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Deputados e senadores bolsonaristas usam redes para negar golpismo em 8/1
09.01.2024 - 19h09
Rio de Janeiro - RJ
O texto foi atualizado para incluir o posicionamento enviado à Lupa pelo senador Jorge Seif Junior (PL-SC)
11.01.2024 - 11h16
Ao menos seis parlamentares brasileiros foram às redes sociais no dia 8 de janeiro de 2024 para promover a narrativa de que os ataques ocorridos em prédios públicos de Brasília há um ano não eram parte de uma tentativa de golpe de Estado. 
O grupo usou ao menos quatro táticas para ganhar adesão nas redes sociais e mostrar coesão. Recuperou imagens e editou trechos de vídeos com políticos de esquerda — sobretudo de ministros e ex-ministros de governos petistas — minimizando os eventos; empregou aspas em torno da palavra golpe em postagens públicas que fizeram ao longo do dia; criticaram os gastos públicos com os atos feitos pelo governo federal para lembrar os ataques de 2023; e ainda se repetiram classificando os participantes dos atos golpistas de idosos desarmados.
O esforço online levado a cabo por esses seis congressistas contradiz, no entanto, o conteúdo de diversas gravações feitas naquele dia (muitas disponíveis no projeto Lupa nos Golpistas). Também se opõem aos relatos colhidos até mesmo em juízo pelos revoltosos que lideraram a "festa da Selma". Por fim, se chocam com o entendimento e os discursos dos chefes dos Três Poderes da República, que não têm dúvidas de que houve uma tentativa de golpe no 8 de janeiro de 2023. 
Dados extraídos do LupaScan, sistema que monitora as redes sociais dos políticos eleitos em busca de desinformação e discurso de ódio, mostram que os deputados federais Evair Vieira de Melo (PP-ES), Carlos Jordy (PL-RJ) e Sóstenes Silva Cavalcante (PL-RJ), além dos senadores Magno Malta (PL-ES), Cleitinho (Republicanos_MG) e Jorge Seif Junior (PL-SC), usaram suas contas no Telegram e YouTube para divulgar conteúdos que negam o caráter anti-democrático dos ataques de 8 de janeiro de 2023. 

Sequência de postagens

Às 13h35, Carlos Jordy postou no Telegram o link para uma entrevista em que o ex-ministro da Defesa, da Ciência, e do Esporte Aldo Rebelo diz que "atribuir uma tentativa de golpe a aquele bando de baderneiros [em referência aos invasores dos prédios públicos de Brasília] é uma desmoralização da instituição do golpe de Estado". 
Para Jordy, Rebelo "detonava a farsa 'do golpe'" criado pelo governo federal e deixava claro que "a ideia de que Lula e as ações do STF (Supremo Tribunal Federal) salvaram a democracia servem a um outro propósito": conseguir adeptos a suas pautas no Congresso. Não há nenhuma evidência que os atos golpistas tenham sido orquestrados por Lula ou pelo Supremo.
Dez minutos depois, às 13h45, foi a vez de Seif Junior postar no Telegram um vídeo que usa declarações dadas pelo atual ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, em diversos momentos ao longo dos últimos meses para, na visão de Seif Junior, tentar minimizar a ideia de golpe. 
A gravação impulsionada pelo senador consiste numa colagem de trechos de falas de congressistas de direita dizendo que os atos golpistas ocorreram num domingo, "com tudo vazio", que não tinham coordenação e que contava apensas com a participação de "senhorinhas rezando o terço". 
Entre as muitas imagens que ficaram famosas naquele dia, está a violenta quebra de um relógio do século XVII, o ataque a um policial que estava montado a cavalo e a vandalização de uma obra de Candido Portinari. Cálculos feitos pela equipe da Lupa em 2023 estimam que os ataques custaram pelo menos R$ 25,6 milhões aos cofres públicos.
Quinze minutos mais tarde, às 14h01, entrou no ar no canal de Viera de Melo no Telegram o link da entrevista de Rebelo. O texto que o acompanhava tinha grandes semelhanças com o postado por Jordy. Dados públicos disponíveis no aplicativo de mensagem mostram que os posts feitos por esses congressistas tinham o potencial de alcançar cerca de 15 mil usuários.
Publicações feitas por parlamentares no Telegram (Foto: Reprodução)
Às 17h48, o LupaScan detectou que a narrativa que buscava minimizar os atos golpistas pulou do Telegram para o YouTube. Num vídeo de quase 2 minutos e meio, o senador Cleitinho voltou a citar Múcio Monteiro Filho e a dizer que "não houve golpe no dia 8 de janeiro". Para ele, os atos ocorridos na segunda-feira, para lembrar um ano dos ataques em Brasília, servem apenas a "uma politicagem barata".
Também no YouTube, o deputado Sóstenes Cavalcante, segundo vice-presidente da Câmara, e o senador Magno Malta foram ao ar para criticar o que chamaram de "falácia de golpe". Num vídeo de quase 3 minutos, Sóstenes afirma que "a esquerda e a imprensa brasileira querem inventar um capítulo da história que nunca existiu" e diz que o que foi visto na capital federal em 2023 foi "um grupo de pessoas desesperadas". 
Vídeos divulgados no YouTube por parlamentares bolsonaristas (Foto: Reprodução)
Malta, por sua vez, publicou o trecho de uma live realizada por diversos parlamentares conservadores em que aparece criticando aqueles que acham que o 8 de janeiro foi uma tentativa de golpe. No vídeo, o senador assente quando o apresentador afirma que quem foi golpeado naquele dia foram os conservadores e, ao tomar a palavra, afirma que a CPMI do 8 de janeiro seguiu um plano de trabalho vindo "dos assessores do [então  ministro da Justiça] Flávio Dino e de seus companheiros de dentro do Palácio do Planalto" para construir a narrativa do golpe — não há nenhuma evidência disso, segundo as investigações dos atos golpistas.
Malta também destacou que vários homens e mulheres que estavam "rezando um terço na frente dos quartéis foram chamados de terroristas", sem ser. "Olha, terrorismo quem pratica é o MST (Movimento dos Sem Terra). Então é a velha máxima do comunismo: acuse-os daquilo que você é", declarou o político, que mentiu durante a CPMI do 8 de janeiro, conforme mostrou a Lupa.

Outro lado

Após a publicação desta reportagem, o senador Jorge Seif, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que “não houve nenhuma tentativa de golpe" porque não havia "uma liderança identificada, nem um grupo armado". "Tínhamos manifestantes com Bíblias, bandeiras e Constituição nas mãos. Tivemos também vândalos que devem ser punidos conforme prevê a Lei”, declarou.
Procurados pela Lupa para detalhar os motivos que os levam a compartilhar informações sobre os ataques antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 como não sendo atos de caráter golpista, os demais parlamentares não retornaram. Se houver resposta, o texto será atualizado.

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