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É falso que relatório do governo britânico mostrou que pessoas triplamente vacinadas estão desenvolvendo Aids
25.01.2022 - 14h08
Rio de Janeiro - RJ
Circula pelas redes sociais que pessoas que receberam três doses da vacina contra a Covid-19 estariam supostamente desenvolvendo a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) em “ritmo alarmante”. De acordo com a publicação, esse dado é do “Governo do Reino Unido”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:
“Triplamente vacinados estão desenvolvendo Síndrome da Imunodeficiência Adquirida em ritmo alarmante segundo dados do Governo do Reino Unido”Texto em post compartilhado no Instagram que, até as 14h45 de 24 de janeiro de 2022, tinha 789 curtidas
Falso
A informação analisada pela Lupa é falsa. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), especificamente, é uma condição causada pela infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), não pela vacinação. Não existe nenhuma pesquisa que indique que pessoas que receberam três doses das vacinas contra a Covid-19 no Reino Unido estejam desenvolvendo essa síndrome. Tampouco há informações públicas do governo do Reino Unido que indique que o número de pessoas com Aids está aumentando nem dados que comprovem que o sistema imunológico da população vacinada foi afetado. O que os relatórios mostram é que a imunidade específica à Covid-19 gerada pela vacina diminui ao longo do tempo, o que é esperado.
Diferentemente do que sugere a publicação, a Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA, na sigla em inglês) publicou, no começo de janeiro, um comunicado informando que os dados oficiais mostraram que a dose de reforço das vacinas fornece “altos níveis de proteção contra formas graves da Covid-19, mesmo para as faixas etárias mais vulneráveis”. Não há qualquer menção sobre a queda de eficácia ou de possível dano ao sistema imunológico das pessoas vacinadas.
A publicação viral é baseada em um conteúdo do site Tribuna Nacional que, por sua vez, traduziu um texto do site britânico The Exposé — conhecido por reverberar teorias conspiratórias e cujos conteúdos já foram desmentidos em várias ocasiões. Para chegar à conclusão de que as vacinas poderiam, supostamente, causar uma “nova forma de síndrome da imunodeficiência adquirida”, induzida pela vacina da Covid-19, o autor analisa cinco dentre as dezenas de relatórios semanais da UKHSA (semanas 37, 41, 45 e 49 de 2021 e semana 1 de 2022).
A partir da análise de eficácia da vacina mostrada nesses documentos, o autor associa, de forma incorreta, essa taxa de eficácia a uma possível queda de resposta imune das pessoas imunizadas. Especialistas ouvidos pela Lupa, contudo, explicam que essa associação não tem fundamento científico. De acordo com pesquisador Paulo Roehe, professor de virologia no departamento de microbiologia e parasitologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os relatórios da agência britânica de saúde mostram que as vacinas têm eficácia diferente para as faixas etárias, mas isso não significa que seja prejudicial para o sistema imune.
“Toda a vacina tem a função de estimular o sistema imunológico. Em alguns casos podem provocar algum evento adverso — assim como qualquer medicação. Mas esses episódios são raros e o benefício é maior. Alguma ‘perturbação’ no sistema imune pode existir, mas isso não é regra. Dizer que a terceira dose está dizimando o sistema imunológico das pessoas é estupidez”, observa o professor.
Além disso, o texto argumenta que a eficácia da vacina diminuiu. O relatório de vigilância de vacinas contra Covid-19 mais recente da agência de saúde britânica (página 9), no entanto, publicado em 20 de janeiro (referente à semana 3 de 2022), mostra o contrário: três doses do imunizante conferem mais proteção. Em nota enviada à Lupa, a assessoria de comunicação da UKHSA informou que a proteção contra hospitalização para quem recebeu três doses é de 92%, diminuindo para 83% após 10 semanas.
Segundo o professor Aguinaldo R. Pinto, chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), depois de alguns meses, a eficácia do imunizante contra a Covid-19 realmente diminui, mas isso é específico nesses casos. “A resposta imune contra o SARS-CoV-2 vai diminuindo com o passar do tempo porque isso é uma característica dessas vacinas. Isso tem a ver com o tipo do vírus. Portanto a resposta imune contra o novo coronavirus, de maneira geral, é de curta duração. Por isso são necessárias doses de reforço. Mas não é porque diminui a eficácia vacinal que dá para fazer associação com uma síndrome de imunodeficiência adquirida”, pontuou.

As síndromes de imunodeficiência

Além da Aids, existem outras síndromes de imunodeficiência e, em geral, essas síndromes são raras. “Uma síndrome de imunodeficiência poderia ser uma doença ou um evento que causa uma deficiência no sistema imune de forma generalizada. Uma característica da Aids, por exemplo, que é a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, é a diminuição do número de linfócitos T-CD4+. Nos relatórios da agência de saúde britânica, não há nenhuma informação sobre isso, por exemplo”, explica Aguinaldo.
Ainda de acordo com o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, caso tenham “desenvolvido” uma síndrome dessas, as pessoas apresentariam muitas doenças. “Quem tem Aids e não tratou, por exemplo, pode morrer de gripe ou de doenças menos importantes porque elas têm uma deficiência imune muito grande. E, até onde se sabe, isso não tem sido observado nas pessoas vacinadas”, concluiu.
Em outubro do ano passado, o site Exposé publicou teorias similares, falsamente associando a eficácia das vacinas contra o SARS-CoV-2 e a Aids. No Brasil, peças de desinformação sobre o assunto — inclusive de que a própria vacina continha DNA do HIV — também circularam e foram desmentidas pela Lupa.
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Gabriela Soares
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