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Em 2021, Bolsonaro atacou imprensa em 86% das lives transmitidas em suas redes sociais
22.12.2021 - 18h26
Rio de Janeiro - RJ
O presidente Jair Bolsonaro (PL) atacou a imprensa em 86% das lives realizadas em 2021 — ou seja, 42 de 49 transmissões ao vivo feitas pelo presidente ao longo do ano até o momento. Levantamento produzido pela Lupa localizou ao menos 78 afirmações do presidente criticando veículos de comunicação nas lives.
Essas falas desvalorizavam o trabalho de jornalistas, indicando que as reportagens produzidas pela imprensa brasileira espalhariam “fake news” – geralmente citando casos de informações verdadeiras publicadas em jornais do país – e que a mídia não teriam um “compromisso com a verdade”. Ele inclusive dedicou e parabenizou os jornalistas no dia 1º de abril, data conhecida como o Dia da Mentira.
Dos 78 ataques à imprensa feitos por Bolsonaro, 49 citavam algum veículo específico. Os mais citados foram a Globo (26, incluindo a rede de televisão e o jornal O Globo), a Folha de S.Paulo (17), e o Estado de S.Paulo (13). Na live do dia 5 de agosto, o presidente falou que existe um ditado que diz que “se você não lê jornal, você não tem informação. Se você lê você está desinformado”. Na ocasião, ele segurava uma folha de papel com uma reportagem publicada pela Folha sobre uma declaração dada no dia anterior.
“Matéria da Folha, fake news, mentira. Alexandre de Moraes, investiga a Folha! ‘Bolsonaro diz que pode usar armas fora da Constituição’ [lendo a manchete da edição de 5 de agosto do jornal]”, disse. Contudo, a informação divulgada pela Folha não é falsa. No dia anterior, ao comentar o inquérito das fake news, Bolsonaro disse o seguinte, em entrevista à rádio Jovem Pan: “Ele abre [o STF], apura e pune? Sem comentário. Está dentro das quatro linhas da Constituição? Não está, então o antídoto para isso também não é dentro das quatro linhas da Constituição”. Disse também: “Olha, eu jogo dentro das quatro linhas da Constituição. E jogo, se preciso for, com as armas do outro lado”.
O presidente também acusou a imprensa de publicar “notícias mentirosas” que influenciam negativamente a percepção do Brasil no exterior. Um desses casos foi durante uma transmissão ao vivo em 19 de novembro. Bolsonaro atacou uma reportagem publicada pelo Estado de S.Paulo sobre o risco de a Amazônia passar de um ponto sem retorno por causa do desmatamento excessivo. Participando da live junto com o pai, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) completou falando que a grande imprensa do exterior acaba replicando tudo que a imprensa brasileira publica e acaba acreditando em uma “falsa ideia da realidade”. Dados oficiais do próprio governo mostram que o desmatamento aumentou nos três anos do governo Bolsonaro: de 7.536 km² em 2018 para 13.235 em 2021.
Bolsonaro atacou ainda a Veja após o veículo publicar uma capa criticando a possibilidade do uso do voto impresso nas eleições de 2022.  “Eu acho que a Veja quer exatamente o retrocesso, que é esse voto eletrônico que tá aí, pra poder voltar a mamar nas propagandas do Governo”, atacou. O presidente chegou a dedicar uma transmissão para divulgar uma teoria conspiratória sem nenhum embasamento sobre supostas manipulações nas urnas em 2014 e 2018, em 29 de junho.
Em algumas ocasiões, contudo, Bolsonaro elogiou veículos de comunicação que fazem elogios ao seu governo. Segundo o presidente, o programa Pingo nos Is, da Jovem Pan — que exibe suas transmissões ao vivo toda quinta-feira — reporta “a verdade, diferente da Globo”. Em novembro, ele divulgou o número da Jovem Pan TV e disse que ela já “passou as suas concorrentes” — o que, em termos de audiência, não é verdade — por causa de seu “trabalho e do compromisso com a verdade”.

Incompatível com a democracia

Para o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, ainda que críticas à imprensa sejam saudáveis, ameaças e ataques que incitam o ódio não são compatíveis com o papel de um presidente da República em um regime democrático. Para ele, esses ataques servem para tentar neutralizar o trabalho de jornalistas, desacreditando eventuais denúncias feitas pelos jornais.
O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, comparou, por sua vez, o governo Bolsonaro com outros governos como o da Venezuela e  das Filipinas, onde populistas autoritários assumiram o poder. “Considerando o ano eleitoral em 2022, as violações às liberdades de imprensa e de expressão devem se tornar cada vez mais graves e frequentes. No momento, ainda não há notícia de assassinatos ou tortura perpetrados por agentes do governo, como vem se passando na Nicarágua, por exemplo, mas já acompanhamos casos de agressão física, incêndio criminoso, ameaças, abuso de autoridade, perseguição judicial, entre outras violações. Em 20 anos de profissão, é a primeira vez que sinto medo”, afirmou Träsel.
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