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Lupa na Ciência: Falta de proteína interferon no organismo pode agravar casos da Covid-19
24.07.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
  • A deficiência da proteína interferon no organismo foi identificada, em pesquisas recentes, como uma possível causa dos quadros graves da Covid-19
  • Também em estudos recentes, a aplicação dessa proteína na sua forma sintética foi apontada como um potencial tratamento ou forma de prevenção da doença causada pelo novo coronavírus
  • Nesta semana, uma empresa britânica afirmou que seus testes iniciais com o componente na sua forma inalável diminuíram em 79% o risco de pacientes desenvolverem sintomas respiratórios graves
  • Outros estudos já publicados em revistas científicas, no entanto, não apresentaram resultados promissores. Alguns inclusive indicaram que o medicamento não deve ser usado em casos graves da doença
  • O tratamento com a droga ainda não está aprovado por entidades de saúde para tratar a Covid-19, que aguardam o avanço das pesquisas para futuras definições. No entanto, ele já é usado em diversos casos, principalmente em pesquisas clínicas
Ainda não há um tratamento comprovadamente eficaz contra o novo coronavírus, nem uma conclusão sobre o que leva alguns pacientes a desenvolver quadros graves da doença. No entanto, um tipo de proteína tem trazido pistas que estão ajudando a esclarecer essas duas questões: o interferon. Um estudo recente indicou que a sua falta pode estar associada a casos mais severos da doença. Além disso, nesta semana, a empresa inglesa Synairgen anunciou que testes preliminares com uma versão sintética da proteína tiveram 79% de sucesso no tratamento de pacientes hospitalizados com a Covid-19. As boas notícias, no entanto, devem ser vistas com cautela. Há dezenas de estudos sendo realizados com o componente, e os resultados publicados em revistas científicas de peso até agora não foram suficientes para convencer órgãos de saúde a autorizar e recomendar o uso do medicamento na atual pandemia.
Interferons (IFNs) são proteínas produzidas naturalmente pelo organismo e secretadas pelas células do sistema imunológico com o objetivo de combater elementos estranhos, como vírus, fungos ou bactérias. Elas atuam produzindo uma resposta local, intensa e imediata na região onde o patógeno se aloja, e por isso são importantes para mitigar a progressão de uma doença. Existem três tipos de IFNs naturais, cada um secretado por seu próprio conjunto de células. Tanto o tipo I (IFN-alfa e IFN-beta) quanto o tipo III (IFN-lambda) são proteínas antivirais que atuam recrutando células de defesa para agir no local da infecção e combater o vírus.
Em um estudo publicado nesta semana na revista Science, pesquisadores franceses concluíram que a deficiência de interferon (IFN) do tipo I pode estar relacionada aos casos severos da Covid-19. A descoberta foi feita a partir da análise de amostras de sangue de 50 pacientes com a forma mais grave da doença. Os especialistas perceberam que, nessas pessoas, a atividade da proteína estava deprimida, o que levava o corpo a produzir uma inflamação exacerbada. Nos pacientes com quadros médios e leve da doença, os níveis do componente estavam normais.
Outro trabalho, publicado meses antes na revista Cell, ajuda a compreender esse mecanismo. Pesquisadores americanos estudaram a infecção pelo SARS-CoV-2 e identificaram que, em furões infectados com o novo coronavírus, as taxas de interferons estavam muito baixas. Como resultado, o organismo acabaria estimulando de forma exagerada a produção das citocinas, um conjunto diferente de moléculas que convocam as células imunes distantes a agir e desencadeiam inflamações. As citocinas, em quantidades razoáveis, são importantes como mecanismo de defesa, mas quando agem de forma exagerada, podem danificar órgãos. No caso da Covid-19, especialistas já identificaram que uma reação exacerbada do organismo, chamada “tempestade de citocinas”, é um dos principais fatores que levam os pacientes a desenvolver quadros graves da doença e morrer.
Frente a essas descobertas, seria de se imaginar que drogas que elevam a quantidade de interferons no organismo poderiam ser uma solução para os casos mais severos da Covid-19. Mas a resposta não é tão simples, já que o corpo produz essas proteínas somente quando necessário, porque elas também podem interferir em atividades normais, como a produção de glóbulos vermelhos. A toxicidade dos interferons sintéticos pode acarretar problemas graves. Seu uso contínuo, por exemplo, já esteve associado a quadros de depressão e enxaqueca. Ainda que o tratamento para a Covid-19 não demande o uso prolongado, as pesquisas devem ser cautelosas e rigorosas, alertam especialistas.
Outra questão importante principalmente para os casos de Covid-19 veio de um estudo recente, também publicado na revista Cell. Os autores demonstraram que o uso de interferons pode estimular a produção da proteína ECA2, usada pelo novo coronavírus para invadir as células humanas. Essa descoberta levantou novas suspeitas quanto à segurança do uso da droga. De acordo com os autores do estudo publicado na revista Science, tratamentos para repor a IFN associados a antiinflamatórios podem resolver esse problema. No entendimento deles, é “uma hipótese que vale a pena testar com cautela”.

Nova pesquisa aumenta expectativa

A pesquisa mais recente sobre o assunto foi divulgada nesta semana pela Universidade de Southampton, em parceria com a empresa britânica Synairgen. O grupo anunciou que foram satisfatórias as conclusões do estudo randomizado e controlado de um interferon inalável para tratar a infecção por SARS-CoV-2. A pesquisa ganhou destaque em todo mundo, e as ações da empresa chegaram a subir 552% em um único dia. Contudo, é importante pontuar que o estudo ainda não foi publicado em nenhuma revista científica. Tudo o que foi divulgado até o momento é um comunicado da assessoria de imprensa da companhia. Portanto, as informações anunciadas devem ser encaradas com uma dose saudável de ceticismo.
Segundo o comunicado, os autores da pesquisa examinaram a resposta de 101 pacientes hospitalizados em estado regular com a Covid-19 que receberam doses da proteína por meio de um aparelho nebulizador, e compararam com aqueles que receberam placebo. Os que inalaram o produto, chamado SNG001, tiveram 79% menos chances de desenvolver quadros graves e duas vezes mais chances de alcançar recuperação completa após 28 dias do que os pacientes tratados com placebo. Os autores do estudo afirmam que “estão correndo” para publicar os resultados dessa etapa. Enquanto isso já estão recrutando voluntários para a fase seguinte da pesquisa, que irá contar com 300 pacientes não hospitalizados – pacientes idosos e pessoas com problemas de saúde que já estejam manifestando sintomas da doença por pelo menos três dias.
A Synairgen diz que irá apresentar os resultados detalhados da pesquisa para agências reguladoras em todo o mundo nos próximos dias e espera conseguir uma autorização emergencial para o uso do medicamento. Caso haja aprovação, a empresa espera entregar até o final do ano 100 mil doses por mês.

Pesquisas anteriores

Tratamentos com interferons sintéticos não são novidade. Há décadas, eles são administrados para aumentar a eficiência do sistema imunológico e tratar doenças, incluindo, por exemplo, esclerose múltipla. Em 1986, por exemplo, seu uso foi aprovado pelo órgão regulador americano Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de câncer. Atualmente, dezenas de instituições de saúde coordenam pesquisas com administração de interferon dos tipos I e III nos pacientes de Covid-19. Entretanto, elas se encontram, em sua maioria, nas fases iniciais de testes.
Ainda não está claro para a ciência se o vírus seria o responsável por bloquear a ação dos interferons, ou se pessoas com deficiência dessa proteína, por questões genéticas, acabariam desenvolvendo quadros mais graves da doença. Essa resposta é crucial para saber quando utilizar o medicamento. Além disso, os pesquisadores ainda buscam entender qual o tipo de interferon seria o ideal para ser administrado na atual pandemia.
Um artigo publicado na Science no mês passado, por exemplo, sugeriu que os interferons tipo III podem ser prejudiciais se administrados tardiamente em uma infecção. A pesquisa foi feita com ratos que estavam se recuperando do vírus da influenza, e indicou que a substância interrompeu o reparo pulmonar, que é crucial para a recuperação do infectado. Eles sugerem que o mesmo ocorreria com infectados pelo SARS-CoV-2. Outro estudo, que corroborou esses resultados, foi publicado recentemente na revista Cell, e avaliou o efeito do interferon tipo I em 446 pacientes –   parte deles no estágio inicial da doença, e a outra metade já com quadros avançados da Covid-19. Eles concluíram houve uma redução nas taxas de internação e mortalidade entre os voluntários que receberam o medicamento precocemente. Já os que receberam injeções de INFs tardiamente tiveram um aumento na mortalidade e atraso na recuperação. Na conclusão da pesquisa, os especialistas afirmaram que o momento de aplicar a terapia com interferon é crucial para favorecer respostas em pacientes com a Covid-19. .
Outro estudo, publicado na revista Frontiers in Immunology em maio, testou o IFN tipo I e o arbidol, um medicamento antiviral, em 77 pacientes chineses com sintomas moderados da doença. Eles descobriram que os pacientes tratados com interferon, sozinho ou combinado com o antiviral, eliminaram o vírus das vias aéreas superiores em torno de sete dias mais rápido que o grupo que recebeu apenas arbidol.
Também na China, pesquisadores testaram a aplicação preventiva de gotas nasais do componente como forma de evitar o contágio. Eles fizeram o estudo com profissionais da saúde, que estão constantemente vulneráveis à infecção, e concluíram que a droga se mostrou eficaz para diminuir a quantidade de pessoas contaminadas. O estudo ainda não foi revisado nem publicado, e portanto deve ser visto com cautela, mas já está disponível na plataforma medRxiv.
Apesar da grande quantidade de pesquisas sobre a ação do interferon no tratamento da Covid-19, os resultados divulgados até o momento ainda não foram suficientes para que o medicamento seja recomendado na atual pandemia. Nas diretrizes de tratamento para a Covid-19 do National Institutes of Health (NIH), um conglomerado de centros de pesquisa médica americano, o uso de IFNs do tipo I não são indicados, exceto no contexto de um ensaio clínico. Já no Solidarity, projeto de pesquisa de medicamentos contra o SARS-Cov-2 coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ele consta como um dos três possíveis tratamentos em estudos, mas ainda sem eficácia comprovada.
Fontes:
Frontiers in Immunology. Artigo disponível em:
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fimmu.2020.01061/full
Nationa Institutes of Health (NIH). Documento disponível em:
//a.storyblok.com/f/134103/cb67b1d85b/covid19treatmentguidelines.pdf
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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André Borges
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