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É falso que suramina é ‘antídoto para magnetização e envenenamento’ das vacinas contra a Covid-19
10.12.2021 - 14h17
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelo WhatsApp um link para um site que afirma existir uma espécie de “antídoto” para os efeitos adversos das vacinas contra a Covid-19. Segundo o texto, os imunizantes causam diversos efeitos colaterais, entre eles alguns graves como abortos espontâneos, esterilidade potencial e coagulação sanguínea. Diante disso, o antídoto agiria inibindo esses sintomas. A matéria baseia as informações em orientações de Judy Mikovits, uma conhecida ativista antivacinas. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:
“O ANTÍDOTO CONTRA A MAGNETIZAÇÃO E ENVENENAMENTO GERADO PELAS VACINAS – SEGUNDO A DRA.JUDY MALKOVITS
O que poderia proteger aqueles que foram injetados com a mistura que se faz passar por uma vacina COVID? Dra. Judy Mikovits pensa assim. Mikovits, que participou do filme Plandemic, revelou recentemente o nome dele: Suramin. As perturbadoras histórias de terror das vacinas de covid parecem nunca ter fim”
Texto de site que circula pelo WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe qualquer evidência de que as vacinas causem magnetização e que o medicamento suramina seja um “antídoto” para os efeitos adversos comuns à utilização dos imunizantes. As bulas das vacinas contra a Covid-19 estão disponíveis para consulta no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e mostram que não há qualquer indício de ímãs na composição dos imunizantes.
Em nota enviada por e-mail, a Anvisa informou que as vacinas contra Covid-19 aprovadas no Brasil, bem como todas as demais, não possuem efeitos magnéticos sobre o corpo humano. A nota diz ainda que não há nenhum medicamento registrado no órgão chamado suramina, nem existem pedidos de registro de medicamentos específicos para tratar eventos decorrentes das vacinas para Covid-19. “Tal alegação não faz sentido, pois a abordagem diante de um evento adverso precisa levar em consideração o caso específico de cada evento”, reitera trecho da nota.
De acordo com a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ana Paula Herrmann, não existe nenhum dado científico que corrobore com a sugestão do uso da suramina como inibidor dos efeitos colaterais dos imunizantes. “Os efeitos mais comuns da aplicação das vacinas são relacionados à resposta inflamatória, e poderiam ser minimizados com o uso de um anti-inflamatório não esteroidal comum – como ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, entre outros”, diz a professora.
“Não existe nada que indique que a suramina possa ter qualquer benefício, seja para prevenção e tratamento da Covid-19 ou redução de efeitos colaterais”, declara o epidemiologista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Guilherme Werneck.
A suramina (ou suramin) é um fármaco inicialmente desenvolvido como um medicamento antiparasitário, mas que também demonstrou atividades antivirais e antibacterianas, explica o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, Aguinaldo R. Pinto. O medicamento é usado atualmente para tratamento da [tripanossomíase humana africana](https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/doenca-do-sono#:~:text=A%20Tripanossom%C3%ADase%20Humana%20Africana%20(HAT,transmitida%20por%20moscas%20ts%C3%A9%2Dts%C3%A9.) (HAT, na sigla em inglês), chamada doença do sono, uma infecção parasitária encontrada na África subsaariana e transmitida por uma espécie de mosca.
O antiparasitário também está em fase de testes para tratamento de outras doenças como distrofia muscular, leishmaniose visceral (LV) e na redução de sintomas de transtorno do espectro autista (TEA). A suramina chegou a ser estudada in vitro para tratamento da Covid-19 e um pré-print está disponível no site da OMS. Contudo, os pré-prints são relatos de pesquisa que não passaram por avaliação dos pares, nem foram aceitos para publicação em um periódico científico. O próprio texto afirma que os resultados do estudo requerem ensaios clínicos bem concebidos e devidamente controlados para comprovar se é benéfico o uso do medicamento. Em momento nenhum a suramina é indicada como um possível antídoto para os efeitos adversos dos imunizantes.
A pesquisadora Judy Mikovits é conhecida por reproduzir discursos conspiratórios sobre a pandemia e por divulgar informações erradas sobre o novo coronavírus. Ela teve seu trabalho desacreditado em 2011, depois que a revista científica Science publicou uma retratação de um estudo de Mikovits a respeito da síndrome de fadiga crônica. Em 2009, quando o estudo havia sido publicado, os resultados começaram a ser questionados por pesquisadores. Posteriormente foi comprovado que a tese de que um vírus derivado de ratos, chamado XMRV, era a causa da síndrome de fadiga crônica não tinha fundamento. Pesquisadores mostraram que o vírus tinha sido criado acidentalmente em laboratório.
Mencionado no texto que circula pelas redes sociais, o filme Plandemic, que conta com a participação da pesquisadora, foi retirado de plataformas como YouTube, Facebook e Vimeo por exibir conselhos de saúde infundados e alegações falsas sobre a Covid-19.

“Existem todos os numerosos efeitos adversos daqueles que tomaram a vacina, incluindo enxaquecas, hematomas, menstruação pesada e irregular, abortos espontâneos, esterilidade potencial e coagulação sanguínea potencialmente letal
Texto de site que circula pelo WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os efeitos colaterais das vacinas contra a Covid-19 têm sido, em sua maioria, de leves a moderados. De acordo com a instituição, os efeitos adversos típicos incluem dor no local da injeção, febre, fadiga, dor de cabeça, dor muscular, calafrios e diarreia. Esses efeitos não costumam durar mais do que alguns dias.
Como já mostraram outras checagens da Lupa, os imunizantes não alteram o genoma humano e nem há dados, estudos ou evidências no monitoramento de eventos adversos que indiquem o desenvolvimento de infertilidade em decorrência das vacinas contra Covid-19. Também não há evidências científicas de que as vacinas contra a Covid-19 causem “coagulação sanguínea potencialmente letal”.
Em julho, a Lupa publicou uma checagem sobre um estudo que supostamente teria indicado que 82% das grávidas que foram vacinadas contra a Covid-19 durante os primeiros meses de gravidez sofreram aborto espontâneo. Contudo, a pesquisa não chegou a essa conclusão. Na verdade, encontrou um percentual de 12,6% de abortos espontâneos, considerado dentro do esperado, e sinalizou que os dados até aquele momento não mostravam sinais preocupantes relacionados à segurança dos imunizantes em gestantes.

“Então, há o fenômeno bizarro dos vacinados transmitindo esses efeitos aos não vacinados apenas por estar perto deles”
Texto de site que circula pelo WhatsApp
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Não existe possibilidade de efeitos colaterais das vacinas contra a Covid-19 — como febre, dor no braços, calafrios — serem transmitidos de uma pessoa a outra, afirma o professor Aguinaldo R. Pinto, da UFSC. O que pode ser transmitido de uma pessoa para outra é uma entidade biológica como um vírus ou uma bactéria, não os sintomas relatados.
Para a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, essa afirmação é totalmente absurda. Ela explica que esses efeitos adversos são apenas sintomas e não uma doença. Ballalai reitera que sintomas não são transmissíveis, o que é transmissível é o agente infeccioso causador da doença.
A OMS recomenda que quem puder deve se imunizar, uma vez que “as vacinas não só protegem as pessoas que as recebem, mas também as pessoas da comunidade que não podem ser vacinadas”.
Conteúdo semelhante também foi checado por Boatos.org
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Evelyn Fagundes
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