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Painel de notificações da Anvisa não ‘prova’ que vacinas contra Covid-19 são perigosas
02.03.2021 - 09h00
Rio de Janeiro - RJ
O Painel de Notificações de Farmacovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que reúne dados sobre efeitos adversos de vacinas e medicamentos, começou a ser usado para espalhar desinformação pelas redes sociais. Os números presentes no site, que são preliminares, apareceram em pelo menos uma publicação falsa que circula pelo WhatsApp, à qual a Lupa teve acesso. No texto, as informações são distorcidas e usadas como “prova” de que as vacinas contra a Covid-19 aplicadas no Brasil são perigosas e podem causar problemas de saúde ou levar à morte. A ferramenta, no entanto, não permite chegar a esse tipo de conclusão.
O site funciona como um dos instrumentos da Anvisa para acompanhar os relatos de problemas suspeitos relacionados a vacinas e medicamentos. As notificações servem de base para investigação posterior e, logo na entrada, isso é deixado claro em um texto detalhado. “As informações contidas no painel referem-se às suspeitas de eventos adversos, ou seja, embora os eventos tenham sido observados após administração de um determinado medicamento ou vacina, não é possível ter certeza de que estejam relacionados ou tenham sido causados por este medicamento ou vacina”, explica o portal.
O alerta explica ainda que as reações podem ser causadas por outros fatores, como a própria doença, por outros problemas de saúde ou pela interação entre diferentes medicamentos. “Qualquer notificação de evento adverso deve ser analisada no contexto de todos os dados disponíveis relativos ao medicamento ou vacina”, diz o texto de entrada do painel. Isso inclui, por exemplo, notificações recebidas por agências de outros países, ensaios clínicos, artigos científicos e outros tipos de monitoramento feitos pela Anvisa. Só quem tenta entrar na página, contudo, vê esse aviso – o que dificilmente ocorre quando se recebe uma mensagem pelo WhatsApp.
Os dados do Painel de Notificações de Farmacovigilância vêm de um outro sistema, o VigiMed. Essa ferramenta pode ser usada por empresas, profissionais de saúde ou cidadãos comuns para reportar quaisquer eventos adversos de medicamentos ou vacinas, independentemente da gravidade do que ocorreu. “O que é um evento adverso pós-vacinação? É qualquer ocorrência indesejada após a vacinação e que, não necessariamente, possui relação causal com o uso de uma vacina ou outro imunobiológico”, explica a gerente-geral de Monitoramento de Produtos Sujeitos à Vigilância Sanitária da Anvisa, Suzie Marie Teixeira Gomes. Isso, inclusive, pode ser algo inócuo, como uma dor no local de aplicação ou uma dor de cabeça leve.
Para contribuir com o VigiMed, é preciso informar apenas um e-mail, escolher o idioma, selecionar uma categoria de notificador e aceitar um termo de uso para utilizar o site. Na página seguinte, incluem-se os dados detalhados sobre o evento. As informações sobre o paciente são anônimas (só há necessidade de informar as iniciais do nome da pessoa). O endereço de e-mail inserido, no entanto, pode ser usado para contato pela Anvisa no caso de ser reportado um evento grave. Essa plataforma é uma adaptação em português do VigiFlow, que integra o Programa de Monitoramento Internacional de Medicamentos da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Ele é exatamente igual ao sistema utilizado em outros países. O portal do FDA é exatamente da mesma forma e as advertências em relação ao uso da informação são praticamente as mesmas”, diz Gomes.
Todas as notificações de incidentes que indicam risco à segurança têm a causa investigada pela Anvisa. “Isso é feito para todos os eventos que estão registrados ali dentro, mesmo aqueles em que o profissional, a vigilância do estado ou o fabricante finaliza o comunicado”, afirma a gerente-geral de Monitoramento do órgão. Se a agência não conseguir entrar em contato com a pessoa que fez o relato, o evento é classificado como inconclusivo na análise de causalidade. “Fundamentalmente, o VigiMed é destinado a empresas, detentores de registro, e hospitais da Rede Sentinela, que são informações mais qualificadas”, explica.
Embora sejam atualizados frequentemente, os dados do Painel de Notificações de Farmacovigilância não incluem detalhes sobre as análises feitas pela Anvisa de cada um dos relatos. Isso porque a finalidade do site é dar transparência às informações quantitativas, permitindo visualizar a proporção em que problemas são registrados. O site funciona como um indicativo preliminar da segurança de uma vacina ou de um medicamento, dentro da premissa de que os riscos devem ser muito inferiores aos benefícios obtidos.
Levantamento do consórcio de veículos de imprensa mostra que, até o dia 20 de fevereiro, 6,9 milhões de doses de vacina contra Covid-19 haviam sido aplicadas no país. Até aquela data, o Painel de Notificações de Farmacovigilância da Anvisa indicava 243 relatos para a vacina de Oxford/AstraZeneca e, até o dia 21, 524 comunicados para a CoronaVac (dados mais recentes disponíveis). Ou seja, se todos esses problemas tivessem sido realmente causados pelas doses das vacinas administradas no país, o que não é o caso, teriam uma incidência de 0,01% em relação ao total de aplicações. Quando se consideram só os eventos graves (156), o porcentual cairia para 0,002%.
No ano passado, outra ferramenta de dados oficiais, o Portal da Transparência do Registro Civil, também teve o seu conteúdo usado indevidamente para espalhar desinformação sobre a Covid-19. Dados parciais sobre o número de óbitos pela doença no país, que demoram semanas para serem atualizados no site, eram propagados como “prova” de que houve menos mortes em 2020 do que em anos anteriores.
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