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Lupa na Ciência: ‘Imunidade de rebanho’ natural contra o novo coronavírus é inviável
10.07.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • Uma pesquisa feita na Espanha indicou que apenas 5% da população possui anticorpos contra o novo coronavírus, mesmo com o grande número de casos e mortes por Covid-19 no país
  • Os dados foram coletados após o pico da pandemia, e mostraram que, mesmo assim, o país ainda está muito longe de adquirir uma imunidade de rebanho
  • Os autores do estudo afirmam que adotar essa estratégia implicaria em um número muito maior de mortos e em um colapso ainda mais severo do sistema de saúde
  • A descoberta corrobora outras pesquisas que também indicam que essa não seria uma maneira eficaz de diminuir a disseminação da doença
Uma pesquisa realizada na Espanha reforçou a ideia de que seria inviável uma população adquirir “imunidade de rebanho” de forma natural sem que isso implicasse em um elevado número de mortos e no colapso do sistema de saúde de um país. Publicado nesta semana na revista The Lancet, o estudo mostrou que apenas 5% dos espanhóis têm anticorpos para o novo coronavírus. O país europeu foi um dos que mais sofreu durante a epidemia, registrando 607 mortes por milhão de habitantes, a terceira maior taxa de mortalidade pelo vírus do mundo. Mesmo assim, 95% dos espanhóis seguem vulneráveis à doença. Especialistas estimam que, para atingir imunidade coletiva, é necessário que entre 40% e 80% desenvolva anticorpos pelo vírus.
Para estimar a taxa de contaminados na Espanha, e avaliar o quão longe o país estaria de adquirir a imunidade de rebanho, os pesquisadores convidaram famílias espanholas aleatoriamente para participar do estudo. Um total de 61.075 pessoas concordou em participar. Testes e questionários foram realizados entre 27 de abril e 11 de maio. Um mês antes, em 27 de março, o país atingiu o pico da epidemia, registrando 9.181 casos em um único dia.
Os voluntários, de diferentes regiões do país, responderam a perguntas sobre sintomas da Covid-19, fizeram um teste de picada no dedo no local de atendimento e tiveram a opção de doar sangue para testes laboratoriais adicionais – 51.958 das pessoas no estudo aceitaram. Apenas 5% dos participantes apresentaram anticorpos nos testes em local de atendimento. Já nas amostras de sangue, defesas contra o SARS-CoV-2 foram encontradas em 4,6% dos participantes. De acordo com os autores do estudo, houve uma “variabilidade geográfica substancial”, com anticorpos em 10% das amostras de Madri, mas em apenas 3% do material coletado em outras regiões. Cerca de um terço dos que testaram positivo para anticorpos eram assintomáticos enquanto estavam infectados pelo vírus, segundo o estudo.
“Apesar do alto impacto da Covid-19 na Espanha, as estimativas de prevalência permanecem baixas e são claramente insuficientes para fornecer imunidade ao rebanho”, disseram os pesquisadores. “Isso [a imunidade] não pode ser alcançado sem a aceitação do dano colateral de muitas mortes na população suscetível e da sobrecarga dos sistemas de saúde. Nesta situação, medidas de distância social e esforços para identificar e isolar novos casos e seus contatos são essenciais para o controle futuro de epidemias”, concluíram os autores do estudo. Um levantamento feito na China, publicado na revista Nature Medicine em junho, chegou a resultados semelhantes.
O conceito de imunidade de rebanho significa que, se uma parcela significativa da população desenvolver anticorpos contra uma determinada doença, a cadeia de transmissão do patógeno é reduzida a ponto de eliminar a ameaça. No caso da Covid-19, pesquisas sobre o assunto estimam que, para atingir esse estágio, seria necessário que algo em torno de 40% a 80% da população criasse defesas contra o SARS-CoV-2. Uma dessas pesquisas, publicada em meados de junho na revista Science, chegou a uma porcentagem de 43% como número mínimo de contaminados para alcançar imunidade coletiva.
Em um cenário ideal, a imunização de uma proporção alta da população pode ser atingida a partir do desenvolvimento de uma vacina. Contudo, como o SARS-CoV-2 foi descoberto somente em janeiro deste ano, ainda não existe nenhuma imunização eficaz disponível. Autoridades de saúde de alguns países, como a Suécia, apostaram então na estratégia de proteger grupos de risco, como idosos, e ignorar regras de isolamento social adotadas em outros países do mundo, para que as pessoas se infectassem com o vírus e desenvolvessem a imunidade de rebanho.
Ao contrário dos outros países nórdicos, a Suécia manteve comércio, restaurantes e bares abertos (com algumas regras de distanciamento), além de creches e instituições do ensino fundamental funcionando normalmente durante os meses mais críticos da pandemia. Como resultado, as taxas de contágio na Suécia foram muito mais altas do que em qualquer outro lugar da região nórdica. Um estudo publicado no início de julho na revista Clinical Infectious Diseases avaliou que esta estratégia resultou em um maior número de mortes e uma demanda maior no sistema de saúde do país, quando comparado aos países vizinhos. Mesmo assim, o país ainda está longe de atingir seu objetivo. Em uma entrevista a uma rádio sueca em junho, Anders Tegnell, epidemiologista-chefe do governo sueco, admitiu que as medidas deveriam ter sido mais restritivas e que o país estava demorando mais do que o esperado para atingir a imunidade de rebanho.
Os dados da pesquisa espanhola e os resultados iniciais da estratégia sueca reforçam a opinião de cientistas céticos sobre a eficácia dessa abordagem. Alcançar essa porcentagem de contaminados de forma natural demandaria muito tempo, resultaria na perda de muitas vidas e de uma sobrecarga no sistema de saúde do país. Além disso, ainda há dúvidas sobre quanto tempo uma pessoa curada da Covid-19 permanece imune, e se ela fica vulnerável a uma segunda infecção.
Fontes:
Nature Magazine. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0949-6
Clinical Infectious Diseases. Artigo disponível em:
https://academic.oup.com/cid/article/doi/10.1093/cid/ciaa864/5866094
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