UOL - O melhor conteúdo
Lupa
Lupa na Ciência: Estudos refutam teoria de que novo coronavírus tenha sido criado em laboratório
27.04.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Estudos descartam que o novo vírus, que surgiu no fim de 2019, tenha sido criado em laboratório
  • Análise do DNA do SARS-Cov-2 mostra mais semelhança com o coronavírus que afeta apenas morcegos do que com os que afetam humanos
  • Ainda não há certeza sobre como o vírus passou de morcegos a seres humanos, mas pangolins podem ter sido hospedeiros intermediários, indica um estudo
  • Apesar das pesquisas, o governo americano diz estar investigando a hipótese de o novo coronavírus ter escapado por acidente de um laboratório em Wuhan
Uma teoria que começou a se espalhar no início da pandemia do novo coronavírus e voltou a ganhar os noticiários de todo o mundo nos últimos dias é a de que o patógeno teria sido criado artificialmente pelos chineses no Instituto de Virologia de Wuhan, localizado entre as colinas que rodeiam o primeiro epicentro da Covid-19. Alguns entusiastas da especulação dizem que o vírus teria sido fabricado como parte de um plano maquiavélico para derrubar os mercados, enquanto outros alegam que foi um vazamento acidental do laboratório. Há, ainda, uma teoria reversa: na China, circulam publicações afirmando que o vírus teria sido criado pelos norte-americanos. Contudo, por mais que o rumor tenha ganhado novos contornos recentemente, os mais importantes estudos científicos sobre o novo coronavírus já indicavam, desde março, que ele teve origem animal, não sofreu manipulação genética e sua transmissão ocorreu de forma natural.
O assunto, que no início parecia uma bem elaborada teoria da conspiração, ganhou ares de ciência quando, na última semana, o virologista francês Luc Montagnier, um dos vencedores do Nobel de Medicina de 2008 pela descoberta do vírus HIV nos anos 1980, afirmou em uma entrevista que analisou a sequência genética do SARS-Cov-2 e concluiu que ele possui mutações que só podem ser feitas artificialmente. Sua tese, entretanto, foi duramente criticada pela comunidade científica.

Estudos descartam manipulação genética

Os principais estudos publicados sobre o assunto rejeitam essa teoria. Um deles, disponível desde meados de março na revista científica Nature Medicine, se propôs a comparar o genoma desse novo coronavírus com os sete outros da família Coronaviridae conhecidos por infectar seres humanos. Os estudos indicaram duas características do SARS-Cov-2 que afastam a ideia de que ela tenha sido produzido em laboratório.
A primeira delas é a estrutura central do vírus, distinta de outros coronavírus que afetam humanos, porém muito semelhante a um tipo que infecta morcegos. De acordo com os pesquisadores, se alguém estivesse tentando manipular o novo patógeno, o teria construído a partir da espinha dorsal – ou seja, à imagem e semelhança – de um daqueles que já é conhecido por causar a doença em humanos. Como este possui 96% de similaridade com o do morcego e de 85,5% a 92,4% com o de pangolins (animais vendidos ilegalmente na China por sua carne), é de se supor que tenham sido transmitidos destes animais ao homem. A tese foi reforçada por uma pesquisa publicada no final de março na mesma revista, sugerindo que os pangolins devem ser considerados hospedeiros intermediários do vírus pela similaridade genética entre os patógenos encontrados neles e nos humanos.
A segunda característica é um pouco mais complexa, mas igualmente importante. O SARS-Cov-2, assim como os outros coronavírus, tem uma estrutura muito primitiva, formada apenas por um genoma de RNA, envolto em uma camada que contém proteínas S na sua superfície (o nome vem do inglês, spike protein). Estas proteínas, que pelo seu formato de coroa deram nome à família, são responsáveis por se ligarem à proteína ACE2 do corpo humano e, assim, invadir as células do hospedeiro.
Os pesquisadores resolveram ir a fundo na estrutura da proteína S do SARS-Cov-2 e viram que ela tem algumas diferenças daquelas presentes nos outros coronavírus. Essas mutações a tornaram tão eficazes em se ligar à ACE2 e invadir células do corpo humano que isso só poderia ter sido resultado de uma seleção natural, e não de uma engenharia genética. Para comprovar, os cientistas, usando softwares avançados, simularam em computador possíveis mutações na proteína S presente em outros coronavírus para ver se chegariam às mesmas alterações que as presentes no atual vírus, mas nenhuma das apontadas pelo programa foi tão eficiente quanto a encontrada SARS-Cov-2. “Isso torna mais improvável ainda que o novo coronavírus tenha sido criado em laboratório”, destacaram os pesquisadores.

Novas teorias mobilizam autoridades

O rumor poderia ter parado por aí. Entretanto, na última semana, uma reportagem do jornal The Washington Post mostrou a existência de dois telegramas diplomáticos de março de 2018, oriundos da embaixada dos Estados Unidos em Pequim, apontando que havia falhas de segurança e más condições de trabalho (porém sem apresentar evidências) no Instituto de Virologia de Wuhan, que tem o grau máximo de biossegurança. Nos Estados Unidos, a especulação de que teria ocorrido uma transmissão acidental do vírus para cientistas que pesquisavam o coronavírus voltou a ganhar força, levando o presidente Donald Trump a acusar, uma vez mais, a China pela nova pandemia e abrir uma investigação sobre o assunto. Analisando dados históricos, é possível inferir que as especulações do presidente americano não são totalmente absurdas, já que em 2004 a revista Science publicou um artigo que alertava para casos de cientistas que possivelmente foram infectados de forma acidental com o vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS) em laboratórios.
Mas no caso do novo coronavírus, as evidências de que a transmissão ocorreu de forma natural são tão fortes que a Organização Mundial da Saúde (OMS) atestou, na última semana, que o patógeno é de origem animal e não vem de nenhum laboratório. “Todas as evidências que temos sugerem que o vírus teve origem animal e não sofreu manipulação genética”, esclareceu a porta-voz da organização, Fadela Chaib.
Fonte:
Revista Nature. Artigos disponíveis em:
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
Clique aqui para ver como a Lupa faz suas checagens e acessar a política de transparência
A Lupa faz parte do
The trust project
International Fact-Checking Network
A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos.
A Lupa está infringindo esse código? FALE COM A IFCN
Tipo de Conteúdo: Explicador
Conteúdo que explica assuntos que são alvo de ondas desinformativas nas redes sociais.
Copyright Lupa. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

Leia também


09.02.2024 - 14h15
Saúde
A vacina contra Covid é obrigatória para crianças? Entenda o que diz a lei

A vacinação de crianças de seis meses a menores de 5 anos contra Covid-19 é obrigatória no Brasil desde o início de 2024. Todavia, os pais não são forçados a imunizar seus filhos e crianças não vacinadas não podem ser impedidas de frequentar instituições de ensino. Entenda como funciona a obrigatoriedade da vacinação de crianças no Brasil

Maiquel Rosauro
05.12.2023 - 08h00
Justiça
Lei Maria da Penha: entenda como a lei protege mulheres de violência doméstica

Lei de 2006 cria uma estrutura de atendimento e proteção às vítimas de violência doméstica. Entre os serviços oferecidos, está assistência jurídica e médica, além de medidas protetivas para afastar o agressor. A Lupa conversou com especialistas em Direito da Mulher para entender quais são as garantias e os pontos principais da Lei Maria da Penha.

Evelyn Fagundes
27.11.2023 - 13h30
Eleições
Entenda como funciona o teste de segurança das urnas eletrônicas feito pelo TSE

O Teste Público de Segurança (TPS), realizado pelo TSE, é uma das principais etapas de verificação da segurança das urnas eletrônicas. Na edição deste ano, realizada a partir desta segunda-feira, o TPS traz novidades como o teste dos modelos de urna UE2020 e UE2022. Entenda o que é o TPS e como são feitos os testes durante o evento.

Bruno Nomura
23.11.2023 - 12h46
Crime
Como a lei brasileira pune o uso de IA para gerar nudes ou pornô fakes

O uso de apps para criar imagens geradas por Inteligência Artificial tem ultrapassado os limites, ao permitir a manipulação de registros com nudes falsos e vídeos pornôs. A Lupa fez um levantamento dos principais artigos do Código Penal que podem tipificar o crime de manipulação de imagens e dos projetos de leis em tramitação que tratam do tema

Iara Diniz
08.11.2023 - 11h30
explicador
Entenda a PEC que limita os poderes do STF e o que está em jogo

Proposta de Emenda à Constituição nº 8/2021 busca limitar as decisões monocráticas e os pedidos de vista de ministros do Supremo. Entenda como funciona a tramitação da iniciativa, os caminhos que precisam ser trilhados para que ela entre em vigor e por que o Congresso tem buscado formas de reduzir o poder do STF.

André Borges
Lupa © 2024 Todos os direitos reservados
Feito por
Dex01
Meza Digital