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Vídeo que circula no Whatsapp distorce falas e informações sobre a pesquisadora Natália Pasternak
11.02.2021 - 18h14
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelo WhatsApp um vídeo falando sobre a microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak. A gravação afirma que a pesquisadora é contra os testes capazes de identificar pessoas infectadas pelo novo coronavírus e que não tem registro no Conselho Federal de Biologia — e que, por isso, seria um “falsa bióloga”. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“Ela diz não para todos os tratamentos possível para o coronavírus”
Vídeo compartilhado no Whatsapp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Na verdade, o que a pesquisadora Natália Pasternak diz ser contra tratamentos que não tem eficácia comprovada contra a Covid-19, como ivermectina ou hidroxicloroquina. Em junho do ano passado, Pasternak foi entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura, e explicou o que acredita ser o melhor tratamento que o médico pode dar para o seu paciente neste momento.
“Se ele [médico] tiver essa tranquilidade, ele vai poder dizer para ele mesmo e para o paciente: ‘olha tão falando mesmo desse tratamento aqui, mas a gente não sabe se esse tratamento vai te fazer bem ou vai te fazer mal ou não vai te fazer nada. Enquanto a gente não souber, eu prefiro tratar você da maneira que eu sei que vai funcionar’ e isso é diferente de não tratar. Então acho que isso também foi uma confusão muito grande que foi criada. Então ficava: ‘ah, melhor dar cloroquina do que nada’. Não, não, não. Quem é que não está fazendo nada? As pessoas estão sendo tratadas com o melhor tratamento disponível baseado em evidências científicas, as pessoas estão sendo tratadas, estão sendo hospitalizadas, estão recebendo oxigênio, estão recebendo ventilação mecânica, estão recebendo medicamentos de suporte, mas não estão recebendo medicamento específico porque não existe medicamento específico”, disse.

“Ela é contra a cloroquina. É contra a ivermectina. É contra a ozonioterapia [no tratamento da Covid-19]”
Vídeo compartilhado no Whatsapp
Verdadeiro
Em suas redes sociais e em entrevistas, Natália Pasternak já afirmou em diversos momentos que a cloroquina, a ivermectina e a ozonioterapia não são formas eficazes de tratar pacientes com Covid-19. Esse posicionamento da pesquisadora tem como base estudos feitos com as drogas que mostram que elas, de fato, não auxiliam no tratamento de infectados com o novo coronavírus.
No site Instituto Questão de Ciência, Natália escreveu alguns artigos falando o motivo da cloroquina ser uma droga não aconselhável para o tratamento da doença. Em dezembro, a pesquisadora disse que o kit covid (hidroxicloroquina e azitromicina) no tratamento da Covid-19 tinha a mesma eficácia de balas de jujuba. Ela também criticou a indicação da ivermectina, uma vez que a droga não tem eficácia comprovada. O mesmo aconteceu quando a ozonioterapia surgiu no radar de conspiradores que apontavam o tratamento como a cura da Covid-19.
Não há comprovação científica de que a ivermectina auxilie no tratamento de Covid-19. Embora alguns estudos, feitos in vitro ou com um número pequeno de participantes, tenham sugerido resultados positivos, não há nenhum ensaio clínico com um número significativo de voluntários que tenha apontado a eficácia do remédio contra o novo coronavírus. Na última semana, a Merck, uma das farmacêuticas que produz o medicamento, publicou texto afirmando que a droga não é eficaz no combate à doença.
Já a hidroxicloroquina, no início da pandemia, parecia uma droga promissora. Contudo, diversos estudos randomizados e duplo-cegos com um número relevante de voluntários mostraram, posteriormente, que a droga não é eficaz no tratamento ou prevenção da Covid-19 em nenhum estágio da doença.
Por fim, ao contrário da ivermectina e da hidroxicloroquina, que são tratamentos reconhecidamente eficazes para outras doenças, a ozonioterapia não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como tratamento para nenhuma enfermidade. Ela só pode ser aplicada para fins experimentais, seguindo os devidos protocolos clínicos, segundo resolução de 2018.

“[Natália Pasternak] É contra os testes”
Vídeo compartilhado no Whatsapp
Falso
A pesquisadora nunca disse ser “contra os testes”. Pelo contrário: Pasternak sustenta que a estratégia mais eficiente de se combater a doença envolve a testagem em massa e o rastreio dos contatos das pessoas infectadas — política aplicada, por exemplo, na Coreia do Sul e na Nova Zelândia. O que a bióloga disse ser contra é a venda de testes sorológicos, os quais ela considera ineficientes para detectar a doença, em farmácias.
Questionada sobre a disponibilidade de testes no Brasil em entrevista ao programa Roda Viva, ela advertiu sobre o diagnóstico por meio dos testes rápidos vendidos em farmácia, especificamente. Na mesma resposta, porém, ela reforçou que os testes de RT-PCR são importantes para diagnosticar a doença e que a falta deles atrapalha a resposta do poder público à pandemia.
“É grave a gente não ter os testes de RT-PCR disponíveis, principalmente para profissionais de saúde na rede pública, porque esse é o teste que a gente faz diagnóstico. A gente não faz diagnóstico com sorologia, com teste rápido”, disse. Ela pontuou que esse é o único teste que detecta a presença do vírus no organismo. “A gente comprou pouquíssimos insumos para poder ter esse teste disponível no Brasil. Isso foi uma escolha do ‘desgoverno’ federal, que não comprou os insumos e não distribuiu para os estados e municípios”, complementou
Pasternak criticou, especificamente, os testes sorológicos vendidos em farmácias. “Ninguém precisa se preocupar com o fato deles [testes rápidos vendidos em farmácias] serem inacessíveis para boa parte da população porque eles não servem para nada. Não comprem”, disse.
Testes RT-PCR, ou apenas PCR, são aqueles realizados por laboratórios, no qual material biológico é coletado das vias aéreas do paciente com um swab, ou cotonete. Esse tipo de teste é capaz de detectar a presença do DNA do vírus no corpo, ou seja, ele é capaz de mostrar se a pessoa está com a doença no momento da coleta. Esse tipo de exame é o mais indicado para Covid-19, e tem alto índice de acerto.
Já os testes sorológicos vendidos em farmácia não detectam a presença do DNA do vírus, e sim a presença de anticorpos contra o vírus no sangue. Assim, não detectam se a pessoa está ou não infectada.
Procurada, a assessoria de imprensa do instituto Questão de Ciência disse que o “vídeo distorce completamente as falas de Natalia Pasternak sobre o assunto, pois tira do contexto suas críticas aos exames rápidos de farmácia, colocando-a como contrária a todo tipo de técnica de diagnóstico”.

“[Pasternak] Também diz que é bióloga, mas não tem registro no Conselho Federal de Biologia”
Vídeo compartilhado no Whatsapp
Verdadeiro, mas...
Pasternak, de fato, não tem registro no Conselho Federal de Biologia (CFBio). Contudo, não há obrigatoriedade de registro no CFBio para o exercício de atividades de docência, pesquisa e divulgação científica. Segundo a lei 6.684/1979, que regulamenta o exercício da profissão de biólogo, essa certificação é exigida para atividades como a execução de laudos e pareceres periciais. Ou seja: não estar registrado no conselho não significa que a pessoa não é bióloga.
Segundo seu currículo na plataforma Lattes, Pasternak se formou em Ciências Biológicas na USP e é doutora em Microbiologia, também pela USP. A universidade confirmou a veracidade das informações prestadas.
Segundo a assessoria de imprensa do instituto Questão de Ciência, a pesquisadora optou por não realizar o registro no CFBio. “Não há tal exigência [registro no CFBio] para a realização dos relevantes trabalhos que desenvolve”, disse.
Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.
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