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Vídeo exibido em live de Bolsonaro não prova que código-fonte da urna eletrônica pode ser fraudado
05.08.2021 - 17h27
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelo WhatsApp um vídeo em que um desenvolvedor de sistemas chamado Jeterson Lordano diz que vai mostrar como é possível fraudar o código-fonte de uma urna eletrônica. Ele também afirma que vai apontar alguns erros que aconteceram com esses equipamentos durante o primeiro turno de uma das eleições passadas. Em seguida, ele passa a fazer uma série de simulações em um computador com votações fictícias, e altera o software para mudar os resultados. A gravação também foi exibida na live do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de 29 de julho. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“Hoje eu vou mostrar para vocês como é possível fraudar o código-fonte de uma urna eletrônica”Frase em vídeo que circula no WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. O software usado pelo desenvolvedor para simular fraudes foi criado por ele mesmo, permitindo que seja alterado facilmente por qualquer pessoa que conheça programação. Como não se trata do código-fonte oficial usado nas urnas eletrônicas, que é protegido contra modificações feitas por pessoas não autorizadas, as mudanças exibidas no vídeo viral não têm nenhuma validade para demonstrar se seria possível fraudar os equipamentos de votação. Também foi utilizado um computador pessoal, não um dispositivo da Justiça Eleitoral, que tem hardware e sistema operacional completamente diferentes.
O youtuber Jeterson Lordano publicou o vídeo após o primeiro turno das eleições de 2018, como mostrou checagem do Comprova, mas a gravação não está mais disponível no seu canal. Posteriormente, ele também fez um vídeo retificando as informações. “Aquilo ali é só um simulador. Eu fui questionado: ‘Ah, você tem o código-fonte da urna?’ Na verdade ninguém tem. Esse código é fechado. Se eles deixam você olhar o código eles ficam em cima para ver o que você está fazendo. Parece que eles não querem mesmo transparência”, disse. Ele afirmou ainda não ter nenhuma prova de que houve fraude na eleição de 2018 e que retirou esse trecho do vídeo..
Para analisar a integridade desse código, o TSE realiza periodicamente os chamados testes públicos de segurança (TPS). Qualquer pessoa com mais de 18 anos e conhecimento técnico, que tenha um plano de testes, pode se inscrever, desde que se encaixe nas regras do edital. O tribunal seleciona os participantes, que têm acesso às urnas eletrônicas e a outros componentes, além do código-fonte, e publica os resultados das análises em relatórios. Os resultados servem como base para mudanças com o objetivo de aprimorar aspectos do sistema de votação. Até hoje, houve cinco edições (2009, 2012, 2016, 2017 e 2019), e em nenhuma delas os profissionais conseguiram alterar os votos registrados pela urna — embora fragilidades significativas tenham sido detectadas.
Diferentemente de um computador pessoal, as urnas eletrônicas são equipamentos criados com a finalidade específica de registrar votos. Por isso, o hardware desses aparelhos foi desenvolvido para só funcionar com software assinado digitalmente com a chave criptográfica do TSE. As urnas são capazes de verificar se houve ou não qualquer alteração. Na hipótese de alguém modificar o código-fonte, o equipamento não funciona mais. “Se [as mudanças] forem feitas por terceiros, no varejo, ou seja, tentando inserir novo software na urna, ela simplesmente se recusa a rodar”, explicou, por e-mail, o professor Paulo Lício de Geus, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ele destacou ainda que ataques individuais a urnas, mesmo se fossem bem-sucedidos, não teriam impacto no resultado de uma eleição. A razão para isso é que o total de votos registrados em cada uma delas é geralmente pequeno, na casa das centenas. “Terceiros muito dificilmente terão êxito, e, de qualquer forma, ataques no varejo (contras urnas individualmente) não mudam resultados de nenhum cargo, exceto nos menores municípios. Para atacar no atacado (com perdão da palavra), somente entrando pela porta da frente, ou seja, cooptando certas pessoas-chave do TSE”, diz o professor da Unicamp. Até hoje, não há nenhuma prova ou indício de que funcionários do tribunal teriam sido cooptados para alterar votos.
Há outros tipos de controle contra modificações indevidas. O TSE lista ao todo 30 barreiras de segurança nas urnas eletrônicas, que vão desde os lacres físicos nos equipamentos até o sistema de controle de versões do software instalado. O código dos programas usados na eleição é apresentado seis meses antes da disputa para representantes de partidos políticos, do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil e de outras entidades. Nessa cerimônia, os softwares são lacrados e assinados digitalmente, garantindo que não sejam alterados posteriormente – o que torna irreal a demonstração feita no vídeo.
Outro procedimento, adotado desde 2018 pelo TSE, consiste no sorteio de algumas urnas para verificar a autenticidade e integridade dos sistemas presentes. Além disso, no dia da eleição, ocorre a “votação paralela”. Também depois de um sorteio, algumas urnas são levadas para uma análise, geralmente na sede dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). Nesses locais, é identificado se os votos digitados são os mesmos registrados digitalmente. Os dados de cédulas de papel preenchidas por representantes de partidos políticos são inseridos nos aparelhos, que devem registrar as informações e apresentar o mesmo resultado após o teste.
Uma verificação semelhante foi feita pelo Comprova.
Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa. Caso tenha alguma sugestão de verificação, entre em contato conosco pelo número +55 21 99193-3751.
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