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Desinformação e estigma ainda são desafios sobre o HIV nas redes
01.12.2023 - 08h00
João Pessoa - PB
Apesar de todo o trabalho de conscientização das últimas décadas, a desinformação e o estigma ainda são os principais entraves na hora de falar sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), especialmente o HIV. "As pessoas ainda têm muitas dúvidas, às vezes muito básicas, do tipo: 'Será mesmo que é seguro eu, estando indetectável (que não transmite mais o vírus), gerar uma criança sem o vírus?'. É preciso mais diálogo", reforça a ativista Vanessa Campos, da página SoroposiDHIVA. Assim como ela, outros influenciadores que vivem com HIV usam suas redes sociais com um único objetivo: o de levar informação correta e acolhedora.
Com 8,4 mil seguidores no Instagram, Vanessa Campos atua nas redes desde 2016. Por lá, ela fala de diversos assuntos, principalmente com foco em mulheres. Segundo relatório publicado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), em 2022, 53% das pessoas vivendo com HIV no mundo eram mulheres e meninas — contrariando o senso comum de que o vírus é exclusividade de determinados grupos sociais. "Eu fui massacrada. Minha autoestima foi massacrada em relacionamentos altamente abusivos. Precisava falar de empoderamento da mulher que se reconhece, que resgata o seu valor, que o HIV não a faz ser inferior a ninguém", relembra Vanessa.
Os influenciadores digitais abordam em suas redes os mais diversos assuntos, a exemplo da diferença entre HIV e aids — dúvida ainda muito comum. Vale lembrar que não se tratam de sinônimos. O HIV é o vírus que ataca o sistema imunológico e deixa o organismo sem defesa contra outras infecções, provocando a imunodeficiência humana. A aids, por outro lado, é a doença causada pelo HIV. Mas ela só acontece se não houver tratamento. Uma pessoa com HIV, portanto, pode não ter aids, reforça o Ministério da Saúde.
No caso de Lucas Raniel, influencer com 121 mil seguidores no Instagram, a principal dúvida das pessoas que o abordam é sobre o uso da Profilaxia Pré-Exposição, a PrEP. Segundo o Ministério da Saúde, esse é um tratamento com comprimidos que prepara o organismo para enfrentar um possível contato com o HIV, impedindo-o de se instalar no organismo. A pessoa com PrEP realiza acompanhamento regular de saúde, com testagem para o HIV e outras ISTs. O medicamento é gratuito, ofertado no Sistema Único de Saúde (SUS) e tem altas taxas de eficácia. Entretanto, muitas pessoas o desconhecem. 
Há ainda também a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), medida de prevenção de urgência para ser utilizada após uma situação de risco à infecção pelo HIV, como em casos de violência sexual, relação sexual desprotegida ou em um acidente ocupacional com instrumentos perfurocortantes ou contato direto com material biológico. O tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível, preferencialmente nas primeiras duas horas após a exposição de risco e no máximo em até 72 horas, recomenda o Ministério da Saúde. A PEP também é oferecida gratuitamente pelo SUS. 
“Estes dois métodos, sobretudo a PrEP, ainda não chegam de forma igualitária entre as populações que, segundo dados recentes, são as que mais se infectam por HIV. Pessoas negras, trans, mulheres, jovens e população com menor escolaridade ainda têm baixa adesão à PrEP”, destacou Claudia Velasquez, diretora e representante do Unaids no Brasil, ao site da organização.

O estigma que leva à desinformação

"Ontem falei com um rapaz de 26 anos que não sabia o que era HIV". Com 32 mil seguidores no Instagram, o personal trainer Diego Moi decidiu, em 2019, falar nas redes sobre como era viver com HIV. Para ele, um homem cisgênero e heterossexual, dúvidas como desse jovem não são banais. “Eu não tive informações de HIV. Ninguém me falou. Há uma carga de preconceito [contra a comunidade LGBTQIA+]. O mundo hétero não foi taxado de peste, né?”
O estigma de que apenas gays se infectam ainda é recorrente, diz. A divulgação de casos de aids entre homossexuais, nas décadas de 1980 e 1990, levou a doença a ser popularmente conhecida nos jornais — de forma indevida — como "peste gay". "Quando falei que vivia com HIV, veio uma enxurrada de comentários preconceituosos: 'Quem mandou sair com todo mundo’, ‘quem mandou não usar camisinha'. Veio o estigma de que era promiscuidade, que eu era drogado, que eu era gay. A verdade é que não tive educação sexual", conta. 
Hoje, em suas redes, Diego compartilha a experiência de que é possível ter uma vida como a de qualquer outra pessoa. Ele é casado e tem uma filha de seis meses — nem esposa, nem filha vivem com o vírus. "As pessoas duvidam de que é possível uma pessoa que vive com HIV seja pai ou mãe."
Uma nota técnica publicada pelo Ministério da Saúde reforça que pessoas vivendo com HIV em terapia antirretroviral e com carga viral indetectável há pelo menos seis meses não transmitem o vírus por via sexual. "O termo Indetectável = Intransmissível é consenso entre os cientistas e vem sendo amplamente utilizado mundialmente por instituições de referência sobre o HIV", diz a nota.
"Hoje em dia, atendo muitos casais em que o homem vive com HIV e a mulher não, e eles engravidam pelas vias naturais e não tem transmissão nem para mulher, nem para a criança. As pessoas acham que o vírus está no esperma e, com isso, a criança vai nascer com HIV. Quando a pessoa está em tratamento, a quantidade de partículas virais que circula é mínima, não acontece a infecção”, explica o médico infectologista Vinicius Borges, o Doutor Maravilha, à Agência de Notícias da Aids.
Vanessa Campos, do SoroposiDHIVA, também é mãe. Ela lembra que, antes de começar a usar as redes sociais para falar publicamente sobre o vírus, precisou conversar com as filhas para prepará-las contra qualquer abordagem preconceituosa contra elas. "Eu já queria começar a falar, mas não podia porque eu sabia que elas eram muito crianças, não saberiam lidar com esse estigma de ter uma mãe que vive com HIV. Só em 2016, com elas já adolescentes, a gente conversou bastante e assim eu fui preparando minhas filhas, pois poderiam ter que enfrentar o estigma, o preconceito e a discriminação." 
Vanessa afirma ainda que muitas mulheres veem seu perfil, mas não a seguem. "Para você ter ideia, eu acolho mais pessoas no direct que não me seguem do que as que me seguem, porque o estigma é tão grande que elas pensam que só de me seguir vão estar dando pista para os amigos de que podem ter HIV." 

Desinformação entre médicos

O desafio de informar corretamente também está presente entre os profissionais da área da saúde. Ainda há muito despreparo na abordagem sobre o HIV, relatam os influenciadores entrevistados pela reportagem. O atendimento piora principalmente se as pessoas que vivem com o vírus são trans. Nas redes, inclusive, há médicos que compartilham conteúdos falsos de que a vacina da Covid-19 transmite aidsboato já desmentido pela Lupa. 
"A gente fala muito sobre isso nas redes, eu e muitos colegas infectologistas, mas há outros que infelizmente não se atualizam. Então, se dentro da infectologia tem isso, você imagina fora da área? Infelizmente, recebo reclamações de pacientes sobre colegas de outras áreas médicas, da odontologia, se queixando de desinformação e preconceito", relata a médica Elna Amaral, que também usa as redes para levar informação precisa sobre o HIV. 
Lucas Raniel lembra que já passou por situações desconfortáveis com profissionais da saúde. "A gente vê isso acontecendo bastante. Existem profissionais que levam a religião e questões políticas para a sala de atendimento. Isso não é legal. Acho que é importante existir uma grande reciclagem nos profissionais de saúde no Brasil, para que se tenha mais acolhimento e menos julgamento", reforça. 

'Comunicação é tudo'

Para além da desinformação, é preciso que haja uma ressignificação dos termos que são usados quando o tema é HIV. O Unaids, por exemplo, traz em seu site uma lista de expressões que devem ser evitadas, a exemplo de “aidético”. "Além de incorreto, é estigmatizante e ofensivo", diz. 
O comunicólogo Lucas Raniel reforça que é preciso evitar o uso de termos bélicos quando se fala de HIV e aids. "Comecei a ressignificar a minha comunicação. Em momento algum falo de luta contra a aids, porque essa linguagem infelizmente incita mais o ódio do que acolhe a população. A comunicação humanizada e acolhedora também é uma ferramenta para diminuição do estigma, do preconceito com as pessoas que vivem com HIV, e isso eu fui aprendendo com o passar do tempo." 
O Unaids e diversas outras organizações também têm buscado substituir termos bélicos utilizados na resposta à epidemia de aids por expressões mais inclusivas: "Evite usar 'combate’ ou 'luta' contra a aids. O termo recomendado é resposta à aids, resposta ao HIV". 

Onde procurar ajuda?

O SUS oferece gratuitamente testes para diagnóstico do HIV, e também para diagnóstico de sífilis e das hepatites B e C. Basta procurar uma unidade básica de saúde ou os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) (saiba onde clicando aqui). Os exames são feitos de forma anônima. Além da coleta e da execução dos testes, há um processo de aconselhamento, para facilitar a correta interpretação do resultado. Em caso de dúvidas, a recomendação do Ministério da Saúde é conversar com um infectologista. 
Há também iniciativas pontuais que buscam informar e tirar dúvidas. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com o Unaids, lançaram a primeira inteligência artificial não binária vivendo com HIV. KEFI é uma ferramenta que acolhe adolescentes e jovens recém-diagnosticados com HIV, oferecendo um espaço humanizado, com sigilo e confiança. A conversa é conduzida por inteligência artificial e 100% confidencial. O chatbot pode ser acessado por meio do WhatsApp. 

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