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Vídeo negando aquecimento global chega a 780 mil no Facebook antes da COP
O texto foi atualizado para incluir o posicionamento enviado pelo YouTube à Lupa após a publicação desta reportagem
01.12.2023 - 07h45
Às 19h59 do dia 3 de novembro, um usuário do Facebook identificado como A.G. publicou um vídeo em um grupo que reunia quase 20 mil pessoas. O link, originário do YouTube, mostrava quatro indivíduos enumerando, por quase duas horas, supostas provas de que o aquecimento global não existe e de que a ação do homem não é responsável por ele. A maior parte das afirmativas já foi desmentida, mas 23 segundos depois de compartilhar o conteúdo, A.G. publicou o mesmo link em um segundo grupo, desta vez com 2,9 mil membros. 
Em pouco mais de 2 minutos, o usuário levaria o negacionismo climático da gravação a outros seis grupos de Facebook, segundo dados do CrowdTangle. Em 7 de novembro, A.G. voltaria à carga com mais uma publicação. Contabilizados os nove grupos em que A.G. compartilhou a entrevista no período, mais de 461 mil perfis ativos no Facebook podem ter sido impactados pelo conteúdo falso. 
Levantamento feito pela Lupa mostra que mais dois usuários se engajaram nessa disseminação, levando a mesma URL de A.G. a outros seis grupos, em um total de 15 grupos públicos diferentes. Em 19 de outubro, E.C. compartilhou o vídeo em quatro grupos, que totalizavam 49 mil participantes. Em 2 de novembro, 270 mil usuários do Facebook foram expostos ao conteúdo através da publicação de M.C. em dois grupos diferentes. 
Assim, em menos de um mês e às vésperas da COP28, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que começa nesta quinta-feira (30) em Dubai, a entrevista que questiona dados já comprovados sobre o aquecimento global ficou ao alcance de quase 800 mil usuários do Facebook. Isso pelas mãos de apenas três usuários da rede.

Narrativas falsas

Os primeiros pontos enganosos aparecem antes dos quatro minutos de gravação. "Não tem nenhuma evidência científica que mostre que o CO2 (gás carbônico) consegue aquecer o planeta (...) Isso não existe", diz um dos entrevistados. 
A afirmação é falsa. Entidades como a Nasa, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU e a universidade de Yale, entre outras, já demonstraram em diferentes estudos que o gás carbônico têm relação direta com o aumento da temperatura global (leia checagens baseadas nestes estudos, em inglês, aqui e aqui). A Lupa também já explicou o tema, em 2021, e classificou como falsas afirmações de que "o aumento do aquecimento global se deve à localização dos instrumentos de medição, normalmente em cima do asfalto ou próximos de ilhas urbanas de calor" e de que "nos anos 1970 se falava em resfriamento global, e não aquecimento", pontuando o impacto do CO2 nesses casos.
Desde 2004, pelo menos, há consenso de que o aquecimento global contemporâneo é causado pelas emissões humanas de dióxido de carbono e por outros gases de efeito estufa, que impedem que o calor saia da atmosfera da Terra e provocam o aumento das temperaturas no planeta. Relatórios climáticos nacionais e internacionais, como o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC e a Quarta Avaliação Nacional do Clima dos Estados Unidos, demonstram essa relação. O dióxido de carbono é apontado pelos cientistas como o principal vilão do aquecimento porque tem longa vida útil (de mais de centenas de milhares de anos), o que prolonga seu impacto no superaquecimento global.
No décimo minuto do vídeo, o segundo entrevistado se exalta ao propor uma falsa polêmica: "A questão é se isso [o aquecimento global] é antropogênico ou não é", diz ele, questionando o efeito da atuação humana no aquecimento global e insinuando que "o planeta tem um ciclo natural e que o homem não conhece a Terra." 
Estas afirmações também são falsas. Frases como "O aquecimento global é real, mas não foi causado pelo ser humano" e "Mudanças climáticas como a que está em curso atualmente sempre ocorreram ao longo da história" já foram desmentidas pela Lupa em 2021. No mesmo ano, a Deutsche Welle detalhou uma pesquisa que analisou 11.944 estudos publicados em revistas científicas (com revisão de pares) entre 1991 e 2011 e mostrou que especialistas da Universidade Monash, na Austrália, provaram que "menos de 1% dos artigos revisados rejeitaram a ideia de influência humana em nosso clima". 

Vídeo antigo e sem marcadores sobre desinformação

O link distribuído nos grupos leva ao canal de YouTube do Brasil Paralelo e, desde sua publicação, teve 1,4 milhão de visualizações. O Brasil Paralelo se descreve como um grupo que produz conteúdo para "resgatar os bons valores, ideias e sentimentos no coração de todos os brasileiros" e tem 3,6 milhões de seguidores na plataforma de vídeos.
A gravação divulgada nos grupos de Facebook pouco antes da COP28 é a edição de um videocast publicado pela Brasil Paralelo em 30 de agosto de 2022. No YouTube, o vídeo é acompanhado de uma etiqueta de contexto, que remete o espectador a uma página da ONU sobre mudanças climáticas, mas não há indicativo de que qualquer parte do conteúdo ali divulgado seja desinformativo. As diretrizes de comunidade da plataforma não preveem medidas contra informações falsas ou que contestam consensos relacionados à mudança climática.
Em nota enviada à Lupa após a publicação desta reportagem, o YouTube afirmou que "o vídeo enviado pela reportagem está em análise" e que, "em geral, nossos sistemas não recomendam ou deixam em evidência conteúdo que apresente desinformações sobre mudanças climáticas". A empresa informou ainda que exibe "vídeos de fontes confiáveis nos resultados de pesquisa por meio da prateleira 'Principais Notícias' e da classificação de pesquisa" e que conecta "os espectadores a contextos adicionais de terceiros, como as Nações Unidas, em painéis de informações (lançados em 2018 e que são constantemente atualizados) sob um vídeo".
O YouTube ainda citou que, no caso do vídeo citado nesta reportagem, "é possível ver que é exibido o painel informativo com mais contexto" explicando que as mudanças climáticas são transformações a longo prazo nos padrões de temperatura e clima, principalmente causadas por atividades humanas. Ressaltou que esse "contexto" é dado "para que o usuário tenha informações suficientes para tomar decisões próprias com relação aos vídeos que assiste" e que está "sempre trabalhando para expandir e melhorar a forma como conectamos os espectadores a conteúdo oficial sobre mudanças climáticas".
Por fim, o YouTube informou que, desde outubro de 2021, atualizou suas políticas de monetização e anúncios sobre mudanças climáticas, "proibindo a geração de receita com conteúdo e anúncios que contradizem o consenso científico sobre a existência e as causas das mudanças climáticas", incluindo "material que se refere às alterações no clima como se fossem mentira ou um golpe, com afirmações negando que as tendências de longo prazo mostram um aumento na temperatura global, e dizendo que as emissões de gases do efeito estufa ou as atividades humanas não contribuem para esse cenário".
No Facebook, um pequeno "i" (de informação) foi adicionado ao link, chamando atenção para a antiguidade do vídeo, mas sem mencionar a desinformação ali contida. Assim como o YouTube, a empresa não prevê questões específicas sobre conteúdos falsos a respeito da mudança climática em suas diretrizes de integridade. Apesar de o Facebook afirmar que trabalha com checadores em todo o mundo (incluindo a Lupa), não havia nenhuma checagem ou link para checagem vinculado ao vídeo. 
A Lupa procurou a Meta para comentar o caso. Em nota enviada por e-mail, a empresa informou que “pouco de todo o conteúdo sobre clima em nossos aplicativos é desinformação, mas sabemos que a quantidade de tais conteúdos pode aumentar quando as conversas na sociedade sobre mudanças climáticas se intensificam”.
Também frisou que tem “parcerias com mais de 90 agências independentes de checagem de fatos, entre elas a Agência Lupa no Brasil, para atestar a veracidade dos mais variados conteúdos, incluindo aqueles sobre o clima”. E detalhou que, “quando um conteúdo é marcado como falso por uma agência de checagem parceira, ele tem sua distribuição reduzida de forma significativa nos nossos aplicativos”. 
Por fim, a Meta afirmou que busca “conectar as pessoas com informações científicas sobre mudanças climáticas” através da Central de Informações sobre o clima no Facebook e que adiciona “um rótulo a alguns conteúdos sobre clima direcionando as pessoas para essa central, onde elas encontram fatos a respeito das mudanças climáticas e dicas sobre como identificar informações enganosas sobre o tema”.

Entrevistados têm histórico de negacionismo

Os entrevistados do vídeo analisado pela Lupa já se envolveram antes em disputas narrativas sobre aquecimento global. O primeiro deles, Ricardo Felicio, é professor de geografia e meteorologista. Em 2018, concorreu a deputado federal por São Paulo pelo PSL, mas não se elegeu. Depois disso, teria que ter voltado às salas de aula da USP, porém, segundo a Folha de S.Paulo, não o fez.  Em junho de 2023, a DW Brasil mostrou que seu negacionismo climático o converteu em alvo de uma carta-manifesto de estudantes que acusavam-no de "criar fatos e conflitos para sua autopromoção". Em julho, a USP decidiu demiti-lo por faltas, contou O Globo
O segundo entrevistado no videocast é o escritor Alexandre Costa. Autor de livros sobre "a nova ordem mundial", ele ministra cursos e palestras sobre globalismo, nos quais defende a teoria de que há um movimento orquestrado por elites políticas e econômicas que buscam estabelecer um governo global e totalitário. No último dia 21, foi advertido pelo YouTube por conta de conteúdo divulgado em seus canais (o motivo não foi divulgado pela empresa publicamente). Para evitar ser banido, anunciou que migraria seu conteúdo para outras redes sociais.
Ainda que ambos sejam os autores do discurso negacionista registrado no vídeo, não há indícios que conectem Felicio e Costa — nem a produtora Brasil Paralelo — ao compartilhamento do link para quase 800 mil pessoas entre os dias 19 de outubro e 7 de novembro. Não há relação evidente entre eles e os perfis que disseminaram  a gravação nos grupos analisados no Facebook. 
A Lupa procurou o Brasil Paralelo para que comentasse o caso, mas também não obteve retorno. A reportagem não conseguiu contato com Felicio e Costa. O texto será atualizado se houver resposta.

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