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Lupa na Ciência: Resultados de primeira fase de testes da vacina de Oxford com humanos ainda são desconhecidos
08.06.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Vacina desenvolvida na Universidade de Oxford começará a ser testada em um grupo de 2 mil brasileiros, que farão parte da terceira fase de testes
  • O grupo de pesquisa só divulgou, até o momento, dados de estudos feitos em macacos. Os resultados foram considerados positivos pelos autores do estudo, mas contestados por outros cientistas
  • A tecnologia usada para esta vacina nunca foi aprovada para comercialização, pois estudos anteriores não indicaram a eficácia esperada
  • A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) coordenará os voluntários brasileiros, que serão profissionais atuando na linha de frente
  • A universidade inglesa espera que, se os resultados forem positivos, a vacina possa ser comercializada ainda no final deste ano
Na semana passada, a Universidade de Oxford anunciou seus planos para a terceira e última fase de testes clínicos da vacina que está desenvolvendo para combater o novo coronavírus. Parte da pesquisa será feita com 2 mil voluntários brasileiros. O desenvolvimento dessa e de outras imunizações contra a Covid-19 está sendo realizado em tempo recorde: menos de seis meses entre o início das pesquisas e a última etapa de testes. A empresa farmacêutica Astrazeneca, parceira de Oxford no desenvolvimento, prevê disponibilizar a vacina no mercado antes do fim do ano, em um cenário otimista. Contudo, até o momento, os resultados da primeira fase de testes com humanos ainda não são conhecidos. Somente os testes iniciais, feitos em macacos, foram disponibilizados publicamente – e foram considerados inconclusivos por especialistas.
Chamada de ChAdOx1 nCoV-19, a vacina desenvolvida no Reino Unido utiliza uma tecnologia semelhante à da empresa chinesa CanSino Biologics, que já publicou os resultados satisfatórios da primeira fase de sua pesquisa em humanos na revista The Lancet. Ela é fabricada a partir de uma versão enfraquecida do vírus do resfriado comum, que é modificado para não se reproduzir em humanos. Nele, é adicionado um fragmento do RNA do novo coronavírus, que contém a “receita” para produção da proteína spike. “Esperamos fazer com que o corpo reconheça e desenvolva uma resposta imune à proteína spike, que ajudará a impedir que o vírus SARS-CoV-2 entre nas células humanas e, portanto, evite a infecção”, dizem os pesquisadores.
Sua tecnologia é baseada em estudos anteriores feitos para outras síndromes respiratórias, como SARS e MERS, também causadas por coronavírus. Segundo os pesquisadores, como a segurança do medicamento já havia sido testada, foi possível avançar mais rapidamente na pesquisa atual. No entanto, até hoje, nenhuma vacina que utiliza essa tecnologia foi comercializada. De acordo com artigo publicado na revista Nature, testes anteriores com esse tipo de imunização não apresentaram os resultados esperados, pois não foram capazes induzir o corpo a produzir a imunidade desejada.

Testes em macacos geram dúvidas

Até o momento, o que a Universidade de Oxford usa como referência para defender a continuidade dos estudos é um teste feito em um pequeno grupo de macacos, e que está disponível no site bioRxiv. Este site divulga estudos já prontos, porém ainda não revisados por pares nem publicados em revistas de peso.
Nesta pesquisa, seis macacos receberam doses únicas de ChAdOx1 nCoV-19 (correspondente a metade da dose que está atualmente sendo testada em humanos) e foram expostos ao novo coronavírus. Um grupo controle de três macacos não vacinados também foi infectado. Os animais foram então monitorados durante sete dias quanto a sinais de desenvolvimento da Covid-19. Depois, foram sacrificados. Os cientistas fizeram autópsia nos animais para detectar a presença do vírus em diferentes partes do corpo.
Como resultado, os pesquisadores concluíram que os macacos vacinados não desenvolveram pneumonia ou outros quadros graves da doença. Logo, apresentaram algum grau de imunidade contra o novo coronavírus. No entanto, não fica claro se a quantidade de defesa produzida pelo organismo foi capaz de protegê-los totalmente do novo coronavírus. Na autópsia, o vírus foi encontrado em algumas partes do corpo dos macacos vacinados – como, por exemplo, nas fossas nasais. Não foi avaliado se esse material correspondia a fragmentos ativos ou mortos do vírus. Os autores do estudo dizem que os resultados são animadores, mas muitos especialistas afirmam que, com os dados disponíveis até agora, pode-se concluir que a vacina teria capacidade de dar uma proteção apenas “parcial” contra o novo coronavírus.

Milhares de pessoas estão sendo testadas

Os resultados dos estudos em animais, ainda que duvidosos, foram suficientes para a Universidade de Oxford receber, no final de abril, a autorização para iniciar os testes em humanos. Na fase 1 da pesquisa clínica, cerca de mil voluntários ingleses, saudáveis e com idades entre 18 e 55 anos, foram selecionados. Metade recebeu a dose de ChAdOx1 nCoV-19 e a outra metade, uma vacina contra meningite, que é comumente aplicada em jovens. Todos os participantes receberam um diário para anotar possíveis sintomas da doença e/ou efeitos colaterais da vacina. Além disso, exames de sangue estão sendo realizados rotineiramente para avaliar se eles desenvolveram anticorpos contra a doença. De acordo com a universidade, o acompanhamento ainda está sendo feito. Por isso, os resultados ainda não foram divulgados. Enquanto isso, o recrutamento para voluntários nas fases II e III já iniciaram. Serão mais de 10 mil pessoas testadas, entre elas 2 mil brasileiros.
O Brasil foi escolhido para participar da pesquisa porque a curva de contágio ainda está ascendente. Isso facilitaria verificar, por exemplo, a porcentagem de pessoas que desenvolvem sintomas da doença nos voluntários, e acentuar a diferença entre o grupo de vacinados e o grupo placebo. Quem está coordenando o ensaio clínico é a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os voluntários selecionados serão profissionais da área da saúde ou trabalhadores de atividades de alta exposição ao vírus, como motoristas de ambulância e profissionais de limpeza dos hospitais. Todos terão idades entre 18 e 65 anos. Nenhum pode ter sido diagnosticado anteriormente com a Covid-19.
Os pesquisadores ingleses acreditam que o acompanhamento dos voluntários será feito por, pelo menos, dois meses. Depois disso, será possível divulgar resultados mais concretos sobre a eficácia da vacina em humanos. Assim, se for o caso, solicitarão uma autorização emergência para sua comercialização. Mesmo com tantas incertezas, a empresa farmacêutica Astrazeneca já fechou uma parceria com a universidade para produzir 30 milhões de doses, e espera que, no melhor dos cenários, elas comecem a ser comercializadas em setembro deste ano.
Além desta, mais de uma centena de outras vacinas contra a Covid-19 estão sendo pesquisadas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dez delas já estão na fase de testes clínicos. Enquanto os resultados não são divulgados, especialistas ao redor do mundo seguem alertando para a necessidade de manter o rigor científico nas pesquisas, e também para que as atenções se voltem às estratégias futuras de produção e distribuição das doses, para que todos sejam imunizados.
Fontes:
Nature Magazine. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/d41586-020-01092-3
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André Borges
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