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Lupa na Ciência: Apesar de polêmica envolvendo The Lancet, outros estudos recentes indicam ineficácia da cloroquina
10.06.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Maior estudo observacional com a cloroquina, publicado no final de março na revista Lancet, foi removido da plataforma por falhas nos dados. Ele afirmava que a droga não só era ineficaz, como também aumentava o risco de morte dos pacientes
  • Na mesma semana, um dos maiores ensaios clínicos que está sendo realizado com possíveis tratamentos para a Covid-19, na Universidade de Oxford, anunciou que suspendeu os testes com a cloroquina porque, em 1,5 mil pacientes, ela se mostrou ineficaz
  • A OMS, que havia suspendido as pesquisas com a droga por causa do estudo publicado na Lancet, retomou os testes. No entanto, segue afirmando que ainda não há comprovação científica sobre a eficácia do medicamento contra o novo coronavírus
Nas última semanas, a cloroquina voltou ao debate público após um estudo publicado pelo The Lancet, que comprovaria a ineficácia do remédio no tratamento da Covid-19 e aumentaria a taxa de mortalidade ser removido do periódico por inconsistências nos dados. Inicialmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu pesquisas sobre a droga, mas decidiu voltar atrás após a remoção. Outra notícia, porém, passou despercebida: líderes do projeto Recovery, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, suspenderam testes clínicos em andamento com esse medicamento porque ele não estava dando resultados. A Lupa analisou as recentes revisões dos artigos já publicados e avaliou os dados parciais das pesquisas mais recentes.
Por um lado, ainda faltam evidências científicas para comprovar que a cloroquina e a hidroxicloroquina ajudam a combater o novo coronavírus. No entanto, ainda não é possível afirmar que os tratamentos experimentais com a droga podem aumentar o risco de morte dos pacientes. Na última atualização da OMS sobre medicamentos em teste, divulgada nesta segunda-feira (8), o órgão segue afirmando que não há evidências suficientes para concluir sobre os benefícios e perigos da cloroquina.

Dados recentes seguem apontando ineficácia do medicamento

As notícias mais recentes sobre a cloroquina vêm de um dos maiores estudos clínicos randomizados para possíveis tratamentos contra a Covid-19 em andamento, que envolve 11 mil pacientes e está sendo realizado na Universidade de Oxford, no Reino Unido.  Na última sexta-feira (5), os líderes do projeto, chamado Recovery, anunciaram que não encontraram benefícios em tratar a Covid-19 com hidroxicloroquina. Por isso, essa parte dos estudos, que envolve 1,5 mil pessoas, foi encerrada precocemente. A decisão se deu a partir da análise de 1.542 pacientes tratados com a droga contra outros 3.132 que receberam um tratamento hospitalar padrão. Eles concluíram que não houve diferença significativa na taxa de mortalidade, nem no tempo de internação. Decidiram, então, voltar os esforços aos outros cinco tratamentos que estão sendo testados (Lopinavir-Ritonavir, Dexametasona, Azitromicina, Tocilizumab e plasma convalescente).
A hidroxicloroquina, que possui propriedades anti-inflamatórias e antivirais, ganhou notoriedade no início da pandemia por ter inibido a replicação do novo coronavírus em experimentos de laboratório. Mas nem sempre o que ocorre in vitro se repete no organismo humano, e até agora não há estudos robustos comprovando que a droga possa ser eficaz para tratar pacientes com a Covid-19. Os defensores do medicamento argumentam que ele precisa ser administrado em um estágio inicial da doença para funcionar, mas ainda não conseguiram comprovar essa afirmação.
“Isto (a hidroxicloroquina) não é um tratamento para Covid-19. Não funciona”, disse, em um comunicado, Martin Landray, professor da Universidade de Oxford que está liderando o projeto Recovery. De acordo com o pesquisador, os resultados desta parte do estudo serão publicados assim que passarem por revisão. No entanto, devido aos últimos acontecimentos envolvendo a droga, os cientistas acharam prudente antecipar as conclusões.
Os resultados dessa pesquisa são similares ao de dois estudos observacionais, noticiados pelo Lupa na Ciência em 15 de maio, feitos nos Estados Unidos. Publicados nos periódicos Journal of the American Medical Association (JAMA) e New England Journal of Medicine (NEJM), ambos analisaram dados de pouco mais de mil pacientes hospitalizados no país. Esses estudos convergiram para a conclusão de que o uso de hidroxicloroquina não influenciou na recuperação dos pacientes.

Retratação de estudo e a retomada dos testes

Na mesma semana em que o grupo britânico anunciou a desistência de seguir os testes com a droga, a cloroquina já havia estampado as capas de jornais por outro motivo. A revista The Lancet, uma das mais importantes publicações científicas do mundo, havia admitido uma falha na revisão de um estudo sobre o assunto, publicado em 22 de maio, e o removeu da plataforma. Este era considerado o maior estudo observacional até então com o medicamento. Após analisar os dados de quase 100 mil pessoas que testaram positivo para a Covid-19, os pesquisadores concluíram que a droga não era eficaz para o tratamento da doença e que, inclusive, aumentava o risco de morte. A informação levou a Organização Mundial da Saúde a suspender, temporariamente, os estudos com o medicamento. Assim que o artigo foi despublicado, a OMS retomou as pesquisas.
Estudos observacionais, diferentemente dos ensaios clínicos tradicionais (como o que está sendo feito pela Universidade de Oxford), coletam dados do mundo real, sem a interferência dos pesquisadores, para fazer as análises, que muitas vezes são limitadas. No caso desta pesquisa, que foi conduzida por um professor de Harvard, os dados analisados haviam sido fornecidos por uma empresa chamada Surgisphere, que teria um imenso banco internacional de prontuários de hospitais. Assim que a pesquisa foi ao ar, um grupo de médicos manifestou preocupação em uma carta aberta à Lancet, questionando como o artigo chegou às conclusões expostas. Eles haviam identificado algumas incongruências nos dados, como, por exemplo, número de pacientes em determinado país superior aos dados oficiais. A revista pediu à empresa Surgisphere para abrir sua base de dados (o que deveria ter sido feito durante a revisão do estudo), mas esta se negou a fornecer as informações. Como não tinham como provar a origem dos dados, a pesquisa foi removida da plataforma. Um artigo que havia sido publicado pelo  The New England Journal of Medicine, e que havia utilizado dados fornecidos pela mesma empresa, também foi removido. Essa pesquisa não tratava de cloroquina, mas sim da interação de medicamentos anti-hipertensivos com a Covid-19.

Pressa e rigor

Falhas nas revisões de artigos aceitos por grandes revistas científicas são raríssimas. Normalmente, um estudo leva meses e até anos para ser publicado, devido ao rigor das revisões feitas pelos especialistas, que muitas vezes retornam a pesquisa aos autores solicitando modificações e ajustes. No entanto, a atual pandemia tem mudado a velocidade com que estas revisões são feitas, já que se trata de uma emergência mundial. A maioria dos estudos divulgados até agora possuem dados confiáveis, mas os erros registrados recentemente levantaram um alerta, mostrando que a comunidade científica deve buscar um balanço mais seguro entre a velocidade das publicações e o rigor das revisões, a fim de oferecer apenas dados confiáveis para as tomadas de decisão.
Enquanto a cloroquina segue sendo estudada, países como Portugal, França e Espanha, que inicialmente haviam autorizado o uso do medicamento, voltaram atrás e há semanas mantêm a posição de não recomendar a droga para o tratamento da Covid-19. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) concedeu, no final de março, autorização de “uso de emergência” do medicamento para um número limitado de casos hospitalizados. No final de abril, entretanto, emitiu um alerta sobre os perigos do uso da substância devido a relatos de problemas no ritmo cardíaco em pacientes.
Já aqui no Brasil, o governo diminuiu recentemente suas restrições para permitir que os médicos prescrevam hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves de coronavírus, e não apenas aqueles em estado grave no hospital.
Fontes:
Organização Mundial da Saúde. Documento disponível em:
https://iris.paho.org/handle/10665.2/52097
The New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2007621
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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