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Post no Facebook distorce informações sobre sistema imunológico, álcool em gel e Covid-19
27.08.2020 - 19h45
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais um post que diz que o álcool gel deixa a pele mais permeável ao novo coronavírus, o que auxiliaria na contaminação. O texto traz ainda informações sobre o sistema imunológico para recomendar aos usuários formas de se prevenir contra o novo coronavírus. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:
“Quanto mais usamos estes géis à base de álcool, mais permeáveis e sensíveis à epiderme são os vírus”
Texto publicado no Facebook que, até às 19h do dia 27 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Até hoje, não há nenhuma evidência científica de contaminação pelo novo coronavírus através da pele. Todos os indícios apontam que o vírus entra no corpo humano por via oral ou nasal.
Em seu site, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o novo coronavírus é transmitido entre as pessoas por meio de pequenas gotículas do nariz ou da boca. Além disso, também é possível ser infectado tocando uma superfície contaminada e levando a mão ao rosto. Há indícios de que a transmissão pode ocorrer, também, através de aerossóis, microgotículas de água que flutuam no ar e podem ser aspiradas diretamente. Ainda não há consenso científico sobre essa segunda hipótese.
Segundo o dermatologista Paulo Criado, coordenador do Departamento de Medicina Interna da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o álcool em gel pode causar alguns danos a pele, mas não o suficiente para permitir a entrada de patógenos no organismo. Por outro lado, essa substância é eficiente como desinfetante e seu uso é seguro. Portanto, é recomendada para reduzir as possibilidades de contágio pelo SARS-Cov-2 e outras doenças. Criado reforça, ainda, que não há nenhuma evidência científica de que o novo coronavírus consiga penetrar a pele e contaminar uma pessoa.
Segundo a SBD, a forma mais indicada para higienizar as mãos é o uso de água e sabão. Contudo, em ambientes onde isso não é possível, o álcool em gel é o melhor substituto.

“Em que momento, foi explicado à população que todos têm a capacidade de fortalecer naturalmente o seu sistema imunológico em alguns dias (os jovens) ou em algumas semanas? Isso certamente não evitaria a propagação do vírus, mas fortaleceria as nossas defesas contra ele e, portanto, reduziria a proporção de casos graves, para curar muito mais rápido em casa”
Texto publicado no Facebook que, até às 19h do dia 27 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas
Falso
Hábitos saudáveis, como alimentação balanceada, exercícios físicos e sono suficiente, são importantes para fortalecer o sistema imunológico. Contudo, isso não é suficiente para garantir que uma pessoa não vá desenvolver sintomas graves da Covid-19. A interação do sistema imunológico com esse vírus é complexa, e ainda está sendo estudada. Além disso, uma mudança súbita de hábitos não resulta, necessariamente, na melhora quase imediata desse sistema.
Segundo a  imunologista Ana Caetano, membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), hábitos saudáveis não garantem imunidade contra o novo coronavírus. Tampouco há como mensurar em quanto tempo, de modo geral, a adoção dessa rotina pode ter um impacto no sistema imunológico. “Não há como fazer uma prescrição geral de quantos dias seria suficiente para que tais medidas tenham impacto no organismo de cada pessoa porque isto depende de fatores genéticos, da idade e da história de enfermidades anteriores de cada um. Vale a pena começar logo porque ter uma vida mais saudável será sempre importante na imunidade”, diz a especialista.

“Que a eficiência do nosso sistema imunitário depende estreitamente da qualidade da nossa flora intestinal”
Texto publicado no Facebook que, até às 19h do dia 27 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas
Verdadeiro, mas...
Segundo Caetano, a microbiota intestinal – nome técnico da “flora intestinal” – afeta o desempenho do sistema imune. “Mantê-la diversificada e equilibrada é um fator importante na saúde do corpo e do sistema imune”, disse. Para isso, Caetano recomenda que a pessoa coma alimentos naturais que tenha nutrientes e fibras e também evite alimentos industrializados ricos em sal, gorduras saturadas e açúcar refinado.
Contudo, a especialista lembra que essa é uma recomendação que deve ser seguida sempre, independentemente da pandemia da Covid-19. Esses alimentos ajudam a melhorar a saúde, mas não garantem a imunidade contra o novo coronavírus.

“Por que não explicar que o jejum fortalece o sistema imunitário em apenas 3 dias?”
Texto publicado no Facebook que, até às 19h do dia 27 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas
Exagerado
Caetano não acredita que essa recomendação tem embasamento científico o suficiente para ser testada em todos os indivíduos. Ela ressalta ainda que é possível que essa prática tenha o efeito inverso, podendo agravar a infecção pelo vírus.
De acordo com a médica, há estudos que mostram que três dias de jejum, e até o jejum intermitente, podem resultar em benefícios para o sistema imunológico. Contudo, a questão se torna controversa no caso de infecções virais, como no caso da Covid-19.
“Existem estudos mostrando que o jejum pode reduzir ou agravar o estado inflamatório. Um estudo de 2019 mostra que exatamente em infecções virais, o jejum resulta em aumento exagerado da produção de citocinas inflamatórias, agravando o quadro da doença viral. Outra questão importante seria o efeito desse jejum em pessoas com diferentes histórias clínicas, idades e fatores genéticos”, disse.

“Por que não falar sobre os benefícios do chuveiro frio que em poucos dias aumenta o nível de certos linfócitos T?”
Texto publicado no Facebook que, até às 19h do dia 27 de agosto de 2020, tinha sido compartilhado por diversas pessoas
Falso
Segundo Ana Caetano, a exposição aguda ao frio não é uma recomendação para se melhorar o desempenho do sistema imunológico. Ela explica que, de fato, essa prática aumenta os níveis de adrenalina e atua como um estimulante do sistema imune. Contudo, os efeitos são temporários. “Os efeitos em um prazo mais longo podem ser deletérios para a imunidade, principalmente para os linfócitos T”, disse.
O post analisado pela Lupa também circulou em Portugal e foi checado pela plataforma Polígrafo.
Correção feita às 11h30 do dia 28 de agosto de 2020: a médica Ana Caetano é imunologista, e não infectologista, ao contrário do que foi dito inicialmente.
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Evelyn Fagundes
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