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Não há provas de que imunidade gerada pela infecção por Covid-19 é melhor do que a da vacina
19.10.2021 - 13h16
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelo WhatsApp um vídeo de supostos cientistas da Pfizer, fabricante de uma das vacinas contra a Covid-19, afirmando que a imunidade gerada naturalmente pela doença é melhor que a promovida pela vacinação. As gravações foram feitas sem o conhecimento dos funcionários por um canal que divulga informações antivacina nos Estados Unidos. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“Cientistas da Pfizer: ‘Seus anticorpos contra a Covid-19 são melhores que os gerados pela vacina da Pfizer’”
Vídeo que circula em grupos de WhatsApp
Insustentável
A informação analisada pela Lupa é insustentável. Existem pontos ainda não esclarecidos pela comunidade científica com relação às diferenças entre a imunidade natural, produzida pela Covid-19, e a induzida pela vacinação. Estudos apontam para um risco de infecção consideravelmente maior entre aqueles que já tiveram a doença e não buscaram a imunização. No entanto, é equivocada a ideia de que a imunidade natural é “melhor”, já que ignora a necessidade de se sobreviver a uma doença que pode levar à hospitalização, sequelas e até mesmo ao óbito. Além disso, um dos funcionários mostrados no vídeo começou a trabalhar na Pfizer em agosto de 2021 e não está “diretamente envolvido” na produção do imunizante da empresa, como afirmaram os produtores da gravação.
O vídeo em questão foi publicado pelo canal Project Veritas em 4 de outubro no YouTube e, até o momento, acumula 1,5 milhão de visualizações. Em pouco mais de dez minutos, a gravação mostra três supostos cientistas da Pfizer filmados por uma câmera escondida enquanto expressam opiniões sobre o imunizante desenvolvido pela farmacêutica.
A principal delas, que dá nome ao vídeo, é dada por Nick Karl, identificado genericamente como “cientista” da Pfizer. “Quando alguém está naturalmente imune, como quando contrai Covid-19, provavelmente tem melhores… não melhores, mas mais anticorpos contra o vírus. […] Então seus anticorpos [de quem teve a doença] são provavelmente melhores nesse ponto do que de quem se vacinou”, disse.
Outros dois supostos funcionários, Chris Croce e Rahul Khandke, deram declarações parecidas na sequência. A partir delas, o vídeo denuncia, em tom conspiratório, uma suposta estratégia da empresa, confessada secretamente por seus cientistas, para forçar a população a se vacinar.
Em um relatório de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu evidências de que a infecção natural pode gerar “uma proteção semelhante à da vacinação contra os sintomas da doença, pelo menos durante o período de acompanhamento já estudado”. No entanto, reforçou que a duração dessa imunidade e a proteção contra reinfecções ainda precisam ser mais bem esclarecidas. A orientação da entidade é para que quem teve Covid-19 também busque a vacinação, assim como recomendam o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e o Ministério da Saúde brasileiro.
“Em termos de componentes imunológicos, duração, ainda não há um consenso. Mas se olharmos para a questão de reinfecção, de abrangência contra variantes, as vacinas parecem trazer um benefício interessante em comparação à infecção. Isso sem considerar os riscos de ter a doença”, avalia Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e divulgadora científica pela Rede Análise Covid-19.
Fontes-Dutra cita um estudo realizado no estado do Kentucky, nos Estados Unidos, e publicado em agosto, segundo o qual pessoas recuperadas da doença e não vacinadas têm 2,34 vezes mais chances de contraírem Covid-19 novamente em comparação às totalmente imunizadas. O CDC se ampara nessa pesquisa para defender a hipótese de que a vacinação completa pode gerar uma proteção mais robusta que a imunidade natural.
Um levantamento produzido pelo Departamento de Saúde de Oklahoma, nos Estados Unidos, também citado pela biomédica, teve resultados semelhantes. De acordo com o órgão, no mês de setembro, as infecções foram 2,02 vezes mais frequentes entre não vacinados que já haviam contraído a doença do que entre aqueles que buscaram a imunização, mesmo em um cenário de avanço da variante delta.
Existem ainda evidências de que pessoas já recuperadas da doença e que se vacinam contra a Covid-19 são capazes de gerar uma espécie de superimunidade, como informa um artigo publicado na revista Nature na quinta-feira (14).
Na avaliação do epidemiologista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Guilherme Werneck, mesmo sem consenso até o momento, a comparação entre as formas de imunidade, como feita no vídeo, é pouco frutífera. “Ainda que a imunidade adquirida pela infecção seja mais duradoura, qual seria o custo disso? Se existe uma infecção que tem potencial de causar hospitalização, morte e, eventualmente, sequelas de longo termo, você quer evitar essa doença. Você quer que todos tenham uma imunidade para se protegerem dessa infecção e é isso que as vacinas fazem”, explica.
Werneck ressalta que expor a população à doença tem um grande custo individual e também social: “Significa arriscar que as pessoas eventualmente desenvolvam algo que é ruim para elas. E também é ruim para a sociedade, porque isolamento, afastamento de atividades, tudo isso traz prejuízos econômicos”, disse.
Em setembro, uma reportagem da CNN Brasil concluiu que o alto custo de internação de uma pessoa na UTI por Covid-19 no Brasil seria suficiente para adquirir quase 2 mil doses da AstraZeneca, a vacina adquirida pelo Ministério da Saúde pelo menor valor. O levantamento utilizou dados do Ministério da Saúde, da consultoria Planisa e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib). O custo médio de 14 dias na UTI seria de R$ 31,2 mil, valor equivalente a 1.970 doses da vacina da AstraZeneca compradas por R$ 15,85.
Além disso, diferentes estudos têm demonstrado que eventuais sequelas podem permanecer por períodos superiores a um ano após a infecção por Covid-19. A OMS reconhece a possibilidade de haver efeitos de longo prazo nos sistemas respiratório e cardiovascular, além de sequelas neuropsiquiátricas e psicológicas.

‘Diretamente envolvido’

A Lupa questionou a Pfizer se as pessoas que aparecem no vídeo, de fato, trabalham na farmacêutica, mas a empresa informou que não comentaria o assunto.
O Project Veritas afirmou que Nick Karl estaria “diretamente envolvido” na produção da vacina da Pfizer contra a Covid-19. Entretanto, essa informação contradiz o que dizia seu perfil no LinkedIn, que foi apagado após a publicação do vídeo, mas arquivado pela plataforma CheckNews, do jornal francês Libération. Na rede social, Karl informava ter trabalhado em outra empresa entre novembro de 2018 e julho de 2021. Ele teria ingressado na Pfizer apenas em agosto de 2021, trabalhando na pesquisa e no desenvolvimento de vacinas, sem especificar quais, além de pesquisar tecnologias para a realização de ensaios clínicos e diagnósticos de Covid-19 e da bactéria E. coli. Pela data de início na farmacêutica, Karl não poderia ter trabalhado no desenvolvimento da vacina contra a Covid-19, que foi aprovada ainda em 2020. Além disso, não há menção a uma suposta função na produção do imunizante.
O perfil de Christopher Croce segue no ar. De acordo com as informações disponíveis, ele trabalha na Pfizer desde setembro de 2018 e assumiu o cargo de cientista associado sênior em junho deste ano. Não há menção às suas atribuições na empresa. A conta de Rahul Khandke não foi localizada.
Essa informação também foi verificada por sites do exterior como o CheckNews, do Libération, Polygraph e Truth of Fiction.
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