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'Brasil contra fake' não linka fonte ou cita só o governo em 52% das 'checagens'
"Brasil contra fake" publicou 168 notas de esclarecimento desde março
Lançado em 24 de março para responder "às principais fake news" que rondam o governo federal, o programa "Brasil contra fake" publicou 168 conteúdos em sete meses (até 31 de outubro). Levantamento feito pela Lupa em parceria com a Lagom Data mostra que, apesar de o portal gerenciado pela Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República simular uma iniciativa de checagem de fatos, 52% de suas notas de esclarecimento não seguem princípios básicos dessa prática: não têm fontes linkadas, ou seja, não são transparentes quanto à origem da informação usada para desmentir um boato, ou se baseiam apenas em sites do próprio governo ao tirar conclusões sobre a veracidade de um assunto. 
Quando o programa foi lançado, o ministro-chefe da Secom, Paulo Pimenta, anunciou a iniciativa exultante, como uma espécie de ferramenta de checagem para a população. Na época, afirmou que o brasileiro finalmente poderia "checar os posts que recebe pelas redes sociais antes de repassar a informação", tomando por base o conteúdo produzido pelo "Brasil contra fake".
Mas uma análise detalhada dos sete meses do programa indica que a iniciativa federal não faz checagem de fatos de forma profissional, a exemplo de organizações como Lupa, Aos Fatos, Estadão Verifica e UOL Confere, signatários brasileiros do Código de Ética e Princípios da International Fact-checking Network (IFCN), a rede mundial de checadores de fatos. O espaço obedece à lógica usada para gestão de imagem e publicidade institucional.
Em 64 das 168 das notas disponíveis no site da iniciativa até 31 de outubro – 38% ou cerca de quatro em cada dez – só havia links do próprio governo justificando as conclusões ali obtidas. Em outras 24 notas (14%), não havia qualquer link para que o leitor pudesse checar a fonte utilizada pelo governo para validar ou rechaçar determinado rumor. 
Em março de 2023, por exemplo, circulava pelas redes sociais e por aplicativos de mensagem a informação de que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha enviado "apenas 2 milhões de reais a municípios atingidos por um temporal em São Paulo". O "Brasil contra fake" publicou nota afirmando que a informação era falsa e que "por volta de 10 milhões de reais" já haviam sido liberados para a região. Destacou, ainda, que o governo tinha a projeção de enviar "R$ 120 milhões em recursos aos municípios" afetados. O texto, porém, não tinha — até a publicação desta reportagem — qualquer link ou documento oficial que sustentava a afirmação. 
Em 6 de abril, outro exemplo: o "Brasil contra fake" publicou um texto classificando como falsas mensagens virais que afirmavam que o governo federal havia cancelado a renegociação de dívidas com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A única fonte apresentada para negar a informação era uma nota do Ministério da Educação – que não estava disponível de forma pública nem linkada no texto até a publicação desta reportagem.
Checadores profissionais (como Reuters, Aos Fatos e Lupa) trabalharam o mesmo tema, e buscaram diferentes fontes de informação – oficiais e nos portais de notícia – para falar sobre o mesmo assunto. Foi assim que conseguiram mostrar a origem daquele conteúdo falso: uma imagem manipulada a partir do portal de notícias G1.
Mais um caso semelhante ocorreu quando o "Brasil contra fake" negou que o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, tivesse dito que prenderia quem andasse armado e não fosse ladrão. Ao desmontar a falácia, checadores profissionais citados acima analisaram sites de notícia e as redes sociais do ministro, além de conectar a seus textos as URLs de ao menos três leis ou decretos com o intuito de ajudar os leitores a compreenderem o assunto. O “Brasil contra fake" disse apenas que aquela notícia falsa sobre Dino era um "conteúdo que visava descreditar o decreto n.º 11.366” promulgado por Lula em 1º de janeiro de 2023. 

Checagem de dados

Dados produzidos por governos são importantes em muitos casos em que a veracidade de um conteúdo está em jogo, mas eles não podem nem devem ser tomados como fonte absoluta. 
Popularizada no Brasil a partir de 2014, a checagem de fatos é feita de acordo com parâmetros internacionais de transparência (de metodologia, fonte de informação e fontes de financiamento), apartidarismo e política de correção. A não apresentação de fontes ou a apresentação de uma fonte única ao leitor fere esses princípios. 
O fato de o "Brasil contra fake" ter copiado a estrutura de texto das plataformas que se dedicam à checagem de fatos do país e de ter sido anunciado como uma fonte para dados inequívocos leva a audiência a confundir o trabalho feito pelo jornalismo – em nome do interesse público – com o trabalho de promoção institucional próprio dos órgãos de comunicação governamentais.
Procurada para comentar sobre as conclusões do levantamento da Lupa com a Lagom Data, a Secom reconheceu que o programa, inicialmente criado para responder às "principais fake news" que envolviam o Executivo, passou por ajustes. 
Agora, "em vez de se limitar a identificar o que é falso, a campanha ["Brasil contra fake"] se esforça para explicar como as ações do governo federal funcionam", escreveu a Secom, distanciando de vez a iniciativa de sua proposta original.
Para o órgão, o programa agora também "visa educar os cidadãos e ampliar a conscientização sobre os assuntos relacionados às políticas públicas do Executivo Federal". Não há, no entanto, informações sobre alterações no nome da iniciativa – o que se vê é uma mudança sutil e silenciosa nas publicações do projeto.
À época de seu lançamento, em março, o "Brasil contra fake" usou as expressões "é falso que" ou "é fake que" em 38 de suas 50 notas. Essa é a mesma estrutura tradicionalmente usada por checadores profissionais para desmentir boatos que circulam em redes sociais (veja exemplos aqui, aqui, aqui e aqui). Em outubro, no entanto, nenhuma das 71 publicações feitas no site do projeto tinha essa formulação. Em ao menos duas ocasiões, foram usadas a expressão "o que você precisa saber" como forma de repassar ao cidadão informações que o governo julgava essenciais, sempre com seu próprio ponto de vista.
O levantamento da Lupa com a Lagom Data mostra, ainda, que o "Brasil contra fake" foi ficando cada vez mais autocentrado desde o seu lançamento. Se, em março, 53% das fontes usadas pela iniciativa remetiam a páginas do próprio governo Lula, em outubro, essa porcentagem subiu para 76%.

Informações autorreferentes

Das 168 notas de esclarecimento publicadas entre março e outubro, o "Brasil contra fake" apresentou links para suas fontes de informação em 144 ocasiões. Nesses textos, no entanto, 70,2% (355 entre 506 URLs) das informações usadas para desmentir boatos provinham de sites do próprio governo, com domínios do tipo .gov.br.
Dados produzidos por governos são importantes em muitos casos em que a veracidade de um conteúdo está em disputa. Mas, no trabalho de checagem profissional, eles não devem nem podem ser tomados como fonte absoluta – menos ainda se o tema estiver relacionado a eles. 
Além disso, a indicação do próprio Executivo como fonte única e exclusiva para desmentidos, como faz o "Brasil contra fake", sinaliza um movimento interno e cíclico de apuração, que limita o acesso do cidadão a informações mais amplas, diversas e apartidárias sobre os assuntos abordados pelo programa. 
Em resposta à Lupa, no entanto, a Secom disse que é essencial entender o contexto em que essas fontes foram utilizadas pelo projeto. O órgão destaca que "as notas referem-se às ações do governo federal, que são consolidadas e publicadas em espaços oficiais como o Diário Oficial da União, leis aprovadas pelo Congresso Nacional e decretos presidenciais, além de releases e comunicados ministeriais". Seriam, portanto, informações com uma base jurídica sólida e "parte integrante das políticas públicas do Poder Executivo Federal". 
Além disso, a Secom disse acreditar que a metodologia adotada pelo "Brasil contra fake" "contribui para a criação de uma rede de informações úteis e interessantes para os leitores", algo que, para o órgão, poderia melhorar a experiência do usuário em seu contato com o governo.

Notícias recicladas

O "Brasil contra fake" vem usando o trabalho de grupos de mídia, organizações de fact-checking e páginas que se dedicam a acompanhar a vida de celebridades, como o Glamurama, para construir suas notas de esclarecimento. 
Dos 168 conteúdos publicados entre 24 de março e 31 outubro, 26 (15%) se baseiam diretamente em notícias, checagens ou materiais audiovisuais já disponibilizados pela imprensa. Ao menos 10 dessas notas são versões reescritas de checagens publicadas por Aos Fatos (5), Fato ou Fake, do Grupo Globo (3), e Lupa (2), em textos que mesclam diferentes pontos das checagens profissionais. 
Há ainda o uso de imagens próprias de um site de checagem com atribuição do conteúdo feito por outro. É o caso, por exemplo, do texto que foi ao ar em 24 de março, na estreia  do "Brasil contra fake", afirmando que o governo federal não passaria a monitorar as comunicações feitas via WhatsApp. A nota do programa federal usa a imagem produzida pelo Fato ou Fake, mas com informações apuradas pela Lupa.
Foto: Reprodução
No mesmo dia, a iniciativa voltou a misturar uma imagem do Fato ou Fake com apuração feita pelo Aos Fatos ao negar que Rita Serrano, presidente da Caixa, tivesse feito um acordo para receber R$ 10 milhões do banco.
Foto: Reprodução
Há, ainda, referências e uso de informações produzidas pela “mídia tradicional” em 13 dos 168 artigos publicados (8%). Nestes, de forma direta ou indireta, aparecem como fontes os portais UOL e G1 e os sites dos jornais O Globo, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil, além de blogs locais e sites noticiosos de outros países.
Ao negar, em 10 de maio, que o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional​​ (GSI), Gonçalves Dias, tivesse dito que o governo Lula havia arquitetado os ataques de 8 de janeiro em Brasília, o "Brasil contra fake" apresentou como fonte um PDF que havia sido obtido e divulgado pelo UOL. O crédito ao portal, porém, não foi mencionado.
Já em 27 de março, quando classificou como falso que extintores de incêndio eram obrigatórios em carros circulantes no país, a fonte foi uma reportagem do G1 Auto Esporte de setembro de 2015 e não o Diário Oficial com a resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) que havia tornado facultativo o uso do extintor de incêndio em veículos. 
Ao comentar essas conclusões do levantamento da Lupa com a Lagom Data, a Secom afirmou que "a estratégia de reproduzir conteúdo jornalístico em algumas notas do ‘Brasil contra Fake’ é uma forma de aproveitar a complementaridade entre a imprensa e as instituições, cada uma com seu papel na defesa da democracia". 
No que diz respeito ao uso de imagens e à falta de crédito, o órgão foi evasivo. Disse que opta por utilizar imagens disponíveis gratuitamente para ilustrar suas notas, como forma de racionalizar tempo e esforço. Sobre a falta de menções a conteúdos obtidos em primeira mão por veículos jornalísticos, a Secom informou que o foco do "Brasil contra fake" é disponibilizar aos cidadãos a informação pública precisa referente ao fato apurado pela imprensa.
Leia aqui a íntegra da resposta enviada pela Secom aos questionamentos da Lupa.

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