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Lupa na Ciência: Para conter a pandemia, vacina precisa ser aplicada em larga escala, aponta estudo
07.09.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
– Estudo publicado recentemente indicou que, se uma vacina contra o novo coronavírus tiver eficácia de 80%, ela precisa ser aplicada em pelo menos 75% da população para acabar com a epidemia
– Se 60% da população for imunizada, a eficácia teria que ser de 100% para acabar com uma pandemia
– Os dados preocupam porque ainda não se sabe a eficácia das vacinas que estão em desenvolvimento contra o novo coronavírus. Além disso, as taxas de vacinação vêm caindo no Brasil nos últimos anos
– Especialistas se preocupam com os reflexos da declaração recente do presidente Jair Bolsonaro de que “ninguém pode obrigar ninguém” a se vacinar
– Em um editorial publicado na revista The Lancet, pesquisadores indicam que, mesmo com vacinas contra a Covid-19 disponíveis, a população não deve relaxar as medidas de proteção até que se saiba mais sobre eficácia e cobertura delas
Na semana passada, em conversa com apoiadores sobre os rumos da pandemia na porta do Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “ninguém pode obrigar ninguém” a receber a vacina. A declaração preocupou entidades e especialistas, já que um dos principais fatores para conter a propagação de uma doença infecciosa e controlar um surto é a porcentagem de pessoas que são imunizadas. Outro fator importante é a eficácia da vacina – algo que ainda é uma incógnita nas vacinas que estão em pesquisa contra o novo coronavírus.
Em um estudo publicado em agosto no periódico científico American Journal of Preventive Medicine (AJPM), um grupo de pesquisadores avaliou, a partir dessas duas variáveis, os cenários mínimos para que uma estratégia de imunização em massa contra a Covid-19 seja bem-sucedida. Utilizando um modelo de simulação de computador, que considerou características do novo coronavírus (como a taxa de infecção), os pesquisadores estimaram que, se 75% da população for vacinada, o imunizante deve ter eficácia de ao menos 80% para acabar com a epidemia e de 70% para prevenir uma nova onda de contágio em locais já controlados. Se 60% da população for imunizada, a eficácia teria que ser de 100% para acabar com a epidemia e de 80% para evitar uma nova onda.
Os dados preocupam por dois motivos. Primeiro, porque as taxas de vacinação para diferentes doenças vêm caindo no Brasil ao longo dos últimos anos. Em 2019, a vacinação Tríplice Bacteriana (DTP) caiu 34,4% em relação a 2017, de acordo com dados da Fiocruz. Segundo porque ainda não se tem dados suficientes para determinar a eficácia das vacinas que estão em desenvolvimento contra a Covid-19.
De acordo com os autores do estudo, o termo “eficácia” se refere ao percentual de proteção da população. Isso significa que se cem pessoas que não foram expostas ao vírus recebem uma vacina com eficácia de 80%, cerca de 80 delas ficam imunes. As outras podem desenvolver defesas contra o vírus, mas não o suficiente para neutralizá-lo completamente. Essa taxa só é possível de ser estimada quando o imunizante é aplicado em larga escala e em situações reais, e não em pesquisas laboratoriais.
De acordo com a Sinovac, empresa que está desenvolvendo a Coronavac, na segunda fase de estudos, 600 pessoas foram vacinadas e 90% delas desenvolveram anticorpos capazes de neutralizar o coronavírus. O problema é que esses estudos são feitos com grupos de faixas etárias específicas, não refletindo o tipo de cobertura em situações reais. Além disso, a confirmação da proteção desses anticorpos pode levar muito tempo, já que só pode ser avaliada quando os participantes são expostos ao vírus. Como, obviamente, não é ético nem legal expor pessoas ao vírus de propósito, isso só é possível caso quando a exposição ocorre de forma natural.

Como funciona a vacinação

Para compreender as porcentagens calculadas no estudo e a forma como elas podem impactar em políticas públicas de contenção da propagação do vírus, é preciso entender como funciona um imunizante. Vacinas são compostos que têm uma dimensão pessoal (proteger as pessoas de um determinado patógeno), e também coletiva (controlar um surto ou erradicar uma doença em uma região ao interromper a circulação do vírus). Esse segundo efeito acontece quando uma porcentagem suficiente da população já possui defesa contra o patógeno a ponto de ele não encontrar hospedeiros para se reproduzir.
Para chegar a esse ponto, os imunizantes são desenvolvidos a partir de fragmentos de um vírus ou bactéria – ou até o patógeno inteiro inativado –, que são injetados no corpo para estimular o organismo a produzir uma resposta imunológica contra ele. Essa resposta, no entanto, não garante que ficaremos totalmente protegidos nem que essa imunidade durará a vida toda. Isso depende do potencial da vacina para estimular a defesa do corpo e de características dos microrganismos. Alguns induzem o corpo a produzir uma defesa forte e que dura a vida toda; outros, uma proteção mais branda e de apenas alguns meses. A vacina contra o sarampo, por exemplo, apresenta uma eficácia de 98% e dura pelo menos 15 anos. Já nos imunizantes contra gripes sazonais, a eficácia varia entre 20% e 60%, e a proteção dura cerca de um ano. No caso das vacinas contra o novo coronavírus, os estudos ainda são muito recentes para determinar o tempo que a imunidade dura e se (ou quando) seriam necessárias doses adicionais.
“Alguns estão pressionando para que uma vacina seja lançada o mais rápido possível para que a vida possa ‘voltar ao normal’. No entanto, temos que definir expectativas adequadas. Só porque uma vacina é lançada não significa que você pode voltar à vida como era antes da pandemia”, apontou Bruce Y. Lee, um dos autores do estudo. “É importante lembrar que uma vacina é como muitos outros produtos: o que importa não é apenas que esteja disponível, mas também sua eficácia.” Os pesquisadores dizem que os resultados do estudo podem fornecer alvos para desenvolvedores de vacinas, bem como definir expectativas para formuladores de políticas públicas, líderes empresariais e o público em geral.
Em um editorial publicado na revista The Lancet no final de agosto, um grupo de especialistas reforçou a preocupação com o grau de esperança que está sendo depositado nas vacinas e de que elas tragam uma falsa esperança do retorno à normalidade. “A implementação de uma vacina com pouca eficácia pode realmente piorar a pandemia de Covid-19 se as autoridades presumirem erroneamente que ela causa uma redução substancial no risco ou se os indivíduos vacinados acreditarem erroneamente que estão imunes”, explicam.
Nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), consta que uma vacina deve ter eficácia de pelo menos 30 a 50% para ser considerada bem-sucedida. Já as orientações atuais da Food and Drug Administration (FDA) possuem um critério de pelo menos 30% de eficácia para licenciamento de vacinas. Esses valores, é claro, variam conforme o tipo de doença que se pretende combater. Em casos como o da atual pandemia, imunizantes com esse baixo grau de proteção podem ajudar a conter a propagação do vírus, mas não devem ser encarados como soluções definitivas. Por isso, políticas públicas para imunização em massa são tão importantes. Além disso, mesmo com vacinas contra a Covid-19 disponíveis, até que se saiba mais sobre sua eficácia, governantes e população não devem relaxar as demais medidas de proteção, como o distanciamento social e uso de máscara, alertam os autores do estudo publicado no AJPM.
Fontes:
American Journal of Preventive Medicine. Artigo disponível em:
https://www.ajpmonline.org/article/S0749-3797(20)30284-1/fulltext
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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