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É falso que antiviral em estudo pela Pfizer tem mecanismo similar à hidroxicloroquina
06.05.2021 - 19h27
Rio de Janeiro - RJ
Circula por grupos de WhatsApp que a farmacêutica norte-americana Pfizer, fabricante de uma das vacinas autorizadas contra a Covid-19, está desenvolvendo um medicamento contra a doença que funciona exatamente como a hidroxicloroquina. De acordo com a publicação, a fórmula chamada de PF-07321332 irá funcionar como “inibidor da protease”, o que seria o mesmo mecanismo de ação da hidroxicloroquina. O post sugere ainda que a diferença entre as duas drogas é que, agora, com a Pfizer, o fármaco terá patente e irá render “milhões ou bilhões” para o laboratório. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“Boa tardeHidroxicloroquina com outro nome, com patente registrada e mais cara. ClaroVem aí a “nova droga” da Pfizer contra o vírusUm antiviral via oral, contra o SARS-CoV-2 esta prestes a entrar no jogo. Ainda segue em fase de ensaios clínicos, mas em breve entrará no mercado, prestem atenção: para uso preventivo e precoce. A droga ainda não tem nome, mas no press release da Pfizer ela é chamada pelo seu código PF-07321332.O seu mecanismo de ação funciona como inibidor da protease, ou seja, funciona EXATAMENTE como a hidroxocloroquina.A única diferença é que agora tem patente; além de ter mudado de roupa e render milhões ou bilhões para os cofres da Pfizer.A Big Pharma agradece! Agora a HCQ funciona.”
Texto que circula em grupos de WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Embora a Pfizer tenha iniciado, em março, os ensaios clínicos de um medicamento via oral com potencial para tratar a Covid-19, a substância em estudo atua de forma diferente da hidroxicloroquina.
O fármaco que está sendo pesquisado pelo laboratório norte-americano, chamado PF-07321332, é um inibidor de protease, uma enzima presente no coronavírus necessária para que ele se replique. Já a hidroxicloroquina age como imunossupressora (reduz a atividade ou eficiência do sistema imunológico), antiautofagia (autofagia acontece quando as células “englobam” e “degradam” porções de seu próprio citoplasma, como um processo de regeneração nível celular no corpo) e antimalárica (malária é uma doença transmitida por mosquito e causada por um protozoário). Isso quer dizer que as duas fórmulas têm ações distintas no organismo.
De acordo com a professora e pesquisadora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Ana Paula Herrmann, enquanto o fármaco testado pela Pfizer tem como alvo específico a enzima protease do novo coronavírus, a hidroxicloroquina não tem afinidade para esse alvo. “A hidroxicloroquina atuaria em vesículas celulares, algo bem inespecífico”. explicou, por WhatsApp.
Um artigo publicado ainda em 2020 na revista científica Journal of the American Medical Association mostrou a diferença de ação de medicamentos contra o Sars-CoV-2. No caso da hidroxicloroquina, por exemplo, pesquisadores descobriram que essa fórmula parecia bloquear a entrada do vírus nas células em estudos in vitro. Entretanto, os autores concluíram que não existiam evidências suficientes, naquele momento, para comprovar a eficácia do remédio. Posteriormente, estudos clínicos mostraram que o remédio não apresenta benefícios no tratamento de Covid-19.
“O estudo mostra que a cloroquina inibiria a entrada do vírus na célula via endocitose. Mas essa via de entrada nem é importante para o coronavírus. A ação imunossupressora só faria sentido na fase inflamatória tardia da doença, para pacientes graves. Mas pra isso tem dexametasona e outros corticoides (e [a hidroxicloroquina] não mostrou eficácia nos estudos)”, disse a professora. Ainda segundo ela, outros inibidores de protease, como o medicamento Lopinavir, foram testados, mas não tiveram sucesso contra o vírus.
Até o momento, não há evidências científicas de que o antimalárico seja eficaz e seguro como profilaxia ou tratamento da Covid-19. A última atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as opções terapêuticas em estudo contra a doença, publicado em 21 de abril (página 40), mostrou que a hidroxicloroquina não reduz mortalidade nem melhora significativamente o tempo para resolução dos sintomas. Além disso, pode causar reações adversas.
Já o PF-07321332 ainda está em fase de testes. De acordo com a empresa, os estudos in vitro mostraram que o medicamento é um “potente inibidor de proteases com atividade antiviral contra o (vírus) Sars-CoV-2 e outros coronavírus” e, por essa razão, tem potencial para o tratamento da Covid-19. No momento, estão em andamento os ensaios clínicos da Fase 1 (quando uma substância é aprovada para testes em seres humanos com a participação de um número reduzido de voluntários). Atualmente, participam pacientes hospitalizados com a doença. Pessoas saudáveis também estão sendo recrutadas.
Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa da Pfizer no Brasil afirmou, por email, que a empresa não está realizando nenhum estudo clínico de medicamento via oral à base de hidroxicloroquina. “Como o programa ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento, não se pode especular sobre qualquer potencial, cronograma ou resultado”, informou.
Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.
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