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É falso que OMS tenha aprovado ‘vacina chinesa de US$ 10 mil’ contra a Covid-19
14.07.2020 - 19h45
Rio de Janeiro - RJ
Circula nas redes sociais um post que contém supostos trechos de discursos atribuídos ao diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Segundo o post, a OMS teria encontrado uma vacina chinesa que “funciona” e que todos os países deveriam comprá-la. Além disso, a mesma publicação informa que a OMS tinha descartado anteriormente a produção de uma possível vacina norte-americana, porque não havia provas científicas sobre ela. É dito, ainda, que a OMS “suspendeu o uso de cloroquina” por falta de comprovação científica de sua eficácia. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:
“Finalmente achamos uma vacina que funciona! Parabéns à CHINA pelo exemplo de combate ao COVID-19! Todos devem comprar a Vacina Chinesa AGORA”
Texto atribuído à OMS em imagem publicada no Facebook que, até as 19h do dia 14 de julho de 2020, tinha sido compartilhada por mais de 100 pessoas
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Segundo relatório da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 14 de julho, ainda não há uma vacina aprovada contra a Covid-19. Há 23 candidatas na fase de ensaios clínicos, ou seja, que já estão sendo testadas em humanos. Outras 140 estão em estudos pré-clínicos. Além disso, não é possível encontrar, tampouco, registros de alguma declaração da OMS similar na imprensa.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, no início de julho, testes da vacina chinesa contra o novo coronavírus desenvolvida pela empresa Sinovac. Os estudos estão sendo realizados em parceria com o Instituto Butantan. A proposta prevê o teste de 9 mil pessoas no país. Caso a vacina seja comprovadamente eficaz e segura, o instituto paulista poderá produzir doses da imunização para o mercado brasileiro.
Também estão sendo realizados no Brasil, desde junho, testes com uma vacina que está sendo desenvolvida no Reino Unido pela Universidade de Oxford, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é parceira da universidade britânica e também deve produzir a imunização, caso ela se prove eficaz e segura contra a Covid-19.

“Não funciona [a produção de uma vacina norte-americana]. Suspendam a produção. Não tem provas científicas que funciona!”
Texto atribuído à OMS em imagem publicada no Facebook que, até as 19h do dia 14 de julho de 2020, tinha sido compartilhada por mais de 100 pessoas
Falso
Também não há registros na imprensa de que a OMS tenha descartado alguma vacina dos Estados Unidos. Três imunizações diferentes produzidas por instituições e empresas norte-americanas estão em fase de testes clínicos, segundo levantamento da própria OMS, de 14 de julho.
A empresa Moderna foi a primeira a iniciar os testes clínicos com uma vacina contra a Covid-19, que continua em desenvolvimento e não foi descartada pela OMS. Também há produtos sendo desenvolvidos pelas empresas Inovio, com investimento da Fundação Bill e Melinda Gates, e Novavax. No mundo todo, há 23 potenciais candidatas que já estão na fase de testes clínicos e 140 que ainda não atingiram essa etapa – duas delas estão sendo desenvolvidas no Brasil.
Em maio deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um plano público-privado para acelerar a criação de uma vacina contra a Covid-19. Na ocasião, disse que a proposta era de obtê-la até o “final do ano”.
Trump afirmou ainda durante o discurso que, quando a vacina estivesse pronta, o governo dos Estados Unidos iria usar “todos os aviões, caminhões e soldados necessários para ajudar a distribui-la ao povo americano o mais rápido possível”. Entretanto, não falou se ela seria gratuita ou paga. Durante as comemorações do dia 04 de julho, dia da independência norte-americana, Trump voltou a dizer que a vacina estaria pronta até o fim do ano.
Em maio, o governo dos Estados Unidos anunciou que irá investir até 1,2 bilhão de dólares na AstraZeneca, empresa britânica que está trabalhando em uma vacina junto com a Universidade de Oxford, para disponibilizar pelo menos 300 milhões de doses da vacina no país. O Ministério da Saúde enviou proposta de cooperação para compra de lotes da mesma vacina da Oxford e AstraZeneca para o Brasil. Se demonstrada eficácia, serão 100 milhões de doses à disposição da população brasileira, diz o governo.

“[Cloroquina] Não funciona. Suspendam o uso da cloroquina porque não tem comprovação científica de que ela funcione!”
Texto atribuído à OMS em imagem publicada no Facebook que, até as 19h do dia 14 de julho de 2020, tinha sido compartilhada por mais de 100 pessoas
Falso
A OMS não suspendeu o uso da cloroquina, e sim a realização de estudos com o medicamento dentro do programa Solidarity Trial, coordenado pela instituição. O motivo não foi a falta de comprovação científica. Durante a pesquisa, o medicamento se mostrou ineficaz e, por isso, a pesquisa foi descontinuada.
Inicialmente, uma pesquisa publicada na revista The Lancet indicou que a cloroquina e a hidroxicloroquina seriam ineficazes no combate à Covid-19, com base em levantamentos nas bases de dados de diferentes hospitais do mundo. Por causa disso, a OMS suspendeu temporariamente as investigações sobre a eficácia do remédio.
Contudo, o estudo foi posteriormente removido pela The Lancet, após cientistas apontarem diversas inconsistências na base de dados utilizada. Assim, no dia 3 de junho, a OMS retomou os testes com a hidroxicloroquina.
Um mês depois, em 4 de julho, a OMS voltou a interromper o uso da hidroxicloroquina no programa Solidarity Trial, dessa vez de forma definitiva. Os primeiros resultados das pesquisas realizadas neste programa mostraram que o remédio não foi capaz de reduzir a taxa de letalidade da doença, em comparação com procedimentos comuns. Tratamentos com lopinavir e ritonavir também foram interrompidos pelo mesmo motivo.
Pelo mesmo motivo, um dos braços do Recovery Trial, da Universidade de Oxford, também foi interrompido. Ao contrário do estudo publicado no The Lancet, essas duas pesquisas estão sendo realizadas diretamente com pacientes, e não a partir de bases de dados de hospitais.
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Gabriela Soares
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