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É falso que mortes por Covid-19 aumentaram na Suíça depois que país suspendeu uso da hidroxicloroquina
30.04.2021 - 14h51
Rio de Janeiro - RJ
Circula por grupos de WhatsApp um vídeo em que a administradora de empresas Naomi Yamaguchi, ex-candidata a deputada federal pelo PSL de São Paulo, afirma em uma entrevista que a Suíça teve aumento da taxa de mortalidade depois que a revista científica Lancet publicou, em maio do ano passado, um estudo observacional que não confirmava nenhum benefício sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para tratar a Covid-19. Segundo Naomi, depois da publicação do texto, o país europeu suspendeu o uso do medicamento por duas semanas. Com isso, a taxa de mortalidade teria aumentado de 3% para 11%. O dado citado por ela foi baseado em um conteúdo publicado no portal francês France Soir. Depois que o artigo da Lancet foi retirado do ar, o jornal informou que a taxa de mortalidade teria voltado a cair na Suíça.  Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“(…) E hoje saiu o resultado disso no France Soir, um dos grandes jornais da França, a pesquisa do resultado na Suíça dessa suspensão de duas semanas do uso hidroxicloroquina, por causa do estudo da Lancet. Foi suspenso justamente na Suíça, que é a terra da OMS. Então lá foi suspenso imediatamente por duas semanas. O que tava acontecendo: eles tinham cerca de 3%de taxa de mortalidade até então. E quando foi parado, proibido totalmente o uso da hidroxicloroquina, passou para 11%. Quando o artigo foi retirado de circulação e acabou sendo retirado também o banimento [do medicamento], voltou para 3%. Hoje nós tivemos a prova de que a diferença no combate ao coronavirus é a hidroxicloroquina (…)”
Conteúdo que circula em grupos de WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. A taxa de mortalidade por Covid-19 na Suíça não aumentou depois que o país suspendeu o uso de hidroxicloroquina, em maio do ano passado, e também não diminuiu quando a autoridade de saúde local voltou a autorizar a compra do medicamento, em 11 de junho de 2020. Na verdade, depois da primeira onda da doença em abril de 2020, o número de mortes no país caiu e a taxa de óbitos a cada 100 mil habitantes se manteve abaixo de 0,02 casos a cada 100 mil pessoas entre 1º de junho até meados de setembro do ano passado. Entre outubro de 2020 e fevereiro de 2021, a Suíça enfrentou uma segunda onda e, atualmente, a média de falecimentos é de 0,03 casos, registrada em 29 de abril.
Procurado pela Lupa, o Escritório Federal de Saúde Pública da Suíça informou, por email, que foram registradas apenas quatro mortes nas primeiras duas semanas de junho, período citado por Naomi Yamaguchi na entrevista que viralizou em correntes de WhatsApp. Nas duas semanas anteriores (maio), o número de óbitos tinha sido 22, ou seja, 550% maior que no intervalo de tempo mencionado.
Também não é possível afirmar que o país europeu baseou a decisão de não usar hidroxicloroquina em pessoas infectadas pelo novo coronavírus depois que a revista científica The Lancet publicou, em 22 de maio de 2020, um artigo indicando não haver benefícios do fármaco para tratar a doença, como sugere o vídeo. Já em abril de 2020, ou seja, um mês antes da publicação, a Sociedade Suíça de Farmacologia Clínica e Toxicologia havia alertado sobre os perigos potenciais do remédio: “A hidroxicloroquina pode ter efeitos colaterais graves, especialmente em altas doses ou quando combinada com outros medicamentos.”

Dados citados no vídeo não são oficiais

Os dados citados por Naomi foram tirados de um texto publicado em 13 de julho no site francês France Soir, e não em informações oficiais da autoridade de saúde suíça. A matéria intitulada “Hidroxicloroquina funciona, quer uma prova?”, em tradução livre, interpretou dados obtidos à época pela plataforma de dados sobre a Covid da Universidade Johns Hopkins para analisar uma suposta variação da média de mortes no país. Segundo o site, no período em que o medicamento foi suspenso na Suíça — entre 27 de maio (cinco dias depois da publicação da Lancet) e 11 de junho —, observou-se uma “onda de excesso de letalidade” de duas semanas, entre 9 a 22 de junho. Segundo o site, isso demonstra, “sem possível refutação, o efeito da interrupção da liberação e do uso deste medicamento”.
Entretanto, os próprios leitores do site questionaram os dados sobre a Suíça e o site publicou, em 22 de julho, outro conteúdo sobre o assunto, dessa vez com uma resposta do Escritório Federal de Saúde Pública da Suíça explicando que os dados disponibilizados à época pela Johns Hopkins provavelmente misturaram a data do relatório sobre óbito e a data da morte real. O autor do texto não considerou a explicação suficiente e apenas adicionou um “ponto de interrogação” aos dados suíços.
Ao analisar outras bases de dados, como a do Worldometers, por exemplo, observa-se que poucas mortes por Covid-19 foram registradas entre junho e setembro na Suíça.
À Lupa, o Escritório Federal de Saúde Pública suíço afirmou que o artigo do site France Soir contém imprecisões. “Pedimos mudanças, mas isso não aconteceu.” Também informou que “Não podemos demonstrar a eficácia (ou mesmo a ineficácia) da hidroxicloroquina com base nos dados de uso do France Soir”.

Vídeo de Naomi Yamaguchi é de julho de 2020

O vídeo com a ex-candidata a deputada federal por São Paulo, Naomi Yamaguchi, não é atual. A entrevista foi ao ar em 24 de julho do ano passado no canal no YouTube do jornalista Fernando Beteti e vem sendo compartilhada como se fosse recente. Naomi é irmã de Nise Yamaguchi, médica oncologista conhecida por defender o tratamento precoce.
Embora seja correta a informação de que a Lancet tirou do ar um estudo observacional que questionava a eficácia da hidroxicloroquina, diversos outros ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos foram publicados demonstrando a ineficácia do medicamento. Como já mostrado pela Lupa, após essa polêmica vários ensaios clínicos foram concluídos e todos eles apontam que a droga é ineficaz no tratamento da doença.
A pesquisa publicada e depois removida pelo The Lancet não era um ensaio, e sim uma análise feita a partir de bases de dados externos. Naquela ocasião, a integridade das bases de dados foi questionada por outros especialistas. O número de mortes registradas na Austrália, por exemplo, era inferior ao citado na base. Por causa disso, o estudo foi removido da revista em 4 de junho, que publicou uma nota de retratação.
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Gabriela Soares
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