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Lupa na Ciência: por que é cedo para comemorar a ‘promissora’ vacina contra Covid-19
22.05.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • A empresa Moderna Therapeutics anunciou que oito entre 45 voluntários em seu estudo para desenvolver uma vacina contra a Covid-19 desenvolveram anticorpos neutralizantes ao vírus
  • As informações sobre os demais participantes não foram divulgadas
  • Especialistas afirmam que os resultados são muito preliminares, e uma análise mais precisa depende da divulgação do estudo completo
  • A empresa foi autorizada a avançar para a próxima etapa da pesquisa, que contará com 600 voluntários
  • Além da vacina produzida pela Moderna, outras oito estão em fase de testes clínicos, porém não há dados sobre os resultados
No início desta semana, um anúncio da empresa norte-americana Moderna Therapeutics reacendeu a esperança de bilhões de pessoas que anseiam por uma imunização ao novo coronavírus (SARS-CoV-2) e pelo retorno a uma “vida normal”. O comunicado animou também as bolsas de valores de todo o mundo. A Moderna disse que a primeira vacina experimental contra a Covid-19 testada em humanos mostrou ser “segura e bem tolerada em geral” em um experimento com 45 voluntários saudáveis. Sem entrar em detalhes, o comunicado indica apenas que o protótipo gerou níveis de proteção semelhantes ou superiores aos do sangue de pacientes que se recuperaram da doença nos oito primeiros participantes. Especialistas pediram cautela, no entanto, apontando falta de dados relevantes e possíveis inconsistências. Assim, com o passar dos dias, as ações da empresa foram sofrendo uma queda gradual, chegando no final da semana em baixa e colocando em dúvida o que significam os resultados no atual contexto da pandemia.
A vacina da Moderna, que está sendo desenvolvida em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), aposta em uma técnica diferente das vacinas tradicionais, baseada no mRNA (ou RNA mensageiro) do vírus. Ela consiste em introduzir no corpo uma parte do material genético do vírus que contém as instruções para produzir a proteína que o liga às células do hospedeiro – chamada spike. Ao reconhecer a presença deste componente, o processo desencadearia, em tese, uma resposta imune sem risco (veja o infográfico) Essa técnica é bastante diferente dos modelos tradicionais de desenvolvimento de vacinas.  Em geral, eles partem do princípio de injetar no corpo proteínas ou o próprio vírus (morto ou atenuado), induzindo o organismo a produzir uma resposta imunológica ao invasor.
As vacinas baseadas no RNA mensageiro são mais fáceis de serem desenvolvidas, já que os cientistas não precisam trabalhar com o vírus completo, mas sim com fragmentos dele. No entanto, até hoje, nenhum estudo que usasse essa técnica foi concluído. Portanto, mesmo que sejam pesquisadas há anos, imunizações baseadas no mRNA nunca foram licenciadas para comercialização e aplicação em pessoas.

Falta de resultados consistentes

Em seu anúncio recente, a Moderna também disse os estudos pré-clínicos da vacina mostraram resultados positivos. Nos pulmões de ratos vacinados e posteriormente expostos ao SARS-CoV-2, o vírus não conseguiu se multiplicar, segundo a empresa. Porém, uma das críticas de especialistas é que estes resultados não foram publicados em revistas científicas. Assim, são desconhecidas as metodologias aplicadas. Além disso, cientistas independentes, com a imparcialidade exigida, não tiveram ainda a oportunidade de revisar os dados – o chamado processo de revisão por pares. Os resultados da Moderna, portanto, são preliminares.
Os dados mais completos sobre vacinas que provocam a produção da proteína spike vêm de outra empresa: a chinesa CanSino, cujos resultados dos testes pré-clínicos foram publicados na revista Science. Os pesquisadores mostraram que a vacina foi eficaz total ou parcialmente (dependendo das doses administradas) em ratos e outros primatas, sem causar efeitos colaterais relevantes. Em outro estudo, ainda sem revisão para publicação, pesquisadores da Universidade de Oxford concluíram que macacos que receberam doses de imunização que estimulavam a produção da proteína spike ficaram protegidos de desenvolver pneumonia quando expostos ao novo coronavírus. Porém tanto os que receberam quanto os que não receberam a vacina mostraram quantidades similares de SARS-CoV-2 nas vias nasais, o que indica que o corpo pode não ter conseguido combater a replicação do vírus nesta região.
Mesmo sem resultados totalmente conclusivos, as três instituições receberam autorização para avançar nos testes com humanos.

Dúvidas sobre tipo de imunização

O relatório da Moderna indica que oito dos 45 voluntários no estudo desenvolveram anticorpos neutralizantes – proteção que impedir o coronavírus de infectar células humanas. Mas a empresa não esclareceu o que ocorreu com os outros 37 voluntários. Não se sabe se eles também foram testados para esse tipo de anticorpos. A empresa diz apenas que os dados ainda não estão disponíveis.
Outra questão em aberto: sabe-se que os voluntários receberam a segunda dose da vacina da Moderna cerca de duas semanas antes da apresentação dos resultados, mas a empresa não foi clara sobre o nível de imunização que adquiriram e nem sobre por quanto tempo os pacientes podem ficar imunes. A Moderna afirmou apenas que “os níveis dos anticorpos neutralizantes extraídos dos voluntários vacinados correspondiam aos encontrados em pacientes que se recuperaram após desenvolver sintomas graves de Covid-19”. Mas o SARS-CoV-2 é um vírus muito recente, e a quantidade de anticorpos necessária para que o corpo esteja protegido dele, assim como a duração dessa proteção, ainda são uma incógnita. Isso vale tanto para quem foi infectado e se curou quanto para quem recebeu vacinas experimentais. Mais uma vez, portanto, a indicação da empresa não é conclusiva.

Expectativa por novos resultados

A vacina de mRNA da Moderna é uma das 118 fórmulas experimentais registradas, até agora, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Oito delas já estão sendo testadas em seres humanos. Esta etapa é dividida em três fases. A primeira destina-se principalmente a avaliar o grau de proteção que diferentes dosagens conferem e possíveis efeitos colaterais. As fases seguinte (2 e 3) são para testes em larga escala (com centenas, e depois milhares, de voluntários), e determinar se realmente protegem os seres humanos, quais as dosagens necessárias para isso e qual o grau de segurança dessa proteção.
No caso da Moderna, antes mesmo do comunicado emitido nesta semana, a Food and Drug Administration (FDA), agência americana equivalente à Anvisa no Brasil, já havia autorizado a empresa a avançar nos estudos e iniciar a fase 2, que contará com 600 voluntários. A terceira fase está em planejamento, e o trabalho prático deve começar em junho.
A divulgação de resultados parciais tem sido uma constante na pandemia do novo coronavírus. Por isso, cada vez mais é necessário analisá-los de forma minuciosa e com cautela. Apesar da velocidade com que as pesquisas estão sendo desenvolvidas, um artigo recente publicado na revista Science estima que, no melhor dos cenários, uma vacina segura contra a Covid-19 só estaria disponível no final deste ano ou no início de 2021.
Fontes:
Organização Mundial da Saúde (OMS). Documento disponível em:
https://www.who.int/who-documents-detail/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines
Universidade de Oxford. Artigo disponível em:
https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.05.13.093195v1
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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