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Lupa na Ciência: Por que é cedo para falar em imunidade cruzada do SARS-Cov-2 com outros coronavírus
19.08.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
– Um estudo recente reforçou a hipótese de que pessoas que nunca foram infectadas pelo novo coronavírus podem ter algum grau de imunidade contra ele
– A pesquisa analisou amostras de sangue coletadas entre os anos de 2015 e 2018, parte delas de pessoas que já haviam sido expostas a vírus da família coronavírus
– As análises indicaram a presença de células de defesa que reagiram tanto ao SARS-Cov-2 como a outros tipos de coronavírus, responsáveis pela gripe comum
– Pesquisas anteriores apontaram para resultados semelhantes, mas nenhuma  conseguiu esclarecer se as células identificadas concedem uma imunidade relevante contra a Covid-19
Um artigo publicado no início de agosto na revista Science demonstrou que pessoas contaminadas por outros coronavírus no passado desenvolveram células de defesa capazes de reconhecer o SARS-Cov-2. De acordo com os autores, em tese, é possível que essas células promovam algum grau de imunidade contra o novo coronavírus, reduzindo as chances de que a infecção evolua para quadros graves. Isso pode explicar porque o vírus é mortal para algumas pessoas, mas passa praticamente despercebido em outras. Esse estudo, contudo, não é suficiente para provar que essa imunidade cruzada existe. O que se sabe é que alguns elementos do sistema de defesa são capazes de reconhecer mais de um vírus da família, mas o potencial de proteção contra a Covid-19 ainda é incerto.
Para chegar a essas conclusões, cientistas do La Jolla Institute for Immunology, na Califórnia, analisaram amostras de sangue coletadas de pessoas entre 2015 e 2018 – anteriores, portanto, ao novo coronavírus, que começou a circular no fim de 2019. Em laboratório, eles identificaram que parte dessas amostras continham linfócitos T (tipo específico de célula de defesa) capazes de reconhecer quatro tipos de coronavírus causadores de gripes comuns. Isso indica que essas pessoas foram infectadas, no passado, por esses patógenos. Os pesquisadores expuseram, então, essas mesmas células ao SARS-Cov-2, e identificaram que elas reconheciam também algumas partes desse novo tipo de vírus. Assim, podiam reagir contra ele.
Logo que o estudo foi publicado, as redes sociais foram inundadas de publicações esperançosas afirmando que quem já havia contraído outros coronavírus não precisaria se preocupar com a atual pandemia. Mas os próprios autores da pesquisa – que já haviam divulgado partes do estudo na Revista Cell, indicando haver encontrado células T reativas ao SARS-Cov-2 em cerca de 40% a 60% das amostras de pessoas que não haviam sido expostas ao novo vírus – enfatizam que essa é uma hipótese “altamente especulativa”, e que é necessário aprofundar as investigações para confirmá-la. Segundo os autores, não se sabe exatamente o papel que as células T desempenham na luta contra a infeção pelo novo coronavírus, já que elas são apenas um entre diversos componentes do sistema imunológico.
Além disso, não se sabe se a quantidade de células T reativas ao SARS-Cov-2 que permanecem no organismo desses indivíduos é suficiente para protegê-los. Estudos anteriores que avaliaram outros componentes de defesa – como a presença de anticorpos neutralizantes – não encontraram resultados parecidos. Esse tipo de anticorpo, explicam pesquisadores, é específico contra outros tipos de coronavírus, e não tem a capacidade de conhecer o SARS-Cov-2. “O que provamos até agora é que, em algumas pessoas, as células de memória T pré-existente contra os coronavírus de resfriados comuns podem reconhecer também algumas estruturas do patógeno responsável pela atual pandemia”, resumiu Daniela Weiskopf, uma das autoras do estudo.

Outros estudos

Um estudo feito por pesquisadores alemães e publicado no final de julho na revista Nature chegou a conclusões similares. Amostras de sangue de doadores que nunca haviam contraído a Covid-19 foram comparadas às de doadores que tinham sido diagnosticados com a doença. Células T reagentes a determinadas partes do SARS-Cov-2 foram identificadas em 83% das amostras daqueles que tinham sido infectados, mas também em 35% dos que nunca tiveram a doença. Os pesquisadores não chegaram a testar se essas células reagiam também aos coronavírus causadores da gripe comum. Contudo, o infectologista Andreas Thiel, um dos autores do estudo, levantou a possibilidade de que parte dos voluntários sem a Covid-19 já haviam entrado em contato com essa família de vírus e adquirido algum tipo de imunidade cruzada. “Embora esses vírus não sejam muito semelhantes [ao SARS-CoV-2], o que eles têm em comum poderia ser suficiente para que o sistema imunológico tenha, pelo menos em parte, uma reação cruzada, o que é uma coisa muito normal”, disse.
Outra pesquisa, publicada também em julho na mesma revista, encontrou células T que reagiam ao SARS-Cov-2 no sangue de 23 voluntários em Singapura que haviam contraído SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) há 17 anos. Outros 37 voluntários, que não contraíram nem SARS nem Covid-19, também apresentaram defesas contra a doença.
Apesar de ter gerado esperança em milhares de pessoas, as descobertas feitas até agora sobre a imunidade cruzada do SARS-Cov-2 com outros coronavírus ainda são insuficientes para assegurar que a presença dessas células de defesa possa proteger determinados grupos da atual pandemia. Os pesquisadores do La Jolla Institute for Immunology afirmaram que, para confirmar ou não essa hipótese, seria necessária uma investigação que acompanhasse os voluntários antes e depois de contraírem a Covid-19, o que demandaria tempo e um rigoroso controle metodológico. Até o momento, é mais prudente seguir acreditando que todos os que nunca tiveram contato com o SARS-Cov-2 estão suscetíveis à infecção.

Tipos de coronavírus

Coronavírus, ao contrário do que muitos acreditam, não é o nome do vírus que causa a Covid-19, e sim de uma família de vírus da qual o SARS-Cov-2 faz parte. Desde a década de 1960, cientistas descobriram seis outras espécies capazes de infectar seres humanos – além de outras que afetam outros animais, como o coronavírus canino, por exemplo. Quatro delas, identificadas como 229E, NL63, OC43 e HKU1, são bastante comuns e causam sintomas respiratórios relativamente brandos, como um resfriado. Como doenças similares também são causadas por outros tipos de microorganismos, como os adenovírus e os vírus da família influenza, não é possível saber, sem um exame laboratorial, se uma pessoa já foi infectada por um desses coronavírus menos agressivos.
Os outros dois vírus, o SARS-Cov e o MERS-Cov, infectaram poucas pessoas no mundo, mas são letais. O primeiro foi identificado pela primeira vez em 2002, na China, e, como o nome sugere, causou a epidemia de SARS entre os anos de 2002 e 2003. Na ocasião, 8.096 casos foram confirmados, e 776 pessoas morreram – ou seja, a taxa de letalidade foi de cerca de 9,6%. Já a MERS (Sídrome Respiratória do Oriente Médio), que surgiu em 2012 na Arábia Saudita, afetou 2.494 pessoas, matando 858 delas. Isso quer dizer que 34,4% das pessoas diagnosticadas com essa doença morreram.
Desde os primeiros surtos de Covid-19 em Wuhan, na China, pesquisadores vêm analisando as semelhanças e diferenças entre o atual vírus e seus “parentes” mais antigos para saber se esse tipo de imunidade cruzada é possível. Com essas pesquisas, confirmamos a suspeita de que alguns elementos do nosso sistema imunológico pode reconhecer mais de um vírus da família. Contudo, o potencial de proteção que esses elementos oferecem contra o novo coronavírus ainda é incerto.
Fontes:
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André Borges
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