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Lupa na Ciência: Estudo detecta queda significativa de anticorpos em recuperados da Covid-19 poucos meses após infecção
24.06.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Estudo chinês avaliou pacientes sintomáticos e assintomáticos com a Covid-19, e concluiu que a quantidade de anticorpos cai significativamente de dois a três meses após a infecção
  • Queda foi mais acentuada nos assintomáticos, que correspondem, de acordo com um artigo recente, a 45% dos infectados
  • As conclusões do estudo não indicam que uma pessoa possa ficar vulnerável a uma segunda infecção, já que um dos anticorpos principais no combate ao novo coronavírus continuava sendo detectável após três meses, mesmo que em baixas quantidades
  • Os pesquisadores afirmam que as descobertas podem indicar que há risco na adoção de “passaportes de imunidade” da Covid-19, apoiando o prolongamento de medidas restritivas como o isolamento social
Uma das perguntas que ainda intrigam especialistas desde o início da atual pandemia é se ficamos imunes ao novo coronavírus após uma primeira infecção e por quanto tempo. Há alguns meses, a comunidade científica animou a população ao descobrir que nosso organismo é capaz de desenvolver algum tipo de proteção após a infecção pelo SARS-CoV-2. No entanto, um novo estudo realizado por pesquisadores chineses sugere que alguns anticorpos produzidos durante a infecção caem para níveis muito baixos depois de dois a três meses, principalmente em pessoas que não desenvolveram sintomas da doença. A conclusão não significa necessariamente que os recuperados voltem a ficar vulneráveis a uma segunda contaminação depois desse período, já que mesmo níveis baixos de anticorpos podem defendê-los. Contudo, levanta dúvidas sobre outras questões, como a ideia de implementar o “passaporte imunológico” e também por quanto tempo o sangue dos recuperados pode ser útil para tratar outros pacientes.
O estudo, publicado na última semana na revista Nature, buscava, inicialmente, comparar a resposta imunológica dos sintomáticos com aqueles que não tiveram manifestações da doença. Para isso, os pesquisadores examinaram o sangue de 74 voluntários desde a fase inicial da contaminação pela Covid-19.  Metade não teve sintomas, enquanto a outra metade apresentou febre ou tosse, entre outros sinais de infecção. No estudo, os pesquisadores dão destaque aos anticorpos IgM e IgG, que são os investigados com mais frequência nos exames de sangue comuns. Ambos têm ação conjunta na proteção imediata e a longo prazo contra infecções. O IgM aparece antes e fica por menos tempo na circulação sanguínea. O IgG surge um pouco depois e sua permanência, mais longa, normalmente é sinal de que a pessoa desenvolveu imunidade contra a doença. A primeira conclusão foi de que os assintomáticos tiveram uma resposta imunológica mais fraca do que o outro grupo, já que foram identificados níveis mais baixos de citocinas anti-inflamatórias e outros agentes imunológicos nas quatro primeiras semanas.
Os pesquisadores decidiram ir além, e pelas oito semanas seguintes, seguiram testando os voluntários. Eles observaram que o nível de anticorpos da maioria das pessoas que tiveram Covid-19 diminuiu significativamente de dois a três meses após a infecção. Oito semanas após o início da recuperação, foi observado que 40% dos pacientes assintomáticos tinham níveis indetectáveis de anticorpos IgG para o SARS-CoV-2. Entre os que tiveram manifestação clínica da Covid-19, essa porcentagem foi de 13%. Outro tipo de defesa que também teve queda significativa foi a dos anticorpos neutralizantes que se ligam especificamente à proteína spike do novo coronavírus, e que são essenciais para combatê-lo. A boa notícia foi que, apesar das quantidades baixas, eles ainda eram detectáveis após as oito semanas.
Ainda que seja um estudo pequeno, seus resultados ajudam a compreender como o organismo se comporta após a infecção pelo novo coronavírus, e a estabelecer as medidas de prevenção, tratamento e contenção da doença. Até então, especialistas acreditavam que a imunidade teria duração semelhante à de outros coronavírus, que em sua maioria varia de 6 meses a um ano.
As conclusões do estudo podem influenciar um dos tratamentos que tem mostrado resultados preliminares satisfatórios em pacientes graves com a Covid-19: a transfusão de plasma convalescente. Ele consiste em extrair uma porção do sangue de voluntários recuperados da infecção pelo novo coronavírus, separar a parte que contém as células e proteínas de defesa e aplicá-la nos pacientes que estão atualmente combatendo a doença. O procedimento ajudaria a reforçar a resposta imunológica dos doentes. Só que, com a descoberta de que os níveis de anticorpos caem drasticamente em poucos meses em uma parcela dos casos, os pesquisadores agora devem levar em consideração há quanto tempo o doador está recuperado da Covid-19 para avaliar se o procedimento será eficaz.

Potencial de reinfecção desconhecido

Uma das preocupações que cresceram após a publicação do estudo foi a possibilidade de os recuperados ficarem novamente vulneráveis ao vírus após um curto período de tempo. Os resultados da pesquisa não indicam isso, necessariamente. Primeiro porque, passadas as oito semanas desde a recuperação, os anticorpos chamados neutralizantes – necessários para prevenir uma futura infecção – ainda eram detectáveis na corrente sanguínea, mesmo que em pequenas quantidades. Esse dado é importante, pois um estudo recente, publicado também na revista Nature, indicou que mesmo baixos níveis de anticorpos podem proteger uma pessoa. Segundo, porque a pesquisa não avaliou a duração e quantidade de outros elementos importantes do sistema de defesa do organismo, como as células T e B. Elas memorizam como lidar com um vírus quando são infectadas pela primeira vez e podem apresentar uma proteção eficiente quando houver uma segunda rodada de infecção. Cientistas ao redor do mundo ainda investigam se esse mecanismo funciona para o novo coronavírus.
A pesquisa não traz respostas concretas sobre o grau de imunidade que se adquire a médio e longo prazo, mas fornece informações úteis para avaliar o risco de se implementar os “passaportes de imunidade” da Covid-19. Ela ideia consiste em testar a população para ver quem já foi contaminado com o novo coronavírus – o que é detectado pela presença de anticorpos no sangue – e liberar essas pessoas para circular, assumindo que estariam protegidas contra a reinfecção e não representariam um risco.
Só que, pelo resultado do estudo publicado na Nature, os assintomáticos – que corresponderiam a até 45% das infecções pelo novo coronavírus, segundo pesquisa publicada no início de junho no Annals of Internal Medicine – podem não apresentar mais anticorpos detectáveis poucas semanas depois de se recuperar. Isso dificultaria a definição de quem está liberado ou não a voltar a circular. Ou seja, uma pessoa que já teve a doença e chegou a desenvolver anticorpos por um período poderia ser obrigada a continuar isolada, porque o teste seria incapaz de confirmar que houve infecção no passado. “Esses dados podem indicar os riscos de usar ‘passaportes de imunidade’ para a Covid-19 e incentivam o prolongamento de intervenções de saúde pública, incluindo o distanciamento social, higiene, isolamento de grupos de risco e teste generalizado”, concluíram os cientistas no artigo.
Fontes:
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