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De IA a roubo de dados: 5 desafios para combater a desinformação nas eleições de 2024
Brasileiros vão às urnas em 2024 para as eleições municipais - Foto: TSE
Haverá, em 2024, mais de 80 eleições em pelo menos 78 países, e é bem provável que a desinformação – esse mal que coloca em xeque as democracias – estará presente nas campanhas, tanto semeando dúvidas infundadas quanto tumultuando o debate público.
O novo ano exige, portanto, que todos os envolvidos na luta contra a desinformação — sejam elas os checadores, as empresas de tecnologia, os legisladores, os governantes ou os representantes da sociedade civil — tenham a capacidade de não apenas se adaptar às diferentes realidades políticas observadas em cada um desses países, mas agir com rapidez e eficiência.
Só nos fins de semana deste mês de janeiro, haverá eleições de grande envergadura em Bangladesh (dia 7), Taiwan (13) e Finlândia (28). Além disso, o Brasil terá suas disputas municipais em outubro, enquanto os Estados Unidos escolherão em novembro quem assumirá a Presidência pelos próximos quatro anos.
Para entender os desafios que estão no horizonte da desinformação política, a Lupa conversou com um grupo de nove checadores* profissionais que atuam em Estados Unidos, Argentina, Bangladesh, Filipinas, Índia, Indonésia, e Tailândia. Confira, a seguir, os cinco fatores que eles apontaram como desafios e motivos de preocupação em relação ao avanço da desinformação em 2024:

1 — Popularização da inteligência artificial na criação de conteúdos falsos

Esta é uma certeza pontuada em uníssono. Para o grupo de checadores, o mundo ainda desconhece como e quanto a inteligência artificial influenciará na produção de conteúdos falsos e enganosos em 2024. O que se sabe é que isso virá. 
Para os checadores, a imagem falsa do Papa Francisco usando um casaco branco de grife só foi a ponta de um imenso iceberg. E, para provar esse ponto, os checadores americanos lembram, por exemplo, que o Partido Republicano recorreu à IA em abril de 2023 para produzir um anúncio de televisão que simulava o horror que supostamente dominaria as ruas dos Estados Unidos se o presidente democrata Joe Biden conquistasse um segundo mandato. A lógica por trás dessa colocação é simples: se os políticos americanos fazem, por que outros não fariam?

2 — Falsos especialistas e falsas pesquisas, turbinados por potências mundiais

Desde setembro de 2023, os fact-checkers de Bangladesh alertam o mundo para dois fatos: o uso de falsos especialistas como forma de aumentar a credibilidade de uma notícia falsa e a eloquente participação da China nesse processo — ao menos naquele país.
Há três meses, mais de 700 artigos com conteúdos políticos viralizaram em Bangladesh citando uma lista de nada menos do que 35 especialistas que nunca existiram de verdade. Os textos usavam nomes, fotos e conclusões de pesquisas fictícias como forma de elogiar a primeira-ministra Sheikh Hasina Wajed e espalhar entre os habitantes daquele país a sensação de que o governo era bom e ia bem. 
Os fact-checkers ressaltam que, ao contrário da IA, a construção de sites e a criação de falsas referências é uma ação barata, que pode ser levada a cabo sem grandes orçamentos. Mas eles também destacam que os limites da desinformação estão sendo colocados à prova por super potências. A maioria dos 700 artigos falsificados localizados em Bangladesh falava sobre a China e/ou seus interesses no país. 

3 — Roubos de dados pessoais deve ampliar número de golpes e de 'fake news'

Esse aviso vem dos fact-checkers que atuam na Tailândia: os hackers de plantão tentam de tudo para obter dados pessoais dos cidadãos quando um país está próximo às eleições. O intuito criminoso não tem só o caráter financeiro imediato que se pode imaginar. Hackers entenderam que podem vender informações sobre os interesses e preocupações dos eleitores, bem como nichos adequados para distribuir notícias falsas de forma eficiente. 
Mais de 13 milhões de números de telefone celular vieram a público na Tailândia, num vazamento histórico ocorrido em 2022. Com isso, o número de golpes telefônicos registrados no país subiu 165% de lá para cá. Hoje em dia, sete em cada dez mensagens que os tailandeses recebem em seus celulares são criminosas ou desinformativas. Tentam roubar mais dados pessoais ou envolver os indivíduos em narrativas enganosas, sejam elas de cunho político ou empresarial.

4 — Ataques contra a religião e o gênero estarão (ainda mais) em voga

Os fact-checkers indonésios destacam, por sua vez, que o mundo deve estar mais atento às peças desinformativas que servem para alimentar temas controversos como religião e gênero. Vídeos como o que mostrava o candidato presidencial da Indonésia Ganjar Pranowo supostamente consumindo bebida alcoólica em público — algo proibido no país com mais muçulmanos do mundo — devem se tornar frequentes. 
Nesse mesmo barco das falsidades de cunho islamofóbico e/ou antissemita, os especialistas também apontam a tendência de que virão ataques abertos ao movimento LGBTQ+, o que exigirá atenção redobrada na defesa dos direitos humanos. 

5 — Desinformação em massa e focada nos desertos de notícia

Por fim, os checadores da Índia ressaltam a importância de mapear, entender e fincar pés nos “desertos de informação”, pois áreas com menos acesso a meios de comunicação de qualidade estão mais suscetíveis a falsidades de cunho ultra local.
Além disso, pequenos desentendimentos têm o poder de conflagrar conflitos de relevância inclusive nacional. Não é hora, na avaliação dos checadores, de descuidar das falsidades que podem chegar às zonas rurais e às populações indígenas, sendo difundidas, até mesmo, em outros idiomas.
* Foram entrevistados para esta reportagem: Alex Mahadaven (MediaWise, EUA), Laura Zommer (FactChequeado, EUA), Carlos Chirinos (elDetector, EUA), Matias Di Santi (Chequeado, Argentina), Renan Estenssoro (Bolivia Verifica, Bolívia), Qadaruddin Shishir (AFP, Bangladesh), Wahyu Dhyatmika (CekFacta, Indonésia), Supinya Klangnarong (CoFacts, Tailândia), e Jency Jacob (BOOM, Índia)
** Uma versão em espanhol desta reportagem está disponível no site da Univision

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