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Iniciativa do X para frear desinformação ignora posts de Lula e Bolsonaro
21.12.2023 - 16h30
Rio de Janeiro - RJ
Criado para "adicionar contexto útil aos posts" feitos no X (antigo Twitter) e para "manter as pessoas mais bem informadas", o projeto "Notas da Comunidade" –  iniciativa onde usuários da plataforma podem acrescentar informações para corrigir ou contextualizar publicações de outros usuários – não teve qualquer impacto real no discurso digital dos dois principais líderes políticos do Brasil nos últimos três meses.
Análise feita pela Lupa e pelo estúdio Lagom Data a partir dos dados públicos relativos à versão do programa do X em português mostra que tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  quanto o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) têm passado praticamente incólumes às sugestões de esclarecimentos e de correção que são enviadas ao "Notas da Comunidade". E não é por falta de conteúdo postado que contém erro ou falta de contexto.
Entre 1º de setembro e 1º de dezembro, os perfis oficiais de Lula e Bolsonaro no X fizeram, respectivamente, 647 e 235 postagens. Trataram de temas como desemprego, meio ambiente, religião, agronegócio, índices de criminalidade e relações internacionais, entre outros assuntos.
Juntas, as contas dos dois políticos publicaram 882 conteúdos no X e foram alvo de 186 propostas de "Notas da Comunidade". Lula teve 159 registros feitos por usuários habilitados a participar do programa, e Bolsonaro computou 27. Mas apenas um único post – de Bolsonaro –  tinha recebido uma anotação pública até 1º de dezembro de 2023. 
A publicação foi feita pelo ex-presidente em 16 de outubro e se resume a um vídeo que, ao contrário do que sugere Bolsonaro, não foi gravado em Minas Gerais por conta da falta de água, mas na Bahia, em decorrência do fechamento de garimpos. A nota da comunidade que foi adicionada à postagem dois dias depois de ela ir ao ar explicita isso, oferecendo como fonte um link do Confere, iniciativa de checagem do portal UOL

Notas “inconclusivas”

Segundo as premissas do programa impulsionado pelo empresário Elon Musk, dono do X desde novembro de 2022, as "Notas da Comunidade" existem para não só flagrar informações falsas, mas prioritariamente acrescentar contextos importantes a determinadas publicações. 
Mesmo assim — e apesar de vários conteúdos postados pelos dois mais proeminentes ícones da política brasileira terem recebido sugestões de anotação —, um total de 881 posts de Lula e Bolsonaro não tiveram qualquer marcação no último trimestre.
Lançado no Brasil (em português) em março de 2023, o programa não publicou – só em 2023 – 88% das sugestões feitas pelos usuários em língua portuguesa. Conforme mostrou a Lupa, esse conjunto de contribuições feitas de forma gratuita para o "Notas da Comunidade" constava, até 1º de dezembro, como inconclusivo dentro da base de dados da iniciativa.
É importante ressaltar que, para participar do "Notas da Comunidade" como alguém que colabora com a elaboração de notas de contexto, é preciso ser um usuário (pessoa física) do X e preencher um formulário pedindo acesso à plataforma de contribuição. Os critérios adotados pela rede social para decidir quem, a partir daí, recebe autorização para participar são, no entanto, desconhecidos.
Apesar da falta de detalhamento público sobre os critérios, o que se sabe é que as notas produzidas para o X são avaliadas como úteis ou inúteis. A rede social, no entanto, não é transparente nem explica o que leva em conta para essas classificações. A plataforma diz apenas que as notas úteis são aquelas em que colaboradores com "perspectivas diversas", ou seja, que discordaram em avaliações anteriores, entraram em um consenso.
Logo, a falta de consenso entre lulistas e bolsonaristas sobre os mais diversos tópicos pode ser uma das razões pela qual só 0,1% do que os dois políticos publicaram no X nos últimos três meses efetivamente recebeu contexto extra ou foi marcado como incorreto pelo programa.

Narrativas falsas ou sem contexto

Uma análise nos perfis de Lula e Bolsonaro deixa evidente que há conteúdos que deveriam ter recebido, no mínimo, uma contextualização no período analisado. Um deles é sobre a criação do Pix. Seguem circulando sem qualquer "Nota da Comunidade", por exemplo, o post em que Bolsonaro toma para si a paternidade da mais nova forma de pagamento eletrônico do Brasil e a publicação em que o ex-presidente afirma que o Partido dos Trabalhadores deseja taxar o Pix – as duas afirmações já foram desmentidas pela Lupa (aqui e aqui).
Aparentemente, para o "Notas da Comunidade", de nada serve o fato que o próprio Banco Central do Brasil tenha dados públicos sobre o assunto e de que o próprio X tenha recebido, só no último trimestre, quatro sugestões de “notas da comunidade” indicando que o Pix foi criado em 2018, ainda durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB). 
Também não foram ao ar as "notas da comunidade" para um post em que Bolsonaro afirmava que o Brasil havia passado "4 anos sem MST" e sem queima de ônibus. Os dois dados são falsos, e os anotadores do programa do X informaram a iniciativa sobre isso – mas a nota não foi adicionada. No governo Bolsonaro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra fez 62 ocupações e ao menos 289 ônibus foram incendiados entre 2019 e 2021. Links contendo essas informações foram computados no sistema que suporta o "Notas da Comunidade", mas não serviram para trazer a correção à tona.
Também é válido destacar que, nos últimos três meses, ao menos três notas foram enviadas ao X para acrescentar conteúdo ao post em que Bolsonaro apareceu reclamando de não ter recebido do governo federal carros blindados para circular pelo país após deixar a Presidência. Todas as sugestões de nota davam link para a lei que rege a oferta de serviços oferecida a ex-presidentes e que mostra que eles realmente merecem veículos oficiais, mas que não há nada que determine que eles precisam ser blindados. Até 1º de dezembro, porém, esse contexto extra tampouco aparecia acompanhando o post de Bolsonaro. 
Com Lula, não é diferente. Um exemplo é de quando o atual presidente foi ao X para comemorar a existência da Constituição de 1988. Sua postagem recebeu ao menos seis sugestões de notas que não foram publicadas – todas lembrando que, ao contrário do que o presidente dá a entender, seu partido, o PT, não apoiou a versão final do texto da Constituição.
De fato, a sigla votou contra a proposta redigida e só decidiu assinar a Carta (conjunto de leis aprovadas na Assembleia Constituinte), destacando seu protesto e repúdio pela Constituição que acabou aprovada. Como fonte, os anotadores sugeriram reportagens detalhadas sobre o assunto, mas o X jamais liberou esse contexto para vir a público.  
Lula também foi alvo de sugestões de "Notas da Comunidade" em publicação sobre brasileiros que morreram em 7 de outubro, em decorrência do ataque feito pelo grupo terrorista palestino Hamas em Israel. Os editores do programa perceberam que Lula nem o Ministério de Relações Exteriores tinham mencionado o grupo em suas colocações no X e entenderam que era preciso adicionar os responsáveis pelas mortes no contexto do que foi divulgado.
"Bruna Valeanu foi assassinada pelo grupo terrorista Hamas. Contexto adicional é necessário, pois a nota oficial do presidente não deixa claro as circunstâncias (terrorismo) e quem foi o responsável pela morte (Hamas). Isso deixa margens para dúvidas", escreveu um editor que usou como fontes o G1, o Metrópoles e o UOL, mas jamais viu sua nota ser publicada.

Outro lado

A Lupa enviou ao X um e-mail solicitando uma entrevista com o setor responsável pelo programa "Notas da Comunidade" em português. Menos de um minuto depois, recebeu a resposta automática que a plataforma dá há meses a jornalistas de todo o mundo, informando que estão todos ocupados e que é preciso retornar o contato mais tarde. Caso houver resposta do X, esta reportagem será atualizada.

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