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Guerra amedronta muçulmanos e judeus no Brasil com onda de ódio e fakes
13.11.2023 - 12h50
Rio de Janeiro - RJ
Ofensas na rua e nas redes sociais, medo de sair de casa e o temor de usar símbolos que identifiquem suas crenças. Há um mês, muçulmanos e judeus que vivem no Brasil sentem os efeitos do conflito que se desenrola entre Palestina e Israel. Eles precisam lidar com uma nova onda de preconceitos agravada pela incompreensão e desinformação, que leva muitas pessoas a estabelecerem uma equivocada associação entre a religião e as partes que se enfrentam.
A islamofobia e o antissemitismo não são fenômenos novos. Enquanto o ódio aos judeus levou, no século 20, ao genocídio dessa população durante o holocausto nazista, muçulmanos viraram alvo de estigma especialmente depois dos atentados realizados por fundamentalistas islâmicos nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001.
Entretanto, as comunidades muçulmana e judaica no Brasil têm acompanhado o atual conflito com preocupação, já que os relatos de ataques aumentaram nas últimas semanas.
“A comunidade está muito apreensiva. É um aumento assustador das ofensas antissemitas”, relata Daniel Bialski, vice-presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib). A entidade, junto à Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), mantém um canal de denúncias de antissemitismo. Em outubro, o número de casos reportados disparou 961% em relação ao mesmo mês do ano passado. Foram 467 denúncias registradas, contra 44 feitas em outubro de 2022.
Já a Associação Nacional de Juristas Islâmicos, que recebe relatos de islamofobia, estima que o número de denúncias cresceu quase 900% no último mês.
Para a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, professora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes, é esperado que os acontecimentos recentes também reverberem na forma de ataques à comunidade muçulmana daqui — é o que ela chama de “evento gatilho”. “Isso acaba trazendo esse disparador [de islamofobia]. Infelizmente, as pessoas não conseguem diferenciar a religião do episódio, colocam tudo dentro de um mesmo caldeirão”, explica.

Véu da desinformação

Clientes abordaram Lisete Karima com desinformações sobre a guerra
A enfermeira Lisete Karima tem vivido no trabalho o aumento da islamofobia nas últimas semanas. Ela, que atualmente trabalha como caixa de um supermercado de Porto Alegre (RS), virou alvo de comentários odiosos de clientes. Entre os episódios recentes, uma mulher a acusou de assassinar bebês — em referência a uma história viral, jamais confirmada, de que o Hamas teria decapitado 40 bebês.
Outra cliente, conta Lisete, citou o vídeo que supostamente mostraria crianças enjauladas pelo Hamas, já desmentido pela Lupa.
Ver muçulmanos sendo associados a terroristas não é uma novidade para Lisete, que segue o islamismo há cinco anos. Para ela, esse estigma foi reforçado no imaginário social ao longo de muito tempo, estimulado especialmente pela mídia e por desinformações sobre a religião. Ainda assim, mesmo habituada com o preconceito, Lisete diz que tem notado mais olhares direcionados a ela e que tem se cuidado mais ao andar na rua.
Assim que assumiu o atual emprego, Lisete comunicou sua chefia de que, caso fosse alvo de intolerância, chamaria a polícia. “Enquanto cidadã, é meu dever. Intolerância é crime nesse país”, argumenta, mesmo reconhecendo que poderia ser prejudicada no trabalho caso levasse a ideia adiante.
No episódio mais recente de islamofobia, há duas semanas, Lisete precisou advertir um cliente de que chamaria a polícia para fazer com que ele parasse as ofensas. “Ele já chegou alterado, agressivo, eu falei que não ia tolerar agressividade. Ele mandou eu voltar para o ‘meu país’, disse que eu estava usando ‘isso’. ‘Isso’ a que ele se refere é o meu hijab.”
O hijab, lenço comumente utilizado por mulheres muçulmanas, é um dos principais fatores de exposição delas a ataques. Os desafios enfrentados por aquelas que escolhem utilizar o véu no dia a dia incluem dificuldades no mercado de trabalho, rejeição familiar e até agressões físicas. “A gente tem relatos de lenço puxado, de cusparada, de pedrada”, exemplifica a professora Francirosy Campos Barbosa.
No ano passado, um grupo coordenado por Francirosy publicou o I Relatório de Islamofobia no Brasil. A grande maioria das mulheres respondentes da pesquisa afirmou já ter enfrentado constrangimentos relacionados à religião, especialmente na rua. “Assim como no ambiente virtual, as pessoas se sentem protegidas para fazer o que bem entenderem na rua. Isso revela que essas pessoas estão muito seguras daquilo que estão fazendo”, avalia a pesquisadora.
O relatório também compila histórias de mulheres que desistiram de usar o hijab por conta do preconceito e até mesmo por terem desenvolvido transtornos psicológicos causados pelos constantes constrangimentos.

Direito à identidade

Mesmo em meio à tensão, Suzane Halfoun faz questão de exibir símbolos judaicos
Há algumas semanas, depois do início da guerra, a jornalista Suzane Halfoun ouviu um ataque antissemita durante uma reunião em uma empresa em que atua como freelancer no Rio de Janeiro. Durante a negociação de um projeto, um cliente chamou de “judeus porcos” as pessoas que seriam escaladas para o trabalho. Além de Suzane, outros três funcionários seguem o judaísmo. “Para nós, isso foi muito violento. Mas é dinheiro, ninguém está podendo perder trabalho, então nós não respondemos nada. Ele aceitou, então são os 'judeus porcos' que estão fazendo o trabalho”, ironiza.
Em outro episódio recente, Suzane precisou lidar com uma cliente de uma plataforma de aluguel de acomodações na qual anuncia. Entre os xingamentos utilizados pela cliente durante uma discussão, estavam termos como “porca”, “rata” e “desonesta”. “Para mim, foi um ataque antissemita. Ela não usou a palavra ‘judia’, mas é assim que as pessoas falam de um judeu”, defende ela, uma vez que são estereótipos comumente associados à comunidade judaica.
Descendente de sobreviventes do holocausto, a jornalista lembra de ter sido alvo do preconceito desde criança. Mas diz que aprendeu com o avô que ser chamada de “judia” não é um xingamento, e sim um fato para se orgulhar. “A cor dos olhos, a cor da sua pele, o tipo de cabelo, o seu nome, o seu sobrenome, a gente não tem como arrancar isso. A gente não vai negar toda uma ancestralidade que nos trouxe à vida e nos trouxe até aqui. Isso é pedir para ser um número. É como o holocausto fez, tirou nossa identidade. Ninguém tem esse direito”, reflete.
Diante dos acontecimentos das últimas semanas, Suzane relata que entidades recomendaram evitar o uso de qualquer símbolo judaico para minimizar ataques. “Nós respondemos que não vamos retirar. Continuaremos com a nossa identidade judaica e não vamos abaixar a cabeça mais.” 

Ataques na rua e reclusão

Rita Machado: ‘Se tenho que tirar o hijab para ter liberdade, então nós falhamos’
“Não sei como essas pessoas ainda têm coragem de sair na rua.” Foi o que ouviu a confeiteira Rita Machado, moradora de São Leopoldo (RS), de dois homens desconhecidos. Esse não foi um caso isolado: nas últimas semanas, ela foi alvo de outros três ataques.
Em um deles, no mercado, uma mulher, também desconhecida, se certificou de que Rita olhava para ela antes de cuspir no chão, em uma demonstração de desprezo. “Essas coisas são terríveis, porque a gente pensa: o que é que eu estou fazendo de errado? É assustador ver o ódio no olho do outro sem nenhuma razão”, afirma.
Revertida ao islamismo há cerca de um ano, Rita conta que já havia sentido olhares de curiosidade ao frequentar espaços públicos, mas que até então não tinha presenciado nada ofensivo. “Agora é ódio, desejo de que a gente seja exterminada, vá embora, não esteja mais no país”, descreve.
Nos episódios recentes, Rita diz que pensou em chamar a polícia, mas acabou desistindo por medo de que a denúncia não surtisse efeito e, no processo, acabasse sendo revitimizada. O choque com as agressões de pessoas completamente desconhecidas também a imobilizou. “A gente não sabe muito bem o que fazer, não sabe se exerce o direito de dizer ‘isso é crime’ ou fica quieta. É uma situação que te deixa tão acuada”, relembra.
As quatro situações guardam um detalhe em comum: em todas elas, a confeiteira usava o hijab. Ainda que o adereço deixe-a mais suscetível a ataques, Rita diz que não vai abrir mão de usá-lo. “Você pode não usar. Mas nós queremos usar, porque a gente compreende que essa é a maneira que nós adoramos a Deus. Para nós, é algo que faz parte da gente. Isso aqui não é um pano, uma vestimenta de moda, é a representação da minha fé. E se eu tenho que tirar isso para ter liberdade na rua, então nós falhamos como Estado laico”, argumenta.
Preocupada com sua segurança e aconselhada por familiares, Rita passou a evitar sair de casa, mas diz que o período de reclusão não pode mais continuar. “Eu não posso parar minha vida. A gente se acuou, mas agora precisa seguir nossa vida normal. Vou ter que puxar uma coragem daqui de dentro e, se acontecer alguma situação desagradável, chamar a polícia, denunciar, porque isso precisa parar.”

Medo e esperança

Mesmo com ataques, Priscila Franco faz questão de falar sobre judaísmo nas redes
“O antissemitismo não é uma pauta nova, o antissemitismo é uma questão estrutural no Brasil”, pontua a musicista Priscila Franco, de São Paulo, que mantém uma página no Instagram para falar sobre o judaísmo. Ela conta que, com a guerra, os ataques se acentuaram, mas que o sentimento de insegurança não é novidade para ela, nem para a comunidade. “A gente recebe ameaças a rodo, desde sempre. Ameaça de carta-bomba, de invasão, pichação em sinagogas”, diz.
Diante do novo conflito, contudo, a atenção nas sinagogas e outros espaços frequentados pela comunidade judaica precisou ser redobrada. “Agora, quando vai levar os filhos em sinagogas com estacionamento, a gente não pode mais deixá-los no portão. Tem que entrar com o carro para evitar o máximo possível de se expor, de colocar o rosto para fora”, observa.
Priscila ouviu de amigos relatos sobre a escalada do medo entre as pessoas que estavam em sinagogas no dia 7 de outubro, data do ataque surpresa do Hamas que desencadeou a guerra. Logo quando surgiram as primeiras notícias sobre os bombardeios, pessoas começaram a passar em frente a esses prédios agitando bandeiras da Palestina e gritando para as pessoas que estavam no local. Muitas delas precisaram tirar trajes religiosos para conseguir deixar os espaços em segurança, diz a musicista.
A violência também se estendeu para o ambiente virtual. Em uma das situações vividas desde que criou a página, ela recebeu fotos explícitas de uma mulher morta acompanhada da mensagem “você é a próxima”. Em outro caso, recebeu imagens de bebês mortos enrolados em bandeiras da Palestina.
De acordo com Daniel Bialski, da Conib, a maioria dos casos reportados nos canais da entidade nas últimas semanas vem do ambiente virtual. “As redes sociais estão inundadas de ofensas. Comparam, por exemplo, judeus com baratas, dizendo: ‘Temos que fazer com os judeus o que fazemos com baratas, matar todas’. Outras postagens dizem ‘Hitler tem que voltar’, ‘Hitler não cumpriu o serviço dele’”, exemplifica.
Exemplo de publicação antissemita denunciada. Imagem: Relatório Antissemitismo no Brasil/Conib
Bialski informou que as entidades têm trabalhado em conjunto com as autoridades para identificar e punir os autores dessas postagens e cobrou ação também das plataformas digitais. “É necessário, porque senão a gente vai abarrotar a polícia e o Ministério Público de processo por racismo.”
Vale ressaltar que praticar, induzir ou incitar a discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional é crime previsto na Lei Federal nº 7.716/1989, com pena de um a três anos de prisão e multa. Se, além disso, o agressor impedir ou empregar violência contra quaisquer manifestações ou práticas religiosas, a pena passa a ser de dois a cinco anos de prisão, de acordo com a mesma lei.
Mesmo com os ataques, Priscila diz que planeja manter o perfil ativo, já que ali encontra um espaço para falar sobre sua religião e trazer alguma luz para quem, nesse momento, busca algum conforto em meio à onda de ódio. “A gente não pode perder a esperança, não pode passar uma mensagem que não seja de paz. No judaísmo a gente tem um preceito chamado ‘tikun olam’, que significa reparar o mundo. Então é como se nós fossemos sócios de Deus na reconstrução desse mundo. Eu quero ser uma boa sócia de Deus, meu pedido é que todos sejamos sócios nesse momento.”

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