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Só 8% das 'notas da comunidade' feitas em português no X chegam aos usuários
Há pouco mais de um ano, em 5 de novembro de 2022, o empresário Elon Musk escreveu no X (antigo Twitter) que a iniciativa batizada como "Notas da Comunidade" tinha um "potencial incrível" para melhorar a qualidade da informação na rede social que ele havia acabado de comprar. Mas, no último dia 10 de dezembro, depois de ver que uma de suas postagens havia sido tachada como incorreta por participantes do projeto, Musk foi a público e esbravejou: "Esta nota [da comunidade] está sendo manipulada por atores estatais. Vai servir para localizar quem são essas pessoas [tentando burlar o programa]".
Lançado no Brasil em março deste ano, o projeto que pretendia ser "uma forma colaborativa de adicionar contexto útil aos posts" feitos no X e, em consequência, "manter as pessoas mais bem informadas" teve um crescimento considerável – de mais de 300% – em sua versão em português no comparativo entre o primeiro mês de funcionamento e novembro. 
Dados obtidos pela Lupa em parceria com a Lagom Data mostram que, se em março o projeto "Notas da Comunidade" recebeu 1.183 contribuições de usuários autorizados a deixar sugestões de notas sobre os mais diversos assuntos, em novembro, o total chegou a 3.748 – impactando contas como a do influenciador digital Felipe Neto (aqui e aqui), dos deputados federais Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) e de meios de comunicação como o jornal Estado de S.Paulo e a Revista Oeste.
Juntos, os 3.846 perfis únicos que contribuíram com notas em português ao longo do período analisado pela Lupa produziram um total de 16,8 mil sugestões de contexto. Foram apontamentos que buscavam indicar ao X diversos tipos de imprecisão, desde falsidades em forma de texto e vídeos manipulados a postagens que não estavam totalmente corretas e, portanto, mereciam explicações mais profundas para serem plenamente compreendidas pelos usuários da plataforma. Mas, desse universo de 16,8 mil sugestões, apenas 1.352 acabaram efetivamente publicadas no feed do X. Isso significa que 92% de todas as "Notas da Comunidade" feitas em português entre 3 de março e 1º de dezembro permaneceram apenas dentro do sistema do programa – 89% constavam como pendentes de avaliação e, por isso, ainda não tinham sido exibidas pela plataforma aos usuários; 3% já haviam sido rejeitadas, restando apenas 8% no ar.
Na prática, isso significa que o programa que aposta numa espécie de "fact-checking colaborativo" pouco contribui para melhorar o ambiente de informação dentro do X. 
Além disso, uma análise detalhada da iniciativa em português também mostra ao menos outras duas falhas. A primeira é a falta de transparência sobre como a plataforma conduz o "Notas da Comunidade". Não se sabe o critério usado para escolher quem pode e quem não pode contribuir para o projeto nem o que é exigido de uma nota para que ela seja considerada válida.
A segunda falha tem a ver com o grande universo de notas pendentes de avaliação. Quanto maior ele for e mais lento for sua tramitação, mais dúvidas o "Notas da Comunidade" gera, já que conteúdos possivelmente truncados, fora de contexto ou plenamente falsos podem seguir sem qualquer marcação da rede social, levando a comunidade de usuários a, de alguma forma, entender que as postagens são verídicas. 
E essa situação não é exclusiva dos conteúdos em português. Na base de dados que reúne todos os idiomas em que o "Notas da Comunidade" existe e onde a maior parte (70%) das contribuições foi feita em inglês, 88% das sugestões  coletadas também apareciam como pendentes de avaliação e 4% já tinham sido classificadas como rejeitadas no início de dezembro. Mantendo as médias vistas em português, no todo do programa apenas 8% das "notas da comunidade" haviam realmente chegado ao público. 
A língua portuguesa é a quarta maior do programa "Notas da Comunidade" em todo mundo, de acordo com estimativa feita pela Lagom Data a partir dos textos propostos na plataforma e cuja base de dados é pública. 
Os dados divulgados pelo X não classificam as contribuições por país nem por idioma. Mas, usando inteligência artificial, é possível saber que as contribuições identificadas como tendo sido feitas em português são apenas 4,5% das mais de 377 mil sugestões de notas coletadas pelo projeto em todo o mundo entre março e 1º de dezembro deste ano. 
Com mais de 24 milhões de usuários na plataforma, é provável que o Brasil seja, de longe, o país que mais contribui para a presença da língua portuguesa no X e no programa "Notas da Comunidade". Mas apenas 3.846 perfis únicos existentes na plataforma contribuíram ao menos uma vez com o "Notas da Comunidade" em português de 3 de março a 1º de dezembro de 2023. Se todos fossem brasileiros, a título de comparação matemática, isso representaria não mais do que 0,01% do total de usuários brasileiros com perfil ativo na rede social de Musk.
Editores e critérios desconhecidos
Para participar do "Notas da Comunidade" como alguém que colabora com a elaboração de notas de contexto, é preciso ser um usuário (pessoa física) do X e preencher um formulário pedindo acesso à plataforma de contribuição. Os critérios adotados pela rede social para decidir quem, a partir daí, recebe autorização para participar do projeto são, no entanto, desconhecidos do grande público. 
Também não é possível traçar o perfil ou mesmo identificar quem são as pessoas que têm capacidade de contribuir com o "Notas da Comunidade" em português. Uma vez aprovados pelo X, os anotadores do programa (no mundo inteiro) passam a ser identificados na plataforma exclusiva do projeto por uma sequência de mais de 60 caracteres alfanuméricos. 
Além disso, vale pontuar que uma das primeiras medidas de Musk no comando do X foi fechar o acesso de pesquisadores à API da plataforma. O sistema vigente até então permitia que qualquer um navegasse nos dados do Twitter e, de lá, extraísse conhecimento. Atualmente, o acesso à API do X custa cerca de 42 mil dólares (a Lupa não dispõe desse acesso) e não oferece o mesmo nível de detalhamento do período anterior, segundo apurou esta reportagem. 
Uma análise dos dados anonimizados de 2023 revela, no entanto, algumas curiosidades. Em média, os criadores de notas que atuam em português contribuíram com 4,4 anotações cada no período avaliado pela Lupa
O mais profícuo deles, em língua portuguesa, propôs um total de 481 notas, das quais a iniciativa considerou como válidas apenas 49 contribuições (cerca de 10% do total). Já o segundo encaminhou 419 textos, mas o índice de conteúdos que terminaram vindo a público por meio dele foi mais alto: 78 aprovações ou 18%.
Também chama a atenção o fato de esses dois perfis de editores terem se somado ao "Notas da Comunidade" há menos de um mês. O primeiro começou a contribuir para o programa no dia 22 de novembro, e o segundo, no dia 28 – um sinal de que parecem estar muito dispostos a contribuir para o projeto, apesar de o X não pagar nada a quem lhe envia contribuições.
Útil ou inútil?
Apesar da falta de detalhamento público sobre os critérios de análise, o que se sabe é que as notas produzidas para o X são avaliadas como úteis ou inúteis. É importante pontuar, no entanto, que a rede social não é transparente nem explica o que faz com que uma sugestão de nota seja classificada de um ou de outro modo. 
Antes de Musk comprar o X, a primeira versão do "Notas da Comunidade", conhecida como "Birdwatch", estabelecia que uma nota submetida ao sistema precisava de um determinado número de aprovações para ir a público. Aqueles que contribuíam para a iniciativa com mais frequência e sucesso iam, pouco a pouco, escalando na hierarquia do "Birdwatch", nos moldes do que acontece na Wikipédia. 
Hoje, no entanto, o X não informa publicamente como decide sobre as sugestões apresentadas. A plataforma afirma apenas que a iniciativa "não funciona pelas regras da maioria" e que as notas úteis são aquelas em que colaboradores com "perspectivas diversas", ou seja, que discordaram em avaliações anteriores, entraram em um consenso – um critério que, apesar dos algoritmos, carrega um inegável grau de subjetividade.
Pop gera consenso. Política, não
O fato de o "Notas da Comunidade" aparentemente exigir que perfis com visões distintas cheguem a um consenso sobre a validade de uma determinada nota para que uma publicação feita no X receba uma marcação de correção pode explicar porque, ao menos em português, há um volume considerável de notas inconclusivas.
Em consequência disso, o que se vê é que as notas efetivamente publicadas nesse idioma estão comumente atreladas a postagens com baixo impacto, longe do debate político e econômico do país. O resultado disso é que, em vez de contribuir com a luta contra a desinformação e o discurso de ódio, que tem proliferado no Brasil há alguns anos, há um grande volume de notas que tratam de temas pouco relevantes.
Em novembro deste ano, quando o "Notas da Comunidade" atingiu seu ápice de contribuições em português, dois picos de atividade foram detectados. O primeiro ocorreu entre os dias 14 e 16, e o segundo entre os dias 22 e 24.
No primeiro caso, anotadores do X pontuaram que a imagem de um rio com águas avermelhadas não vinha do Nilo, no Egito, nem tinha qualquer ligação com a guerra entre Hamas e Israel. No segundo, eles reagiram a anúncios publicitários falsos que indicavam que os apresentadores Luciano Huck e Marcos Mion tinham sido presos – esses conteúdos, inclusive, já foram deletados da rede.
Outros temas corriqueiros que derivaram na publicação efetiva de "Notas da Comunidade" em novembro foram clientes lesados por uma operadora de bitcoin, o formato do Xou da Xuxa e notícias de um preso libertado na Itália por ser gordo. Nas 1.352 notas em português que foram efetivamente publicadas entre 3 de março e 1º de dezembro deste ano, a Lupa identificou que há grande predominância de vídeos e fotos identificados como falsos. Postagens em formato de texto parecem obter menos consenso e, logo, ser menos anotadas. 
Vale ressaltar que o X não faz qualquer tipo de categorização sobre os assuntos abordados pelo "Notas da Comunidade" – não é possível, portanto, saber quais temas receberam mais ou menos notas. Entretanto, a análise da Lupa com a Lagom Data indica que 56 notas publicadas pelo projeto no mesmo período fizeram menção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (com o uso do termo "Lula"). O ex-presidente Jair Bolsonaro (com o termo "Bolsonaro”) apareceu em 43 anotações que vieram a público. "Hamas" surgiu 49 vezes e "Ucrânia", 12.
Confira a seguir uma nuvem de palavras gerada a partir do conteúdo de todos as “Notas da comunidade” publicadas em português no X:
Por fim, é importante ressaltar que, entre as muitas notas represadas, há anotações sobre conteúdos desinformativos que circulam na plataforma sem qualquer tipo de marcação. Ao menos 232 contribuições feitas em português e que ainda aguardam análise tratam de "vacina".
Entre elas, estão conteúdos que falsamente afirmam que a Organização Mundial da Saúde pediu que as vacinas contra Covid-19 fossem "imediatamente retiradas do mercado" – o que é falso, pois a entidade jamais deixou de recomendar a vacinação. Também fazem parte dessa lista publicações que responsabilizam as vacinas pelos mais diversos problemas de saúde – a Lupa já desmentiu várias delas, como, por exemplo, casos de miocardite e inflamação dos vasos sanguíneos em decorrência da vacinação. 
Pela mesma razão, usuários do X continuam vendo postagens que negam o aquecimento global. Quatorze notas sobre o assunto aguardavam avaliação no início deste mês. A maioria delas se referia a posts em que se via imagens de locais nevados como se elas pudessem ser prova de que o planeta não vive consequências das mudanças climáticas – um dos mitos sobre a emergência climática já amplamente explicados pela comunidade científica internacional e, também, por reportagens como o explicador publicado em setembro pela Lupa.
Outro lado
A Lupa enviou ao X um e-mail solicitando uma entrevista com o setor responsável pelo programa "Notas da Comunidade" em português. Menos de um minuto depois, recebeu a resposta automática que a plataforma dá há meses a jornalistas de todo o mundo, informando que estão todos ocupados e que é preciso retornar o contato mais tarde. Caso houver resposta do X, esta reportagem será atualizada.

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