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É falso que vacina da Pfizer causa acúmulo de ‘nanopartículas de mRNA’ no organismo
15.06.2021 - 14h00
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelo WhatsApp um texto segundo o qual a tecnologia da vacina da Pfizer/BioNTech deixa nanopartículas alojadas no organismo que poderiam levar, entre outros problemas, à infertilidade. O conteúdo alerta ainda para uma suposta toxicidade da proteína Spike, relacionada aos imunizantes que utilizam a tecnologia de RNA mensageiro. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“Japoneses encontram nanopartículas de mRNA no cérebro, coração, fígado, ovários, testículos e outras partes de vacinados”
Título de texto do site Estudos Nacionais que circula em grupos de WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. O suposto “relatório secreto”, que na verdade está disponível publicamente em site do governo japonês, é um estudo pré-clínico que descreve o trajeto que um componente da vacina da Pfizer percorre no corpo de ratos de laboratório. Os dados apresentados não sugerem qualquer anomalia, e os pesquisadores concluíram que elementos da vacina são eliminados pelo metabolismo ou por excreção fecal.
A vacina da Pfizer consiste de nanopartículas lipídicas, ou seja, pedaços microscópicos de gordura, que contém um RNA mensageiro, ou mRNA. Esse pequeno fragmento de material genético contém as instruções para que células do corpo humano produzam a chamada proteína Spike do SARS-CoV-2, vírus que causa a Covid-19 — e a proteína, por sua vez, estimula o sistema imunológico a produzir defesas contra o vírus. Essa partícula se desintegra em pouco tempo, e não interage, em momento algum, com o núcleo das células — e, portanto, não tem capacidade de alterar o material genético de células humanas.
Como parte dos estudos para o desenvolvimento da vacina, pesquisadores da Pfizer avaliaram o trajeto feito por essas nanopartículas lipídicas, que servem apenas para proteger o mRNA, no corpo de ratos, em relatório que atualmente está disponível no site da Pharmaceuticals and Medical Devices Agency (PMDA), órgão japonês equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
No estudo, foi apresentada uma tabela que mostra a concentração das nanopartículas lipídicas em órgãos do corpo e em diferentes momentos após a aplicação, indo de 15 minutos a 48 horas. Foram encontradas concentrações desses “envelopes” de gordura em diversas regiões do organismo, mas quase sempre em quantidade inferior a 1 micrograma (o equivalente a 0,000001 grama) para cada grama. Após 48 horas, foi detectada uma concentração de 165 microgramas no local de injeção e quantidades superiores a 10 microgramas no fígado, no baço, nas glândulas suprarrenais e, no caso de fêmeas, nos ovários.
Com base nessa tabela, o site afirma que a concentração das nanopartículas nos ovários levanta “preocupações sobre fertilidade em quem recebe vacinas de mRNA, como a da Pfizer e a Moderna”. Para a professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Teresa Dalla Costa, no entanto, não é possível fazer essa interpretação com base nas informações apresentadas. “Esses dados são ‘brutos’ e não há nenhuma referência sobre valores-alvo. Isolada, essa tabela não diz muito”, explica.
De acordo com a pesquisadora, os dados deveriam estar contextualizados dentro de um relatório para serem analisados devidamente. O relatório da Pfizer, por sua vez, conclui que as substâncias foram posteriormente eliminadas por meio do metabolismo ou da excreção fecal.
O documento de avaliação sobre o imunizante da Pfizer produzido pela Agência Europeia de Medicamentos menciona o mesmo relatório, inclusive relatando o dado sobre a pequena concentração registrada nos ovários. No entanto, reforça que nada foi encontrado nessa região nos estudos de toxicidade de dose repetida.
Por meio de nota, a Pfizer afirmou que não há “pedaços do vírus ou toxinas” presentes em seu imunizante. Declarou também que não houve qualquer evidência de achados macroscópicos ou microscópicos nos ovários após a vacinação, nem de eventual interferência na fertilidade constatada em suas pesquisas, “que foram avaliadas pelas diferentes agências regulatórias no mundo”.

“Sabemos há muito tempo que a proteína spike é uma proteína patogênica. É uma toxina. Ela pode causar danos em nosso corpo se entrar em nossa circulação”
Fala do veterinário Byram W. Bridle, reproduzida em texto do site Estudos Nacionais que circula em grupos de WhatsApp
Falso
Para aprofundar os ataques aos imunizantes contra a Covid-19, o site mistura o relatório publicado no Japão com uma entrevista de Byram Bridle, professor da Ontario Veterinary College, nos Estados Unidos, a um podcast canadense. A fala repercutiu em sites anti-vacina norte-americanos. No entanto, as informações de Bridle foram rebatidas por especialistas, e não tem qualquer relação com o relatório ao qual o texto se refere.
“A proteína Spike é uma glicoproteína utilizada pelo vírus para diversas funções, entre elas a ligação ao receptor ACE-2 humano, por exemplo. Não há evidências de que essa proteína apresente toxicidade por si só”, afirma Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e divulgadora científica pela Rede Análise COVID-19.
De acordo com a biomédica, também não há evidências de que a proteína Spike esteja relacionada a casos de trombocitopenia trombótica imune induzida pela vacina (TTIIV), que ocorre quando o paciente desenvolve baixa contagem de plaquetas e pequenos coágulos sanguíneos depois de tomar vacina. “Todas as análises de mecanismos feitas até o presente momento não apontaram a Spike como um agente causador desse fenômeno. Segundo levantamento do portal Pebmed, [a TTIIV] é algo extremamente raro — 269 casos de trombose descritos após 34 milhões de doses aplicadas da vacina. Se fosse algum mecanismo ligado à Spike, a incidência seria extremamente mais elevada”, afirma Mellanie.
Essa informação também foi checada pela Aos Fatos, Associated Press e Boatos.org.
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Gabriela Soares
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