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Lupa na Ciência: Mais duas candidatas a vacina contra Covid-19 entram na fase final de testes
28.09.2020 - 12h00
Rio de Janeiro - RJ
O que você precisa saber:
– Duas empresas americanas anunciaram, na última semana, que irão começar a fase final de testes de potenciais vacinas contra o novo coronavírus
A Johnson & Johnson, que ainda não teve os resultados das fases iniciais publicados em revistas científicas, irá testar o imunizante em cerca de 60 mil voluntários, entre eles sete mil brasileiros
– A empresa afirmou que deve ter uma comprovação sobre a eficácia e segurança da vacina até o final do ano. Ela pretende produzir até 1 bilhão de doses em 2021
– A Novavax, que nunca lançou uma vacina no mercado, avançou para a fase final com a expectativa de selecionar 10 mil voluntários. Estudos das etapas anteriores já foram publicados em revistas científicas e mostraram bons resultados
– As duas empresas americanas agora se unem a outras sete que também estão na fase final de testes clínicos para potenciais imunizantes contra o novo coronavírus
Mais duas potenciais vacinas contra o novo coronavírus entraram na fase III de testes clínicos, a última etapa de estudos para comprovar a eficácia e segurança do imunizante.  No dia 23 de setembro, a americana Johnson & Johnson, que desenvolve uma vacina com o laboratório Janssen, comunicou que irá selecionar cerca de 60 mil voluntários, entre eles brasileiros, para a fase final da pesquisa. No dia seguinte, a também americana Novavax informou que dará início à etapa final de testes no Reino Unido, onde está selecionando 10 mil voluntários. As duas empresas se somam a outras sete que disputam a liderança pelo imunizante: as chinesas Sinovac, CanSino BiologicsSinopharm; a russa Gamaleya Research Institute; a americana Moderna; a britânica Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca; e a alemã BioNTech em parceria com a americana Pfizer.

Johnson & Johnson testará vacina no Brasil

Apesar de a Johnson & Johnson estar atrás na corrida para ver quem lança primeiro a vacina, o produto em teste tem particularidades que animam os pesquisadores. A primeira é que ele pode ser administrado em apenas uma dose, em vez das duas que vêm sendo testadas por várias empresas. A segunda vantagem é que o produto não precisa ser mantido congelado durante o armazenamento em hospitais e outros centros de vacinação, o que simplifica a logística de produção, transporte e conservação.
A tecnologia aplicada pela empresa na produção da vacina é usada há anos em outros imunizantes e é a mesma adotada por outros laboratórios que já estão na fase final de testes, como Universidade de Oxford e CanSino. Ela consiste em usar vetores virais recombinantes (VVR), vírus já conhecidos mas modificados geneticamente. Neles, são inseridos fragmentos do patógeno ao qual se deseja adquirir imunidade. Eles são injetados no corpo humano, em sua forma enfraquecida, para induzir o organismo a criar defesas. No caso dessas vacinas contra a Covid-19, os pesquisadores usam uma versão de um adenovírus (aquele que causa o resfriado comum) como vetor. Em seu genoma, inserem uma parte do novo coronavírus que contém a “receita” para produzir a proteína spike (usada pelo vírus para se grudar nas células humanas e invadi-las). A ideia dos pesquisadores, que se mostrou eficaz, é que, com o vírus modificado, o corpo aprenderá a reconhecer a proteína spike e desenvolverá imunidade contra ela. A vantagem de vacinas à base de adenovírus é que elas precisam apenas ser mantidas refrigeradas, e não congeladas, como é o caso das vacinas testadas por empresas como a Moderna e a Pfizer.
Há alguns meses, a Johnson & Johnson, que já produz vacinas contra outras doenças utilizando a mesma tecnologia, recebeu mais de U$ 1 bilhão do governo americano para a produção do imunizante contra o Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19. O investimento, assim como o avanço para a fase final de testes, foi feito antes mesmo de os resultados das etapas iniciais do estudo terem sido publicados em revistas científicas. Até o momento, as informações sobre a eficácia e segurança do imunizante vêm de um estudo publicado no final de julho na revista Nature, que testou uma dose do produto em 53 macacos. De acordo com o estudo, a vacina induziu uma resposta robusta de anticorpos neutralizantes e forneceu proteção completa ou quase completa quando os animais foram expostos ao vírus. Os resultados dos testes iniciais em humanos começaram em junho e envolveram cerca de 500 voluntários nos Estados Unidos e na Bélgica, mas ainda não foram divulgados. A empresa informou que o produto demonstrou ser seguro e eficaz com apenas uma dose.
Na última etapa de testes, 60 mil voluntários da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, África do Sul e Estados Unidos serão selecionados. Os testes aqui já foram autorizados pela Anvisa e devem começar em outubro com 7 mil pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Bahia. Até o final do ano, a Johnson & Johnson deve ter uma resposta sobre a eficácia e segurança do produto. A empresa se comprometeu a produzir 1 bilhão de doses do imunizante em 2021 e a comercializá-las a preço de custo durante a pandemia.

Novavax irá priorizar pacientes idosos

Pelo menos um quarto dos voluntários que vão testar a vacina da Novavax na última fase terão acima de 65 anos. A empresa também informou que vai priorizar os mais afetados pela Covid-19, como minorias raciais e étnicas. O grupo que desenvolve a vacina é um dos seis financiados pelo governo dos Estados Unidos para o desenvolvimento de um imunizante contra o Sars-CoV-2 e recebeu mais de US$ 1,6 bilhão em recursos públicos para a produção de 100 milhões de doses. A empresa nunca lançou uma vacina no mercado, mas os resultados iniciais dos testes animaram a comunidade científica. Ela é uma das que aposta em uma tecnologia mais antiga, à base de proteína, já usada para vacinas contra outras doenças, como a hepatite B, e aplica novas tecnologias ao procedimento.
Denominada vacina recombinante, seu desenvolvimento consiste em duas etapas principais: na primeira, cientistas inserem um fragmento do RNA (da carga genética) do novo coronavírus em células de outros microrganismos, como leveduras, e cultivam eles em laboratório. Esse fragmento genético contém a receita para a produção da proteína spike. A partir desse procedimento de engenharia genética, o microrganismo se transforma em uma “fábrica” de spike. Os pesquisadores então submetem o composto cultivado a um processo de purificação e separação dos elementos e empacotam essas proteínas em nanopartículas, que formam o produto da vacina. Em uma etapa seguinte, para melhorar o desempenho do imunizante, a Novavax insere um componente chamado adjuvante, o Matrix-M1. Estudos anteriores feitos em ratos mostraram que o adjuvante estimula as células do sistema imunológico para que desenvolvam uma resposta potente ao vírus.
Embora a Novavax esteja meses atrás dos primeiros na corrida da vacina, os testes iniciais foram bastante positivos. No início de setembro, o periódico The New England Journal of Medicine publicou os resultados das fases 1 e 2 de estudos clínicos, em que 131 voluntários foram divididos em três grupos, que receberam diferentes doses da vacina (com ou sem o componente Matrix-M1) ou um placebo. Após 35 dias do início da aplicação, os pesquisadores concluíram que o produto desencadeou uma resposta imunológica bastante robusta, e não foram identificados efeitos adversos severos. Além da Novavax, outros três grupos estão em fase de testes clínicos de vacinas à base de proteína: Clover Biopharmaceutica,  Universidade de Queensland, na Austrália, e a Vaxine. Nenhuma delas, no entanto, chegou à etapa final de estudos.
No comunicado mais recente, a empresa afirmou que, se sua vacina se mostrar eficaz, pode produzir 100 milhões de doses até o início do próximo ano. O governo americano anunciou que, se a vacina funcionar, a empresa receberá mais incentivos para a fabricação em larga escala de milhões de doses.
Fontes:
Revista Nature. Artigo disponível em:
The New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
Johnson & Johnson. Informações disponíveis em:
Novavax. Informações disponíveis em:
Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.
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