UOL - O melhor conteúdo
Lupa
É falso que abertura de comportas de barragens causou enchentes no Rio Grande do Sul
12.09.2023 - 18h06
São Paulo - SP
As enchentes que levaram à destruição de cidades e à morte de mais de 40 pessoas no Rio Grande do Sul têm sido usadas para espalhar informações falsas. Nas redes sociais, publicações afirmam que a abertura de comportas das três barragens no Complexo Energético Rio das Antas – região afetada pelas chuvas – teria acelerado a inundação. 
Um desses conteúdos foi publicado pelo jornalista Alexandre Garcia. Em vídeo, ele disse que era necessário investigar a tragédia, que não teria sido ocasionada apenas pela chuva. 
Três represas pequenas que aparentemente abriram as comportas ao mesmo tempo. Isso causou uma enxurrada”
– Trecho de fala do jornalista Alexandre Garcia no canal da Revista Oeste no YouTube
Falso
A declaração é falsa. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, não há evidências de que as barragens tenham influenciado no aumento da enxurrada. 
A Lupa também consultou pesquisadores que atuam na região. Segundo eles, as barragens no local não são capazes de controlar enchentes, uma vez que elas foram construídas para gerar energia elétrica e suas comportas não armazenam água.
“Abrir ou não as comportas desse tipo de barragem não faz diferença nenhuma porque elas não têm capacidade de regular a vazão do rio”, explica Joel Goldenfum, doutor em Hidrologia e diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 
Em condições normais de operação, as barragens de energia elétrica procuram trabalhar com o reservatório cheio, ou seja, com volume considerável de água para maximizar a geração de energia. Em uma situação em que há uma grande quantidade de chuva, em um curto período de tempo, como ocorreu no Rio Grande do Sul, ocorrem extravasamentos dos reservatórios, o que pode levar ao acionamento de comportas.
“Nessas barragens, alguns vertedouros (estruturas que asseguram a integridade da obra) têm comportas que, em caso de enchentes excepcionais, são acionadas para liberar o volume de água que chegam nos reservatórios para evitar o rompimento da estrutura”, explica Jaime Gomes, engenheiro civil e professor da Escola Politécnica da PUCRS.
Em outras palavras, o que causou as enchentes no Rio Grande não foi a abertura das comportas das barragens, mas o imenso volume de chuva. 
“Essas usinas não poderiam ajudar no controle das cheias porque o volume de reservação delas não é suficiente para isso, é muito pequeno”, completa Goldenfum.
O Complexo Energético Rio das Antas é composto por três hidrelétricas: Castro Alves, Monte Claro e 14 de Julho. Elas foram construídas durante a primeira e segunda gestões de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A concessão, contudo, foi feita em 2001, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Segundo Gomes, as usinas operam a fio d'água, ou seja, toda a vazão que entra, sai. Isso foi feito observando as características da bacia e do local. “Ali tem um rio com muita água, então as barragens foram construídas levando isso em conta. O objetivo delas é gerar energia e não acumular água”, destaca. 
Barragem do Complexo do Rio das Antas controlada pela Ceran
Abertura das comportas 
Segundo a Companhia Energética Rio das Antas (Ceran), empresa que administra o complexo, duas das três barragens citadas têm comportas – Monte Claro e 14 de Julho –, mas sem capacidade de regulagem de água. 
No dia 4 de setembro, o Rio das Antas atingiu a vazão mais alta registrada desde a construção das usinas. Segundo a Ceran, foi mais de 20 vezes a quantidade de água prevista para estrutura da barragem. Com isso, as comportas foram abertas “para garantir a segurança da estrutura”. 
Segundo Jaime Gomes, em um estado de operação normal, barragens construídas para geração de energia elétrica não liberam água por meio de comportas. “Como são estruturas de vertedores de soleira livre, elas não conseguem armazenar água. A água vai passando naturalmente, o que entrou tem que sair”, afirma.
Mas, em casos excepcionais, abrir as comportas é o procedimento correto a se fazer.
“Uma barragem de energia elétrica está sempre cheia, pois precisa gerar energia. Como ela está cheia, se você tem uma vazão muito alta do rio, a água pode passar por cima da barragem e provocar o rompimento da estrutura, que é o que a gente chama de galgamento. Nesse caso, você abre a comporta como medida de segurança”, explicou Joel Goldenfum, frisando que a decisão não impacta nas enchentes. 
“O volume do reservatório dessas barragens é muito pequeno. Até porque, quando você constrói uma barragem para gerar energia, o objetivo não é armazenar água, mas levantar o nível da água. Quanto maior a queda, maior a energia”, conclui. 

SAIBA MAIS

Evento extraordinário
Os dois professores afirmam que as enchentes no Rio Grande do Sul fazem parte de um evento excepcional, de extrapolação de chuva. A chance de acontecer é muito remota, segundo Goldenfum “uma vez para mais de 100 anos”.
“Em 2015, fizemos um estudo e essas três barragens foram avaliadas. A gente examinou o volume de um evento, menor do que esse que aconteceu, e o volume do reservatório da barragem. E a chance era de uma vez para 100 anos”, explicou. 
Gomes acrescenta que não havia nada que poderia ter sido feito nas barragens para minimizar as inundações. E reforça que a abertura de comportas não influenciou no volume de água que atingiu as casas. 
“O volume da cheia é imensamente superior ao que está acumulado nas barragens. As estruturas não tinham como segurar água. A abertura das comportas assegurou a estabilidade das barragens que estavam sob pressão do imenso volume de chuva causado pelo evento meteorológico atípico na região”, ressaltou.
A Lupa procurou o jornalista Alexandre Garcia. Este texto será atualizado em caso de resposta. Em seu canal do YouTube, o jornalista disse que se baseou em notícias divulgadas por veículos e que, até aquele momento, não havia nota oficial da empresa que gerencia as três barragens.
“Me fizeram uma pergunta, eu estou em um programa ao vivo e respondi em 3 minutos e 52 segundos [...] Se eu tivesse a nota oficial naquela hora, eu leria a nota da empresa”, declarou.
Clique aqui para ver como a Lupa faz suas checagens e acessar a política de transparência
A Lupa faz parte do
The trust project
International Fact-Checking Network
A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos.
A Lupa está infringindo esse código? FALE COM A IFCN
Tipo de Conteúdo: Verificação
Conteúdo de verificação de informações compartilhadas nas redes sociais para mostrar o que é falso.
Copyright Lupa. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

Leia também


12.04.2024 - 17h28
Eleições
Musk não entregou aos EUA provas de interferência de Moraes nas eleições

Publicação nas redes sociais alega que Elon Musk entregou às autoridades dos Estados Unidos documentos evidenciando a interferência do ministro Alexandre de Moraes, do STF, nas eleições de 2022. É falso. Não há nenhum registro sobre o fato. Além disso, um especialista em Direito Constitucional afirma que tal ação não teria efeito prático no Brasil.

Maiquel Rosauro
12.04.2024 - 17h02
Política
É falso que Elon Musk conseguiu o impeachment de Alexandre de Moraes

Circula nas redes um vídeo do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), que estaria comemorando o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, após o empresário Elon Musk pedir o afastamento do magistrado. É falso. O vídeo mostra Gayer comemorando a aprovação da PEC que limita decisões monocráticas no STF.

Catiane Pereira
12.04.2024 - 16h16
STF
É de 2016 vídeo sobre ação da PF que cita Alexandre de Moraes; caso foi arquivado

Circula nas redes um vídeo que mostra que o nome do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes apareceu em documentos apreendidos pela PF de uma empresa investigada em esquema de fraude. Falta contexto. O vídeo é antigo, de 2016. Pagamentos à firma de Moraes foram para honorários advocatícios. O caso foi arquivado.

Ítalo Rômany
12.04.2024 - 15h13
Política
É falso que Moraes tenha ‘censurado’ o jornalista Augusto Nunes

Circula nas redes sociais um vídeo em que um homem alega que o jornalista Augusto Nunes teria sido censurado pelo Supremo Tribunal Federal em um processo liderado pelo ministro Alexandre de Moraes. É falso. A Suprema Corte negou que exista uma decisão desse gênero em vigor.


Evelyn Fagundes
12.04.2024 - 14h21
Política
É antigo vídeo no qual Cármen Lúcia fala sobre liberdade de expressão

Um vídeo no qual a vice-presidente do TSE, Cármen Lúcia, fala sobre ‘censura’ em uma sessão da corte circula com uma legenda que insinua que ela estaria se posicionando contra o ministro Alexandre de Moraes em sua disputa com o empresário Elon Musk. É falso. O vídeo é de 2022. A sessão do TSE tratou sobre desmonetização de canais no YouTube.

Catiane Pereira
Lupa © 2024 Todos os direitos reservados
Feito por
Dex01
Meza Digital