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Deputados usam negacionismo climático para atacar Lula e apoiar Bolsonaro
20.12.2023 - 14h00
João Pessoa - PB
O texto foi atualizado para esclarecer que a deputada Adriana Ventura (Novo-SP) não fez menção a uma questão específica do Enem sobre aquecimento global, apesar de as duas únicas perguntas sobre o tema no exame terem sido baseadas em evidências científicas
21.12.2023 - 09h30
A retórica de que o aquecimento global é uma fachada foi usada como narrativa conspiratória por parlamentares no Facebook para criticar ações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Dos 25 posts de parlamentares sobre meio ambiente que mais engajaram em 2023  — ano que chega ao fim como o mais quente dos últimos 125 mil anos — seis deles expressavam ceticismo sobre as mudanças climáticas em geral e insinuavam que elas eram apenas uma 'arma' usada pela esquerda para criticar o governo de Jair Bolsonaro (PL). É o que diz o levantamento inédito produzido pela Democracy Reporting International, dentro do projeto Mídia e Democracia. A iniciativa conta com a parceria da Lupa.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) chegou a postar em fevereiro que "a tal 'mudança climática' – antes alardeada como aquecimento global" era um pano de fundo para que "pessoas autoritárias como Lula se apossem de sua liberdade, obrigando você e sua família a viver como ele quer". 
O post foi compartilhado com um vídeo de um trecho do encontro entre o presidente brasileiro e o dos Estados Unidos, Joe Biden, na Casa Branca. Nele, o petista pedia a ajuda de Biden para que os países acatassem as decisões tomadas em nível global para combater as mudanças climáticas. No Facebook, a publicação alcança mais de 100 mil visualizações.
A ideia de que o aquecimento global "não existe" também foi retórica de um vídeo publicado nas redes pelo deputado federal Giovani Cherini (PL-RS), em novembro deste ano. Na tribuna da Câmara, o parlamentar afirmou — sem provas — que esse discurso é uma farsa da esquerda brasileira e que o que existe, na visão dele, "é o interesse internacional de escravizar agricultura brasileira de trazer máquinas elétricas para o Brasil e dizer que tudo isso é para preservação ambiental". 
Post de Eduardo Bolsonaro afirmando que mudança climática é 'pano de fundo' da esquerda
A narrativa negacionista de que as mudanças climáticas são parte de uma estratégia internacional também está presente em um post da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) em que ela menciona que o bilionário George Soros, fundador da Open Society, fez uma análise do panorama global diante das "supostas mudanças climáticas" causadas pela ação humana. A publicação, feita em fevereiro, é usada por Zambelli para afirmar que Soros – 'financiador de ONGs de esquerda em todo o mundo' – apoia Lula em sua luta por uma sociedade aberta.
Vale lembrar que existe um consenso entre a comunidade científica mundial de que o aquecimento global é um fato e já está acontecendo. Estudos sobre os possíveis efeitos de gases como o CO2 no clima da Terra existem desde o século 19. Mas foi a partir dos anos 1980 que pesquisadores passaram a alertar e a divulgar uma série de evidências sobre os efeitos da ação antrópica (causada pelo ser humano) na temperatura do planeta. 
O sexto e mais recente relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicou que as alterações climáticas já estão afetando todas as regiões da Terra. Entre as mudanças observadas, estão o aumento do nível do mar, o derretimento de geleiras, o aquecimento dos oceanos e eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos, entre outros. 
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tampouco passou despercebido nas críticas de parlamentares. Segundo a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP), o exame trouxe "[...] questões que fizeram ataque ao agronegócio, críticas ao capitalismo e idolatria à releitura marxista por meio da Escola de Frankfurt, entendimento raso sobre aquecimento global e por aí vai".  Apesar de a deputada não mencionar uma questão específica, apenas duas perguntas se referiam ao aquecimento global na prova do dia 5 de novembro, à qual se refere o post publicado por ela no dia 7.
A primeira citou o discurso da ativista indígena de Rondônia, Txai Suruí, durante a abertura da Conferência da Cúpula do Clima (COP26), para tratar questões climáticas e aquecimento global: “O clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo e nossas plantações não florescem como no passado. A Terra está falando: ela nos diz que não temos mais tempo”, afirmou. A questão era: "o discurso da líder indígena explicita um problema global relacionado ao (à)" – a resposta correta era a opção "exploração predatória". Segundo o relatório do IPCC 2023 (página 4), as atividades humanas em excesso, principalmente por meio das emissões de gases de efeito estufa, contribuem para o aquecimento global. "As emissões globais de gases de efeito estufa continuaram a aumentar, com contribuições históricas e contínuas desiguais decorrentes do uso insustentável de energia, uso do solo e mudança no uso do solo, estilos de vida e padrões de consumo e produção em diferentes regiões, entre e dentro de países, e entre indivíduos". 
Já a segunda questão da prova do Enem relacionada ao assunto – e única que citou o termo "aquecimento global" de forma direta – trazia uma imagem que ilustrava o tema e questionava qual medida seria capaz de minimizar as mudanças apresentadas nas simulações. A resposta era controlar as emissões de carbono – dado esse corroborado pelo relatório de avaliação do IPCC 2023.
No primeiro dia de prova do Enem, apenas uma questão citou diretamente o termo 'aquecimento global'

Críticas à gestão de Marina Silva

A gestão da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, também tem sido alvo constante nos posts. Postagens de deputados frequentemente destacam dados de queimadas e desmatamentos sob a gestão de Marina como prova da ineficácia do governo, alegando que, se Bolsonaro ainda estivesse no poder, tais falhas receberiam críticas mais consideráveis. O discurso é de que, na atual gestão, a culpa é do 'aquecimento global'. 
"Após 10 meses e meio de desgoverno Lula, Marina tem a cara de pau de culpar Bolsonaro pelo desastre ambiental que estão causando. Agora culpa a população, e até as nuvens. A velha imprensa já culpa o El Niño. Antes a culpa era sempre de Bolsonaro, não?", postou Zambelli, em outubro deste ano, no Facebook. 
É importante mencionar que, quando o CO2 é lançado em demasiado na atmosfera, essa substância tem efeito maléfico porque esquenta demais a Terra, causando a elevação da temperatura e, por consequência, o aquecimento global. Por isso, é chamada de gás de efeito estufa (GEE). O CO2 torna-se especialmente prejudicial quando é liberado por atividades realizadas por seres humanos, como a queima de combustíveis fósseis, processos industriais, desmatamentos e queimadas. 
Já o senador Jorge Seif Júnior (PL-SC), em post publicado em novembro, usa uma reportagem do jornal O Globo que mostra que as queimadas em outubro aumentaram 148% em relação ao ano passado, no Amazonas, para criticar a imprensa e a gestão de Marina Silva, acusando-os de 'manipular' a narrativa sobre mudanças climáticas. "A cada novo acontecimento fica mais claro que a imprensa está manipulando informações para construir narrativas. Imagine se estivéssemos no governo Bolsonaro, as notícias certamente apontariam ele como o culpado", escreveu.
Em defesa de Jair Bolsonaro, parlamentares deixam de mencionar, no entanto, que o ex-presidente terminou seu governo com um aumento de 59,5% da taxa de desmatamento na Amazônia em relação aos quatro anos anteriores (governos Dilma e Temer, entre 2015 e 2018), segundo relatório publicado pelo Observatório do Clima. E que o Brasil emitiu 2,4 bilhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa em 2021, sendo o maior aumento de emissões em quase duas décadas, superado apenas por 2003. 
Estudo aponta baixo número de posts sobre clima
O relatório produzido pela Democracy Reporting International analisou um total de 229,7 mil posts publicados por parlamentares este ano no Facebook. Desse total, apenas 1,6 mil — cerca de 0,7% — tinham alguma menção ao meio ambiente ou ao clima. 
Além disso, o estudo mapeou que a maioria dos parlamentares publica sobre mudanças climáticas somente quando ocorre algum desastre, a exemplo das fortes chuvas e enchentes ocorridas no Sul este ano. Do total de posts publicados, 48,1% deles faziam alguma menção aos desafios e desastres regionais climáticos. 
Outro lado
Sobre o post da deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP), em referência à questão do Enem, a assessoria explicou em resposta enviada à Lupa antes da publicação da reportagem que o comentário publicado nas redes não expressa ceticismo sobre as mudanças climáticas tampouco trata de negacionismo climático. "Trata, ao contrário, de uma crítica à maneira pela qual o Enem atribuiu ao agronegócio a responsabilidade pelo aquecimento global, usando, aliás, a expressão 'exploração predatória' - como é de conhecimento geral, os principais causadores das mudanças climáticas são os países industrializados que lideram as emissões pelo uso de combustíveis fósseis. Em nenhum momento a deputada se referia à questão da prova mencionada. Esta foi uma dedução equivocada". A assessoria também reforçou no texto que a deputada é autora do PL do hidrogênio verde, aprovado na Câmara em novembro deste ano. 
Em nota enviada após a publicação da reportagem, também por meio de sua assessoria, a deputada Adriana Ventura afirmou que o post que publicou "aborda as questões da prova do ENEM de forma abrangente" e que "não se posiciona de forma negacionista, pelo contrário, como professora defende análise baseada em dados, em evidências e na ciência". Disse, ainda, que "entendimento raso é um problema contemporâneo decorrente tanto da simplificação de conceitos, quanto da polarização". Também declarou que "a associação do post da parlamentar com a imagem do recorte escolhido pela reportagem induz a uma leitura incorreta dos fatos". E finalizou citando que "os posicionamentos de direita da deputada não acarretam de nenhum modo a descredibilização do conhecimento científico".
Até a publicação desta reportagem, nenhum dos outros parlamentares citados no texto retornou ao pedido feito pela Lupa para comentar o assunto. O texto será atualizado se houver resposta. 

Nota: Este conteúdo faz parte do projeto Mídia e Democracia, produzido pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV ECMI) em parceria com Democracy Reporting International e a Lupa. A iniciativa é financiada pela União Europeia.

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