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Lupa
É falso que cloroquina e ivermectina estejam presentes na casca da laranja e do limão
27.07.2020 - 20h51
Rio de Janeiro - RJ
Circula nas redes sociais e no WhatsApp um vídeo de um homem explicando que componentes da cloroquina e da ivermectina podem ser encontrados de forma natural nas cascas da laranja e do limão. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:
“A gente vai pegar uma laranja e um limão. Vai cortar em pedaços com casca e tudo, que o princípio ativo dos dois remédios, ivermectina e cloroquina, está na casca dos dois”
Vídeo publicado no Facebook que, até as 16h do dia 27 de julho de 2020, tinha sido visualizado mais de 460 vezes
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. A cloroquina e a ivermectina são substâncias feitas artificialmente em laboratório, sintetizadas a partir de outros compostos. Eles não estão presentes, portanto, na casca da laranja ou do limão. Além disso, nenhum desses dois medicamentos têm eficácia comprovada contra a Covid-19.
Professor Associado no Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Cedric Stephan Graebin informou por e-mail que a cloroquina é um fármaco de origem sintética inspirado em um produto natural chamado quinina, substância isolada encontrada na casca de árvores de algumas espécies do gênero Cinchona. “Mas o processo de obtenção da cloroquina é todo por síntese orgânica”, complementa. Isso significa que a substância é criada a partir de moléculas complexas não biológicas, através de reações químicas.
Já a ivermectina, segundo o professor, é um produto de semi-síntese. Isso significa que ela é criada a partir de uma molécula mais complexa de origem biológica. Neste caso específico, as fontes são as substâncias avermectina B1a e B1b, obtidas de uma bactéria chamada Streptomyces avermitilis, explica o professor.
A infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, também informou à reportagem que a informação que circula nas redes sociais é falsa. Ela diz, ainda, que não há nada que possa ser utilizado como fitoterapia (estudo das plantas medicinais e suas aplicações na cura das doença) para tratar a Covid-19.

Sem eficácia contra Covid-19

A cloroquina, assim como a hidroxicloroquina, é uma medicação usada há anos para tratamento da malária e de algumas doenças autoimunes, como artrite e lúpus. Estudos iniciais, feitos in vitro ou com grupos pequenos de pacientes, mostraram que a droga teria potencial como tratamento para Covid-19.
Antes de pesquisas mais robustas confirmarem essas suspeitas, figuras públicas como presidente Jair Bolsonaro (sem partido) começaram a defender o uso desse remédio. Contudo, os exames clínicos mostraram que não há benefício no uso da droga em nenhuma etapa do tratamento.
Já a ivermectina é um medicamento utilizado para tratar algumas infecções causadas por vermes e parasitas. Na sua versão veterinária, é indicado para acabar com sarnas em gatos e cachorros. Em abril, uma pesquisa da Universidade de Melbourne mostrou que a droga era eficaz em inibir a reprodução do SARS-Cov-2 in vitro.
A dose utilizada, contudo, era consideravelmente mais alta do que o receitado para o tratamento de outras doenças. Além disso, no passado, o medicamento se mostrou eficaz também para frear a replicação de alguns vírus em laboratório, como o da AIDS e o da dengue, mas nunca foi aprovado para tratar essas doenças.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em nota, informou que não existem estudos conclusivos que comprovem o uso da ivermectina para o tratamento da Covid-19. Na quinta-feira (23), a Anvisa decidiu, em uma portaria publicada no Diário Oficial da União, que a medicação só poderá ser vendida com receita enquanto durar a pandemia.
O Ministério da Saúde também já informou em nota que não há qualquer remédio, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir ou tratar a infecção pelo coronavírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também afirma que não há evidências científicas da eficácia de alguma medicação na prevenção da Covid-19.
A Lupa já desmentiu boatos similares. No início de julho, circulou a informação de que alho, limão, laranja e melão de São Caetano tinham propriedades e substâncias que preveniam e curavam a Covid-19. Receitas com chá de limão, alho e jambu também foram compartilhadas nas redes sociais para a prevenção do novo coronavírus. Todas foram desmentidas.
Essa mesma informação foi checada pelos Aos Fatos, Boatos.org e Fatos ou Fake.
Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.
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