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Lupa na Ciência: Mutação tornou novo coronavírus mais infeccioso, revela estudo
08.07.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Uma análise do genoma da variante do novo coronavírus que mais circula atualmente mostrou que ele se tornou mais infeccioso com o passar dos meses, mas não mais letal
  • O vírus sofreu mutações que alteraram a estrutura da sua proteína spike, fazendo com que ele tenha mais facilidade de se ligar e invadir as células humanas
  • Especialistas identificaram que essa mutação pode ter tornado o vírus mais contagioso, porém ele não parece ser mais agressivo ao organismo
  • Ainda não se sabe se as mutações sofridas pelo vírus podem tornar menos eficazes as vacinas em desenvolvimento, ou afetar a imunidade de quem já se curou
Um estudo liderado por três instituições americanas encontrou fortes evidências de que a variante do novo coronavírus mais predominante atualmente sofreu mutações que a tornam mais infecciosa que o vírus original. Segundo os pesquisadores, essa variação do SARS-CoV-2 tem até seis vezes mais capacidade de infectar as células humanas. Essas modificações não deixaram o vírus mais letal ou agressivo, mas podem dificultar ações de combate à Covid-19. A descoberta, publicada na última semana na revista Cell depois de um rigoroso processo de revisão, faz parte de um conjunto de pesquisas que vêm sendo realizadas em diferentes países e que buscam entender como o novo coronavírus está se adaptando a seus hospedeiros humanos.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram as duas variantes do novo coronavírus que mais circulavam em meados de março na Califórnia, sendo uma mais antiga e outra mais recente. Elas foram chamadas de G614 e D614, e sua diferença está em um fragmento do RNA que provoca uma alteração na proteína spike do vírus. É com essa proteína que ele consegue invadir as células humanas. Estudos anteriores já haviam indicado que a variante G estava se tornando muito mais comum do que a D em todo o mundo, mas até então não se sabia exatamente por quê.
Em laboratório, os pesquisadores cultivaram as duas variantes do novo coronavírus e descobriram que a G, por causa dessa mutação na sua proteína spike, tinha uma capacidade muito maior de infectar as células humanas e se replicar dentro do hospedeiro. Em estudos feitos em voluntários, foi identificado que essa nova versão se multiplica de forma muito mais rápida no trato respiratório superior (nariz, seios paranasais e garganta). Por isso, foi levantada a hipótese de que o infectado poderia dispersar o vírus com maior intensidade e mais rapidamente.
Com a descoberta, surgiu a preocupação de que o vírus também poderia ter se tornado mais agressivo, já que, ao se reproduzir mais rapidamente, poderia demandar mais esforço do sistema imunológico para neutralizá-lo. Por sorte, essa suspeita não se confirmou. Todos os voluntários testados nesse estudo tiveram uma resposta imunológica similar à dos pacientes infectados com outras variações do SARS-CoV-2.
Em outra pesquisa, uma equipe britânica que participa do Covid-19 Genomic UK Consortium, uma rede que compila estudos genômicos sobre o novo coronavírus, avaliou centenas de pacientes hospitalizados com a variação G do vírus. Os pesquisadores não identificaram nenhuma diferença na gravidade dos sintomas quando comparado com aqueles infectados pela versão anterior. Contudo, esses pacientes com a variante mais recente carregavam mais partículas virais, indicando que poderiam ter maior potencial de transmitir a doença – ou seja, uma conclusão similar à da pesquisa publicada na revista Cell.
O fato de essa variante do vírus não ser mais letal é uma boa notícia, mas isso não significa que a descoberta não gera preocupações. Dependendo da intensidade das mutações, um vírus pode ficar tão diferente de sua versão original que não é mais reconhecido pelo sistema imunológico. Isso faz com que uma pessoa que já tenha se curado fique vulnerável a uma segunda infecção. Ainda não se sabe se isso vale para o SARS-CoV-2.
Por causa disso,  as mudanças no vírus podem prejudicar o desenvolvimento de vacinas, ou exigir que elas sejam atualizadas com frequência. É esse o caso, por exemplo, da vacina da gripe comum, que deve ser refeita a cada 12 meses por causa de mutações. No caso do novo coronavírus, cujas vacinas vêm sendo desenvolvidas, em sua maioria, a partir da primeira versão do vírus, ainda não se sabe se essas mudanças podem prejudicar sua eficácia.

Mutações

As mutações são pequenas alterações aleatórias que ocorrem na sequência de proteínas que forma o RNA ou DNA de um organismo cada vez que ele se replica. Seres mais simples, como vírus e bactérias, se reproduzem em grande quantidade e alta velocidade. Com milhares de cópias sendo geradas a cada instante, é de se imaginar que algumas delas venham com diferenças no código genético. Por causa disso, é comum que diferentes variedades de um mesmo patógeno se desenvolvam ao longo de um período relativamente curto. Um estudo publicado em maio na revista Infection, Genetics and Evolution, por exemplo, reuniu informações de milhares de pessoas infectadas em diversos países e identificou quase 200 mutações já sofridas pelo novo coronavírus – não foi avaliado, porém, o efeito de cada alteração.
Como as mutações são aleatórias, cada uma delas pode causar um efeito diferente. Parte delas não muda a forma como o vírus interage com o hospedeiro, por exemplo. Outras, inviabilizam sua reprodução. Há algumas, porém, que beneficiam o vírus, tornando sua ligação ao hospedeiro mais fácil, ajudando em seu principal objetivo: se disseminar de forma eficiente. Essas tendem a ser as mais bem-sucedidas.
Esse último tipo de mutação não significa, necessariamente, que o vírus fica mais agressivo ou letal, pois isso pode dificultar sua própria sobrevivência. Ao matá-lo rápido demais, o parasita reduz a possibilidade de o hospedeiro circular, entrar em contato com outros hospedeiros em potencial e, assim, transmitir sua carga viral.
Sequenciar o material genético de um vírus ou bactéria e acompanhar sua taxa de mutação fornece dados importantes para avaliar seu comportamento e prever a eficácia de possíveis intervenções médicas e preventivas. No caso da atual pandemia, esse acompanhamento tem sido facilitado porque os cientistas foram rápidos em sequenciar o RNA do SARS-CoV-2. Ainda em janeiro de 2020, cientistas chineses foram os primeiros a mapear o código genético do patógeno. Desde o início da pandemia pesquisadores estão disponibilizando e compartilhando seus dados de sequenciamento viral em diferentes partes do mundo por meio da plataforma GISAID, que reúne todas essas informações.
Fontes:
Cell Magazine. Artigo disponível em:
https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.06.043
Infection, Genetics and Evolution. Artigo disponível em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1567134820301829?via%3Dihub
COVID-19 Genomics UK (COG-UK) consortium. Informações disponíveis em:
https://www.cogconsortium.uk/
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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