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É falso que coquetel com hidroxicloroquina tem eficácia de 99,9% contra Covid-19
31.07.2020 - 17h17
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais um post que sugere um coquetel de tratamento contra a Covid-19. De acordo com a publicação, é recomendado tomar 200 miligramas de hidroxicloroquina duas vezes por dia. Uma vez ao dia, a pessoa deve ingerir também 500 miligramas de azitromicina e 220 miligramas de sulfato de zinco. O uso desses remédios combinados por cinco dias teria uma eficácia de 99,9% contra o novo coronavírus. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:
“O coquetel para o tratamento do coronavírus:
1) hidroxicloroquina 200mg duas vezes por dia por 5 dias
2) azitromicina 500mg uma vez por dia por 5 dias
3) sulfato de zinco 220mg uma vez por dia por 5 dias.
Custo do tratamento: 60 reais.
Eficácia: 99,9%”
Texto em post publicado no Facebook que, até as 17h de 31 de julho de 2020, tinha 529 compartilhamentos
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Múltiplos estudos científicos produzidos com metodologia rigorosa concluíram que tomar hidroxicloroquina não funciona contra a Covid-19. Isso vale tanto para a ingestão da droga sozinha como acompanhada de azitromicina – um antibiótico usado em infecções respiratórias –, como indicado no post que circula nas redes sociais. Os testes com esses medicamentos usaram dosagens até mesmo maiores e por mais tempo do que a recomendada na publicação, em pacientes leves e graves com o novo coronavírus. A conclusão foi a mesma em todas as situações, descartando a eficácia desses remédios.
Essas análises ocorreram de forma randomizada, o que significa que a escolha dos participantes que tomariam a medicação ocorreu de forma aleatória. Também tiveram um grupo controle, ou seja, uma parcela de pessoas que não recebeu tratamento. Por fim, usaram ainda o duplo-cego, procedimento em que não se revela qual parte dos pacientes recebeu placebo e qual tomou as drogas analisadas. Essa técnica é a mais adequada para avaliar a eficácia de um medicamento.
Uma das principais pesquisas, feita por brasileiros, foi publicada em 23 de julho no New England Journal of Medicine. Os participantes com Covid-19 de 55 hospitais foram divididos em três grupos. O primeiro, com 221 pessoas, recebeu 400 miligramas de hidroxicloroquina duas vezes ao dia por sete dias. O segundo, com 217 integrantes, foi tratado com 400 miligramas de hidroxicloroquina duas vezes por dia e com 500 miligramas de azitromicina uma vez por dia, também durante sete dias. O terceiro grupo, com 229 pessoas, não tomou nenhuma droga. A taxa de mortalidade ficou em 3% nos três grupos, demonstrando que os remédios não trouxeram nenhum benefício.
Pessoas com sintomas da Covid-19 em seus estágios iniciais, que não estavam hospitalizadas, também participaram de um estudo divulgado no Annals of Internal Medicine em 16 de julho. Nesse caso, o tratamento consistiu em tomar 800 miligramas de hidroxicloroquina numa primeira dose, 600 miligramas após seis a oito horas e 600 miligramas por dia durante mais quatro dias. Outra parcela dos voluntários tomou placebo. A conclusão foi que a hidroxicloroquina não reduziu a gravidade dos sintomas. Ou seja, o remédio foi ineficaz.
Outra pesquisa, feita para identificar se a hidroxicloroquina poderia ser usada de modo preventivo, chegou a conclusões muito semelhantes. Publicada em 3 de junho no The New England Journal of Medicine, a análise também usou dois grupos, sendo que ambos tinham risco moderado ou alto de exposição à Covid-19. Um deles tomou 800 miligramas de hidroxicloroquina numa primeira dose, 600 miligramas após seis a oito horas e 600 miligramas por dia durante quatro dias adicionais. O outro recebeu placebo. O resultado foi que a hidroxicloroquina não conseguiu evitar infecções pelo novo coronavírus.
O projeto Recovery, da Universidade de Oxford, também concluiu que a hidroxicloroquina não tem nenhuma eficácia contra a Covid-19 em casos graves da doença. Como os resultados ainda não foram publicados, as dosagens usadas no estudo não foram divulgadas. Contudo, os estudos com esse medicamento foram interrompidos de forma definitiva no projeto. O mesmo aconteceu no projeto Solidarity, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O zinco, que aparece no “tratamento” que circula nas redes sociais, não é um remédio. Trata-se apenas de um complemento que ajuda a manter o bom funcionamento do sistema imunológico. Seu uso, no entanto, só deve ser feito com orientação médica. Cientistas afirmam, contudo, que nenhum produto é capaz de aumentar a imunidade do organismo e que é possível obter a quantidade suficiente desse mineral pela alimentação.
Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.
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Evelyn Fagundes
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