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Estopim do 8 de janeiro, fakes sobre urnas ainda alimentam golpismo nas redes
08.01.2024 - 11h00
João Pessoa - PB
Mesmo sem eleições no país em 2023, a narrativa falsa sobre fraude nas urnas eletrônicas — que insuflou os atos de 8 de janeiro — ganhou fôlego nas redes ao longo do ano passado, principalmente por causa dos desdobramentos dos ataques golpistas. É o que mostra o levantamento produzido pela FGV Comunicação Rio, dentro do projeto Mídia e Democracia. As alegações enganosas sobre urnas, fator esse que costuma ganhar mais força em ano eleitoral, também foram usadas para fundamentar novos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), mais especificamente ao ministro Alexandre de Moraes. 
Somente em grupos do Telegram monitorados pelo estudo foram contabilizadas mais de 2,3 mil mensagens com conteúdos sobre fraude disseminadas ao longo de 2023. Em 3 de janeiro, dias antes dos ataques, houve uma intensa mobilização de conteúdos com menções à alegada “fraude eleitoral” nos 665 grupos monitorados pela FGV. De acordo com o levantamento da FGV, eles foram utilizados para mobilizar os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a tomarem o governo e a fazerem uma “faxina geral” nos Três Poderes em decorrência da “carnificina da caneta de Alexandre de Moraes”. Mensagens como essas voltaram a ganhar força no Telegram em 8 de janeiro. 
No Facebook, houve um crescimento de cerca de 382% no volume de interações em posts sobre fraude, entre os dias 10 e 11 de janeiro, dias após os atos golpistas (um total de 20,4 mil interações). Contudo, o maior volume ocorreu em 28 de junho, após Bolsonaro recuperar um vídeo do ministro da Previdência, Carlos Lupi, em fevereiro de 2022, onde ele defende a recontagem de votos para evitar fraudes eleitorais (total 117,2 mil interações). Em 12 de julho, outro post de Bolsonaro, sobre alegadas falas do ex-ministro da Educação Renato Janine a respeito de fraude em 2018, também teve maior repercussão no Facebook (80,5 mil interações) que os dias posteriores aos dos atos de 8 de janeiro.

Uma narrativa sem fim

Os desdobramentos dos atos de 8 de janeiro — seguidos pela desconfiança nas urnas eletrônicas e nas instituições — tendem a ser uma das preocupações para as eleições municipais deste ano. Essa é a avaliação do professor Joscimar Silva, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).
Para ele, mesmo com a punição dos envolvidos nos atos, o processo de desinformação não se resolve e tende a piorar com o pleito de 2024. A polarização em grande medida permanece nos estados e municípios onde o apoio de Lula e Bolsonaro é mais significativo no voto, avalia Siva. 
"A raiz dessa desconfiança já existia, ela foi instrumentalizada [com os atos de 8 de janeiro]. Há uma parcela da população que não participou dos atos, mas acredita nas fraudes das urnas. Ao mesmo tempo, não houve uma ação contundente de punir produtores de desinformação. Ela vai continuar sendo estratégia para as campanhas municipais de 2024. A nível local esse combate é ainda mais difícil"
– Joscimar Silva, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB)
A Lupa desmentiu ao menos 20 boatos sobre urnas eletrônicas no ano passado, muitos deles como parte dos desdobramentos associados ao 8 de janeiro. Dentre os posts disseminados nas redes, um deles trazia uma fala de Walter Delgatti Neto, conhecido como “hacker da Vaza Jato”, durante a CPMI do 8 de janeiro, em agosto. Ele afirmou que uma pessoa de dentro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia alterar o código-fonte da urna eletrônica. A legenda do post enganoso afirmava que essa seria a prova de que houve manipulação nas eleições.
O levantamento produzido pela FGV mostra ainda que um dos picos de disseminação de posts sobre fraudes nas urnas em 2023 foi justamente o depoimento de Delgatti Neto na CPMI dos atos de 8 de janeiro — com um total de 42,4 mil interações no Facebook. 
Vale salientar que, segundo o TSE, desde 1996, quando o voto eletrônico foi implantado, não se registram no Brasil casos de fraudes eleitorais envolvendo a captação ou totalização de votos. Além disso, o código-fonte da urna é mantido sob um sistema de controle de versões de software, com acesso restrito e registro de todas as modificações. Esse controle permite que, na cerimônia de lacração, os fiscais possam analisar se houve alguma mudança ou manipulação, sendo possível identificar o que foi modificado e quem realizou esse serviço.

Ataques a Alexandre de Moraes

No dia dos atos de 8 de janeiro, Alexandre de Moraes recebeu cerca de 290 mil menções nas redes em posts que caracterizam a atuação do STF como “autoritária” e “parcial” durante as eleições presidenciais. Esse foi o recorde diário de posts sobre Moraes em 2023, aponta o levantamento da FGV. O segundo momento com maior volume de menções contrárias ao ministro foi em 21 de novembro, por causa da repercussão da morte de um dos presos dos atos golpistas de 8 de janeiro. 
Moraes voltou aos holofotes nas redes em agosto de 2023, com posts que alegavam que ele estaria perseguindo Jair Bolsonaro. Isso ocorreu após o ministro do STF solicitar que plataformas de redes sociais — a partir de pedido da  Procuradoria-Geral da República (PGR) — fornecessem informações sobre 244 pessoas denunciadas por participação nos atos de 8 de janeiro, com o objetivo de saber se elas seguiam o ex-presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais ou deixaram de segui-lo.
Moraes também solicitou às plataformas digitais o envio da íntegra das postagens nos perfis de Bolsonaro sobre eleições, urnas eletrônicas, TSE, Supremo, Forças Armadas, além de fotos e vídeos relacionados a essas temáticas. 
Prédio do STF destruído após atos golpistas de 8 de janeiro. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF
O também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi peça de desinformação em outros períodos do ano, sendo associado diretamente às supostas fraudes nas eleições de 2022. Dentre eles, um registro que afirmava que Moraes declarou "guerra à população" e ordenou a prisão de indígenas que criticaram o pleito. Ao contrário do que dizia a falsa reportagem, Moraes não ordenou a prisão de indígenas por criticarem o "abuso de poder". Na verdade, a pedido da PGR, o ministro decretou por 10 dias a prisão temporária de José Acácio Serere Xavante, em dezembro de 2022, pela suposta prática de condutas ilícitas em atos antidemocráticos.
"Alexandre de Moraes é a personificação desse 'inimigo' para parte da população que acredita em fraude nas urnas. Esse processo de radicalização de criação de inimigos a serem combatidos é parte dessa narrativa de desinformação e só agrava o problema. É como se eles enxergassem o sistema como falido".
– Joscimar Silva, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB)

“Dia do Patriota”

As discussões sobre a realização de novos atos antidemocráticos, alimentados principalmente por mensagens falsas de fraude eleitoral, perdeu força nos últimos dias de 2023 e início de 2024. É o que mostra um outro levantamento, produzido pela Palver, que monitora grupos da extrema-direita no WhatsApp. Apesar disso, os posts que mencionam os atos de 8 de janeiro conclamam a data como "o dia do patriota". 
Um maior volume de menções a atos antidemocráticos foi registrado pelo levantamento em dois momentos distintos em 2023. O primeiro ocorreu em novembro, em função da morte de um detento acusado de participar dos atos golpistas do dia 8 de janeiro. O segundo foi durante a sabatina do então indicado a ministro do STF Flávio Dino no Senado. O monitoramento ainda apontou termos ligados à “censura nas redes” em convocação de supostas manifestações.
Post compartilhado em grupos do WhatsApp monitorados pela Palver

Nota: Este conteúdo faz parte do projeto Mídia e Democracia, produzido pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV ECMI) em parceria com Democracy Reporting International e a Lupa. A iniciativa é financiada pela União Europeia.

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Evelyn Fagundes
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