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Empresários usam notícias, propaganda e perfis falsos para vender suplementos nas redes
04.07.2023 - 15h42
Rio de Janeiro - RJ
Promessas enganosas de cura de doenças, divulgação de reportagens falsas e criação de perfis fake nas redes. Essas são algumas das instruções dadas por influenciadores de marketing digital e donos de empresas de suplementos alimentares para enganar consumidores e promover a venda de seus produtos — inclusive com a utilização indevida da marca da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por meio de roteiros de comercialização ensinados pelo YouTube e divulgados em canais no Telegram, uma rede de revendedores replica o passo-a-passo fraudulento atrás da promessa de dinheiro com vendas online.
A Lupa localizou oito empresas promovendo as técnicas de venda baseadas em informações enganosas: Caps Digital e Caps Investimentos, que pertencem a Matheus Lopes; Money Ads Marketing Digital e Branding Caps, de Daniel Penin; Capsul Brasil, de propriedade de Pedro Miranda; Biolax Produtos Naturais, criada por Fernando Vasconcelos; MFP Produtos Naturais e MFP Marketing Digital, das quais Penin, Miranda e Vasconcelos são sócios.
Ao menos sete grupos de Telegram são usados para compartilhar materiais publicitários e dar suporte às vendas. Até esta terça-feira (4), juntos, os chats reuniam 69 mil membros. Neles, pelo menos 22 suplementos eram promovidos pelas empresas — entre eles, produtos supostamente recomendados para o tratamento de diabetes, gastrite, incontinência urinária, catarata, glaucoma e dores crônicas.
A venda de suplementos alimentares é legal, mas esses produtos não podem ser ofertados como medicamentos ou prometer qualquer finalidade terapêutica. “Somente medicamentos podem alegar ação terapêutica e, para isso, é necessário comprovar os resultados de eficácia e segurança por meio de estudos clínicos e outros requisitos técnicos”, reforça a Anvisa

Estratégia é divulgada em treinamentos no YouTube

Apesar de trabalharem separados, divulgando produtos diferentes, os métodos de venda ensinados pelos influenciadores, e a maneira como esses conteúdos chegam aos potenciais vendedores — em aulas online, vídeos e chats de conversa —, é bastante semelhante. 
Nas redes sociais, eles prometem ensinar como ganhar dinheiro com vendas online e promovem cursos ensinando tais técnicas. Nessas aulas, mostram como se cadastrar em plataformas digitais e ganhar dinheiro com a venda de suplementos naturais. Contudo, entre os métodos citados nesses treinamentos, estão o uso de reportagens falsas e de depoimentos de clientes forjados, além de formas para burlar possíveis bloqueios do Google ou das plataformas da Meta.
Em uma live transmitida em novembro de 2022 no canal da Capsul no YouTube, Miranda e um dos funcionários da empresa ensinam a usar perfis fakes — ou comprados e alugados —, para promover anúncios pagos de produtos da empresa no Facebook. Em um dos exemplos dado em aula, eles mostraram ter gerado R$ 36,6 mil em vendas. A postagem impulsionada falava sobre um “tratamento que reduz e regula nível de glicose no sangue” supostamente aprovado pela Anvisa.
“A gente não está simplesmente oferecendo um produto, a gente tá falando sobre um caso, storytelling que tá sendo contado aqui. Isso impacta a pessoa, gera uma curiosidade”, exalta o funcionário. Ele, no entanto, omitiu a informação de que o produto anunciado não tem qualquer eficácia comprovada contra o diabetes, nem tem registro de medicamento na Anvisa.
Criação de perfis falsos para divulgação de produtos nas redes é incentivada em vídeo
Em outra live, com o título “Ganhando dinheiro sem gastar com anúncios”, dessa vez publicada no canal do dono da Caps Digital, o empresário mostra como criar perfis falsos para disseminar anúncios de seus suplementos em grupos no Facebook. Dessa forma, explicou ele, o afiliado não precisaria investir em propaganda paga no Facebook.
No exemplo da aula, Lopes, por meio de um perfil fake, fez postagens em diversos grupos divulgando um “remédio natural” emagrecedor para ir “do 42 pro 38 em pouco tempo”. Nos posts, fotos de uma mulher não identificada foram usadas para provar os supostos resultados do produto. O empresário sugere que cada perfil fake seja utilizado para divulgar o produto em 80 grupos.
Matheus Lopes sugere que cada perfil falso divulgue produto em 80 grupos no Facebook
Uma vez que são atraídos pelas promessas tentadoras, os potenciais compradores são levados para uma espécie de página de pré-venda, mas com uma “característica peculiar”, explica Miranda: “Parecer uma notícia”. Em uma de suas lives, ele mostra uma reportagem falsa, que utiliza logomarca e layout do portal G1, sobre um suplemento “capaz de bloquear o avanço da diabetes”.
Penin, da Money Ads e Branding Cap, chegou a compartilhar um documento com o passo a passo para criar uma estrutura advertorial “campeã” — como descreve o próprio texto. O documento inclui uma lista de sugestões de “sites renomados” para simular nessas páginas de pré-venda, que inclui portais como G1, UOL, Terra e Veja, além de páginas de programas como Globo Repórter e Fantástico, da TV Globo. O documento foi localizado em uma das pastas compartilhadas no grupo de Telegram de Penin para afiliados.  
Essas páginas que “parecem notícias” — chamadas de “advertoriais” pelos influencers —, seguem a mesma lógica de desinformação, com o uso de logomarcas de portais reconhecidos de notícia, falsas promessas de cura ou tratamento e depoimentos forjados de médicos
Página advertorial mostrada em transmissão da Capsul que simula reportagem do portal G1

Grupos de suporte no Telegram potencializam a ação


A ação dos influencers continua no Telegram, onde são compartilhados diversos materiais de apoio aos revendedores — entre eles, tutoriais, modelos prontos de sites falsos de notícia, roteiros de conversas de WhatsApp para vendas e artes para publicidade. A Lupa localizou 22 pastas hospedadas no Google Drive, cada uma delas focada em um suplemento diferente. A ideia é que os revendedores utilizem esses materiais pelas redes como forma de propaganda dos suplementos, o que acaba contribuindo com a disseminação da propaganda enganosa. 
Vasconcelos, da Biolax, chegou a disponibilizar um tutorial no Drive e YouTube, ensinando como usar os modelos prontos na criação da página de vendas e advertoriais — na aula, é mostrada uma falsa reportagem do G1.
Tutorial para implementação dos modelos de páginas de vendas disponibilizados por Fernando Vasconcelos
Além do uso de logomarcas de portais de notícia, alguns dos materiais de divulgação dos produtos usavam vídeos descontextualizados de personalidades como o médico Drauzio Varella e a apresentadora Ana Maria Braga.
Prints de peças desinformativas localizados em pastas de Google Drive e em grupos de Telegram ligados a Caps Digital, Caps Investimentos, Money Ads Marketing Digital, Branding Caps, Capsul Brasil e Biolax
Esses materiais reforçam como esses suplementos são vendidos como medicamentos, sob a promessa de tratar ou curar doenças. Um script de venda via WhatsApp de um suplemento da Biolax Produtos Naturais, ligada a Vasconcelos, por exemplo, promete resultados contra sintomas do diabetes, como formigamento e dificuldade de cicatrização, já na primeira semana. “Muitos pacientes que usam nossas gotinhas reduziram o uso da insulina ou até tiraram da rotina, por recomendação médica. Imagina sua vida sem picadas? Sem depender de remédios? E podendo comer o que quiser?”, diz o texto.
A recomendação é perigosa e pode ser prejudicial à saúde do diabético. Além de a substância promovida não ter comprovação sobre eficácia e segurança, nenhum medicamento isolado é capaz de controlar o diabetes. O tratamento varia caso a caso e pode envolver mudanças em hábitos de saúde, injeções de insulina, medicamentos que estimulem a produção de insulina no pâncreas ou diminuam a retenção de carboidratos, entre outros.
“A recomendação sobre mudanças no estilo de vida é global, ela vai ajudar a prevenir e controlar o diabetes. Mas o remédio ideal para cada pessoa varia de acordo com as características individuais de cada paciente”, explicou a médica endocrinologista Dhiãnah Santini, coordenadora do Departamento de Educação e Campanhas da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), em entrevista recente à Lupa
Os grupos no Telegram também são espaços para as empresas resolverem dúvidas cotidianas, emitirem avisos e darem suporte aos revendedores. A Caps Digital chega a fazer chamadas de vídeo diárias, em que interagem e compartilham dicas.
Prints de conversas em grupos de Telegram ligados a Caps Digital, Caps Investimentos, Money Ads Marketing Digital, Branding Caps, Capsul Brasil e Biolax

Produtos não têm ‘aprovação’ da Anvisa

Não cabe à Anvisa “aprovar” suplementos alimentares, já que não são considerados medicamentos. “Suplementos alimentares não são passíveis de registro pela Anvisa, ou seja, não são registrados ou avaliados pela Anvisa. Sua regularização deve ser feita por meio de Comunicado de Início de Fabricação ao órgão local de Vigilância Sanitária”, explica o órgão
No entanto, isso não impede que vários dos suplementos sejam oferecidos como se realmente tivessem sido testados e aprovados pela agência. No caso de medicamentos, o órgão sequer é responsável por “testar” as substâncias — as farmacêuticas são responsáveis por apresentar dados que comprovem sua segurança e eficácia, cabendo à Anvisa apenas a análise desses estudos para aprovar seu registro no país.  
Selo da Anvisa é utilizado indevidamente em materiais publicitários
Entre os materiais de divulgação dos produtos, algumas empresas até disponibilizam documentos emitidos pela Anvisa para comprovar a suposta aprovação do órgão. Contudo, trata-se apenas de um registro obrigatório de que determinada empresa fabrica um produto dispensado de registro, como é o caso de suplementos. Não há qualquer relação com testes de segurança ou eficácia realizados pela Anvisa.

Influenciadores ensinam a burlar regras da Meta

As técnicas fraudulentas de venda dos suplementos envolvem também cuidados para configurar os perfis nas redes onde serão feitos os anúncios, de forma a evitar possíveis bloqueios por comportamento inautêntico. “Sempre vai ter bloqueio [na Meta], se não, não contrataria meu sobrinho por R$ 300 para ficar criando vários perfis”, revelou Vasconcelos em uma live publicada em abril de 2022, com mais de 24 mil visualizações.
Lopes, da Caps Digital, chegou a criar uma série de vídeos com quatro aulas sobre o tema. Em uma delas, os revendedores são aconselhados a criar uma “fazendinha de perfis”. Dessa forma, quando um perfil é bloqueado, sempre haveria outro para vincular os anúncios.
“Você precisa ali de quatro a seis perfis por mês, entendeu? Então vocês vão ter perfis descartáveis. Se você tem seis perfis no mês, você consegue anunciar do dia 1 ao dia 31 sem problema nenhum quanto a bloqueio. [...] O cara que anuncia pesado, ele tem 60 perfis, 50 perfis, 100 perfis, 1 mil perfis. Aconselho cada um aqui a ter por volta de 15 a 30 perfis, pelo menos, e sempre que for tomando bloqueio em um, vai criando o próximo”, orienta um dos funcionários da empresa.
Em um vídeo publicado pela Capsul sobre o mesmo tema, um funcionário da empresa mostra o passo a passo para criar os perfis e “aquecê-los”, para não levantar suspeitas da Meta, dona do Facebook e Instagram. As técnicas incluem desde o aluguel de números de celular para efetuar os cadastrados até a geração de fotos de perfil por ferramentas de inteligência artificial.
Penin, da Money Ads e Brading Cap compartilha nos drives, divulgados no Telegram, o passo a passo para “aquecer”, camuflar perfis e até mesmo para criar diversas contas usando a mesma identidade. No material, ele chega, inclusive, a ensinar como a pessoa deve recorrer ao Facebook contra a derrubada da conta.
Prints de arquivos e dicas compartilhadas em grupo de Telegram para afiliados ligado a Daniel Penin
Segundo os Padrões da Comunidade da Meta, o usuário não pode publicar compartilhar conteúdo ilegal ou fraudulento. A plataforma também proíbe anúncios que usam práticas enganosas ou falsas. “Não permitimos atividades fraudulentas ou quaisquer atividades que violem nossos Padrões da Comunidade ou de Publicidade. Recomendamos que as pessoas denunciem perfis e anúncios que acreditem que possam violar nossas políticas”, informou a empresa, em nota.

Propaganda enganosa

O artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor define como propaganda enganosa qualquer comunicação de caráter publicitário com informações inteiramente ou parcialmente falsas. A infração é passível a pena de três meses a um ano, além de multa. Também é considerado agravante quando a ação envolve alimentos, medicamentos ou outros produtos, ou serviços essenciais. 
Nesse contexto, as comunicações que induzam o consumidor a acreditar em falsas curas ou tratamentos estão sujeitas a penalidades. Todos os envolvidos na propagação da informação enganosa — inclusive os revendedores que reproduzem e divulgam as peças desinformativas — podem ser penalizados, afirma Robson Campos, assessor executivo do Procon de São Paulo.
“A defesa do consumidor, a legislação estabelece que todos os envolvidos respondem solidariamente, não importa se é o fabricante do produto ou se é o comerciante desse produto. Então, há uma proteção [ao consumidor] nesse sentido: independente de quem propagar a informação de que o produto é eficaz, está correndo o risco de responder administrativa, civilmente e penalmente — a depender da cada caso”, avalia Campos.

O que dizem os empresários

Matheus Lopes, Daniel Penin, Pedro Miranda e Fernando Vasconcelos foram procurados pela Lupa.
Em nota, Vasconcelos negou que tais conteúdos localizados pela reportagem tenham sido disponibilizados pelas empresas Biolax Produtos Naturais, MFP Produtos Naturais e MFP Marketing Digital — das quais ele é sócio-proprietário. O empresário informou que segue as normas estabelecidas pelos órgãos de publicidade e propaganda e que desconhece conteúdos distribuídos no Telegram e em pastas do Google Drive. 
Lopes, Miranda e Penin não responderam até a publicação desta reportagem.  







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Ítalo Rômany
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