ser um bom substituto, e já há pesquisas comprovando isso.
Uma das mais completas, publicada em 2013 na Disaster Medicine and Public Health Preparedness – periódico da Universidade de Cambridge –, testou em laboratório a eficácia de diferentes máscaras caseiras e cirúrgicas em uma possível pandemia do vírus influenza. Embora nenhuma delas seja tão eficiente quanto as do tipo N95 (que possui um filtro de ar capaz de criar uma barreira contra 95% dos agentes patogênicos e deve ser usada apenas por profissionais de saúde), todas tinham algum potencial de bloqueio mecânico das partículas com o vírus, variando entre 49% e 89%. O tecido do saco do aspirador de pó, por exemplo, bloqueou 86% das partículas, enquanto o do pano de prato bloqueou 73%.
Entretanto, para que as máscaras caseiras sejam eficazes, é preciso que sigam algumas normas, tanto de fabricação quanto de manuseio. De acordo com o Ministério da Saúde, elas devem ter pelo menos duas camadas de tecido em bom estado de conservação. Tecidos como o do saco do aspirador de pó (sem uso, evidentemente), os compostos de poliéster e algodão, o algodão puro ou as fronhas em tecido antimicrobiano são algumas opções. A máscara deve cobrir totalmente a boca e o nariz. Além disso, o ministério recomenda que o uso seja individual e que sempre se lave as mãos com água e sabão antes de colocar a máscara. Veja mais recomendações de como usar a máscara aqui.

A soma das evidências

As mais recentes revisões sobre a eficácia das máscaras mostram que ainda são necessários estudos randomizados, controlados e específicos com os diferentes tipos de equipamentos na proteção contra o novo coronavírus para uma avaliação precisa da sua  eficácia. Porém, as evidências atuais levam à conclusão de que estas podem ser consideradas uma barreira eficaz, desde que combinadas com outras medidas protetivas.
Em artigo publicado no Journal of the American Medical Association em meados de abril, especialistas destacam que a indicação de uso de máscaras por órgãos governamentais é importante, mas que é preciso ter cuidado para que isso não induza a população a relaxar nas outras recomendações. Também é importante pontuar que, embora as máscaras reduzam a possibilidade de transmissão, ninguém deve se considerar 100% protegido. É preciso lembrar que há a possibilidade de partículas de aerossol contendo o vírus penetrarem na máscara ou entrarem no corpo pelos olhos. Por isso, o uso de máscaras caseiras pela população em geral deve somar-se às demais medidas essenciais para conter a disseminação do coronavírus: manter o distanciamento social (e permanecer em casa, se possível), além de seguir uma rigorosa higiene das mãos.
FONTES:
The Lancet. Artigo disponível em:
Nature Medicine. Artigo disponível em:
New England Journal of Medicine . Artigos disponíveis em:
Centro de Controle e Prevenção de Doença (CDC). Recomendações disponíveis em:
Organização Mundial da Saúde. Disponível em:
medRxiv. Artigo disponível em:
Disaster Medicine and Public Health Preparedness. Disponível em:
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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