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Áudio de falso virologista do Einstein traz informações erradas sobre vacinas
01.06.2021 - 15h48
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelo WhatsApp um áudio no qual um suposto virologista chamado Roberto Klaus, que seria vinculado ao Hospital Albert Einstein, diz que as vacinas desenvolvidas contra a Covid-19 são experimentais e não têm segurança comprovada. Além disso, o suposto virologista alerta que os imunizantes não foram testados em idosos e que podem alterar o DNA de quem recebê-los. A assessoria do hospital afirmou que o suposto virologista não faz parte do corpo clínico da instituição. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“A segurança [da Coronavac] não dá nem pra gente ter ideia, porque depende da variável tempo. Quem está tomando vacina agora faz parte de ser um voluntário, porque nós vamos avaliar os efeitos colaterais a longo prazo. […] Essas vacinas são experimentais. Pode dar certo, como pode não dar certo”
Trecho de áudio atribuído a médico que circula em grupos de WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Todos os imunizantes contra a Covid-19 aprovados no Brasil, incluindo a Coronavac, foram testados em milhares de voluntários e posteriormente aprovados após análise técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
“Os testes de fase 1, 2 e 3 demonstraram que são vacinas seguras, imunogênicas — ou seja, promovem resposta imune contra o coronavírus —, e apresentam a eficácia mínima recomendada pela OMS [Organização Mundial da Saúde] para aprovação”, explica o epidemiologista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Guilherme Werneck.
De acordo com Werneck, o uso do termo “experimental” é completamente inadequado e não tem base científica. “Seriam experimentais se as vacinas não tivessem sido aprovadas em protocolos de ensaios clínicos que respeitam aquilo que é feito para o uso em populações. Elas cumpriram os requisitos. Essa é uma ideia que só contribui para diminuir a adesão das pessoas à imunização”, critica o epidemiologista.
Werneck ressalta que os imunizantes continuam sendo avaliados, mesmo após a aprovação para uso, na fase 4 de testes. Nessa etapa, a utilização das vacinas é acompanhada para gerar detalhes adicionais sobre a segurança e a eficácia do produto, além de detectar efeitos colaterais previamente desconhecidos. “Os estudos estão mostrando, na prática, o quanto essas vacinas são efetivas”, avalia.

E o pior de tudo, ela [Coronavac] não foi avaliada nem em jovens abaixo de 18 anos, nem acima de 59 anos. […] Na bula da vacina Coronavac, na bula da própria empresa Sinovac, laboratório chinês, tá escrito lá que ela não foi testada em pessoas acima de 59 anos”
Trecho de áudio atribuído a médico que circula em grupos de WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Não está escrito na bula da Coronavac, que a vacina não foi testada em pessoas acima de 59 anos. De acordo com o relatório técnico entregue à Anvisa, 362 pessoas com 60 anos ou mais participaram dos testes da vacina conduzidos pelo Instituto Butantan. Deles, 186 tomaram o imunizante e outros 176 receberam placebo. São, no entanto, minoria em comparação ao número de voluntários entre 18 e 59 anos (8.861 pessoas).
Na última semana, um estudo preliminar de pesquisadores brasileiros e estrangeiros apontou que a efetividade da Coronavac entre idosos varia entre 61,8% (70 a 74 anos) a 28% (pessoas acima de 80 anos). Essa diminuição da proteção é comum em qualquer tipo de vacina, já que o sistema imunológico se deteriora à medida que a pessoa envelhece.
No entanto, especialistas já esperavam que os testes da Coronavac demonstrassem que o imunizante é seguro, inclusive entre idosos, porque sua tecnologia de vírus inativado é tradicional e utilizada na vacina da gripe, por exemplo. “É uma técnica antiga, bem testada. O Brasil, inclusive, tem muita experiência na produção de vacinas desse tipo”, explica Werneck.

“Nenhuma vacina no mundo até hoje foi lançada em 4 meses como foram essas testadas em 4 meses em voluntários. A vacina mais rápida do mundo foi a da caxumba — 4 anos demorou pra ser lançada. A maioria das vacinas são 15 anos.”
Trecho de áudio atribuído a médico que circula em grupos de WhatsApp
Verdadeiro, mas...
A informação analisada pela Lupa é verdadeira, mas não pode ser utilizada para descredibilizar os imunizantes produzidos contra o coronavírus. De fato, até 2020, a vacina que levou menos tempo para ser desenvolvida era a da caxumba, aprovada em 1967. A nova recordista, a da Pfizer/BioNTech contra a Covid-19, levou apenas 10 meses.
Além do avanço da tecnologia, pesquisas anteriores tiveram um papel importante para que o prazo de produção pudesse ser menor. “Todo mundo ficou surpreso com o tempo, mas é sempre bom lembrar que as vacinas não saíram do zero. Elas já haviam sido pensadas quando tivemos duas epidemias importantes de coronavírus no passado. Elas não foram desenvolvidas naquela época porque as infecções desapareceram. Depois, quando surge esta pandemia, é como se você fosse a uma prateleira que já tinha vários códigos, informações, testes, e você parte daquele ponto”, explica o epidemiologista Guilherme Werneck.
Os estudos de fase 3 poderiam ser, mas não foram prolongados como ocorreu com outros imunizantes já produzidos, devido à urgência da pandemia. “À medida que os estudos mostram segurança, imunogenicidade e eficácia em curto prazo, isso é suficiente para você já autorizar o uso emergencial dessas vacinas”, avalia.

“As outras [vacinas] são perigosíssimas também, porque nós não sabemos nada da segurança dessas vacinas a médio, longo prazo. Porque são vacinas gênicas, que mexem com o nosso código genético, fazendo com que as nossas células produzam partículas de vírus. Isto é um perigo!”
Trecho de áudio atribuído a médico que circula em grupos de WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. O RNA mensageiro, usado nas chamadas vacinas genéticas, não interage com o núcleo das células e não altera o DNA humano. “Não existe nenhuma base científica para dizer que vacinas de RNA mensageiro possam interagir sequer com o núcleo da célula. O RNA mensageiro é uma molécula que fica fora do núcleo da célula, então não tem como ela entrar em contato com o núcleo, muito menos com o código genético”, explica o epidemiologista.
Algumas vacinas usadas contra a Covid-19, como a vacina da Pfizer, utilizam tecnologia de RNA mensageiro. O imunizante induz a célula a produzir a proteína do SARS-CoV-2 responsável por invadir as células, a chamada proteína Spike, estimulando o sistema imunológico a reconhecer o vírus em caso de infecção.
Desde setembro, esse boato já foi desmentido pela Lupa em outras três ocasiões. Leia aqui, aqui e aqui.
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Ítalo Rômany
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