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Estudo realizado em Itajaí (SC) não prova que ivermectina reduziu número de mortes por Covid-19
07.01.2022 - 19h15
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais o vídeo de um comentarista afirmando em um programa de TV que o Sistema Único de Saúde (SUS) divulgou um estudo “comprovando” que o uso preventivo da ivermectina reduziu em 46% o número de mortes por Covid-19 em Itajaí (SC). Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:
“Nesse final de semana, [em um] congresso realizado em Brasília, congresso mundial de medicina realizado em Brasília, o SUS, quem diria, apresentou um estudo mostrando que a ivermectina reduziu em quase 46% o número de mortes por Covid-19. […] Envolveu uma cidade inteira, mais precisamente a cidade de Itajaí, em Santa Catarina. […] Esse estudo catalogou 220 mil pessoas que, nos dados estatísticos, aqueles que tomaram ivermectina tiveram uma redução de 46% no índice de mortes.”
Declaração em vídeo que, até 18h30 do dia 7 de janeiro de 2022, havia sido visualizado por 666 mil usuários no Facebook
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. Especialistas demonstram que há sérias vulnerabilidades na metodologia adotada pelos autores da pesquisa, como a incapacidade de comprovar se os indivíduos analisados realmente fizeram uso da ivermectina na dose e no intervalo propostos. Apesar disso, o artigo foi publicado na revista Cureus no dia 15 de janeiro. Além disso, o artigo não foi apresentado pelo SUS, e sim por um grupo de médicos ligados ao movimento Médicos Pela Vida.
O vídeo que circula nas redes sociais é parte da edição de 13 de dezembro de 2021 do programa Atualidades Pampa, veiculado pela TV Pampa (RS). Na época, o artigo sequer havia sido publicado. A fala é do comentarista Gustavo Victorino, que se refere ao 1º Congresso Mundial Médicos Pela Vida. O evento foi realizado de 10 a 12 de dezembro de 2021 em Brasília (DF) pela Associação Médicos pela Vida, grupo que se notabilizou por defender o chamado “tratamento precoce”, sem eficácia comprovada contra a Covid-19. Em fevereiro de 2021, a Lupa verificou informações falsas em informes publicitários publicados pela organização em alguns dos principais jornais impressos do país — que, segundo investigações da CPI da Pandemia no Senado, foram bancados pela Vitamedic, uma das farmacêuticas produtoras da ivermectina.
De acordo com a programação do congresso, em 11 de dezembro, a médica especialista em ultrassonografia Lucy Kerr e o endocrinologista Flávio Cadegiani apresentaram os resultados de um estudo observacional envolvendo 220 mil itajaienses que fizeram “uso profilático” da ivermectina contra a Covid-19. Esse estudo foi disponibilizado na plataforma ResearchGate, uma espécie de rede social voltada a pesquisadores e cientistas. A própria ferramenta adverte que o conteúdo da pesquisa é um pré-print, ou seja, ainda não passou pela revisão de outros pesquisadores. A revisão por pares é importante para garantir que as conclusões do estudo estão corretas, assegurando que não houve nenhum direcionamento. Posteriormente, o artigo foi publicado na revista Cureus.
Além de Kerr e Cadegiani, outras sete pessoas assinam o artigo — nenhuma delas identificada como representante do Sistema Único de Saúde. Na verdade, o texto se refere ao SUS apenas como provedor de informações dos pacientes pesquisados e responsável pela estrutura de saúde onde voluntários foram convidados a tomar a ivermectina, e não como um dos autores do estudo.
A pesquisa afirma ter utilizado dados de 220.517 pessoas que passaram por unidades públicas de saúde de Itajaí entre julho e dezembro de 2020. Uma parte daquelas que contraíram a Covid-19 foi dividida em dois grupos de 3.034 pacientes: um com indivíduos que receberam comprimidos de ivermectina e outro que não teve a prescrição ou recusou o medicamento. Os autores do estudo dizem ter chegado às duas amostras fazendo um tratamento estatístico de idade, gênero e fatores de risco à Covid-19. Além da diminuição de infecções e hospitalizações entre aqueles que usaram a ivermectina de forma preventiva, o artigo aponta uma queda de 48% no número de mortes por Covid-19 nesse público.
No entanto, na avaliação de especialistas, além de ter sido publicado em formato pré-print, a pesquisa apresenta fragilidades importantes em sua metodologia. “A primeira coisa é não ser um ensaio clínico randomizado. As pessoas tinham a opção de tomar ou não a ivermectina. Isso já compromete a robustez de um estudo que vai comparar o benefício de um medicamento”, avalia a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e divulgadora científica pela Rede Análise Covid-19. Nos estudos observacionais, não há qualquer intervenção dos investigadores entre os pacientes. Já nos ensaios clínicos randomizados, os pacientes são divididos em dois grupos de forma aleatória: um deles recebe o tratamento a ser testado e o outro recebe placebo. Esse tipo de estudo é considerado mais eficiente para avaliar a eficácia de uma medicação.
Além disso, a médica intensivista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e doutora em pneumologia Ana Carolina Peçanha observa outra vulnerabilidade no artigo já na origem dos dados analisados. “Eles revisaram os prontuários médicos de cada um desses milhares de pacientes? Isso não fica claro. O estudo falha com transparência de onde exatamente os dados foram retirados”, analisa, questionando ainda como os pesquisadores teriam tido acesso a todas essas informações.
Peçanha também observa que a retirada da ivermectina nos serviços de saúde não garante que os pacientes tenham utilizado a medicação da forma como foram orientados. “Como eles sabem que o paciente não usou a ivermectina para tratar piolho, uma verminose?” No próprio artigo, os pesquisadores reconhecem essa vulnerabilidade. “Devido ao grande número de participantes, esse programa não foi capaz de supervisionar se os usuários de ivermectina estavam utilizando a ivermectina regularmente, na dose correta e no intervalo proposto”, afirma o texto.
Outro fator de desconfiança elencado por Peçanha são os dados da prefeitura de Itajaí que apontam para a descontinuidade do suposto tratamento preventivo com a ivermectina. Uma nota publicada em janeiro de 2021 afirma que a primeira dose do medicamento foi retirada por 138,2 mil moradores, número semelhante aos 133 mil “usuários regulares de ivermectina” informados no artigo. No entanto, ainda de acordo com o órgão municipal, uma quantidade menor de pessoas voltou para retirar a segunda e terceira doses do fármaco, 93,9 mil, número que caiu para apenas 8,3 mil na quarta e quinta doses.
Mesmo sendo um estudo observacional, a médica intensivista acredita que uma pesquisa de grande abrangência, envolvendo 220 mil indivíduos, poderia trazer grandes contribuições científicas, o que não ocorre no caso diante das informações imprecisas. “Esse tipo de fragilidade na aquisição de dados e mais esse tipo de tratamento estatístico que eles dão acabam tornando a análise muito tendenciosa e enviesada”, conclui Peçanha.

Conflitos de interesse

Apesar de declararem não terem conflitos de interesse relacionados à ivermectina, Lucy Kerr e Flavio Cadegiani informam no artigo que receberam recursos da Vitamedic, uma das farmacêuticas que produzem a substância no país.
A Lupa entrou em contato por e-mail com Flávio Cadegiani, autor para correspondência indicado no artigo, e com o programa Pampa Atualidade, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.
Atualização às 15h15 de 8 de janeiro de 2022: Por meio de nota, o endocrinologista Flávio Cadegiani afirmou que o estudo, de fato, tem “várias fragilidades”, e que até o momento não tem a confirmação se o uso da ivermectina no contexto de Itajaí “foi regular ou não”. No entanto, o médico reforçou que o programa municipal foi realizado em um período anterior à aplicação das vacinas e que hoje, graças à imunização contra a Covid-19, “aparentemente” os achados da pesquisa não são mais necessários.
Atualização às 11h15 de 18 de janeiro de 2022: Texto atualizado para incluir a informação que o artigo foi aceito por uma revista científica em 15 de janeiro.
Essa informação também foi analisada pelo Estadão Verifica.
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Gabriela Soares
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