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De vândalo do relógio a Ramiro Caminhoneiro: como estão golpistas um ano após o 8 de janeiro
11.01.2024 - 17h34
João Pessoa - PB
Do golpista de toga à cantora gospel que se tornou musa das manifestações. Do homem que empunhou a réplica da Constituição Federal como 'troféu' ao vândalo que destruiu um relógio que data do século 17. Os atos golpistas de 8 de janeiro foram marcantes, não só pelas imagens da invasão aos prédios dos Três Poderes em Brasília, mas também pelos personagens emblemáticos que participaram dos ataques. 
De acordo com o Supremo Tribunal Federal (STF), 243 pessoas foram detidas em flagrante na Praça dos Três Poderes e 1.929 que estavam em frente aos quartéis foram conduzidas para a Academia Nacional de Polícia entre os dias 8 e 9 de janeiro. No total, 775 foram liberadas e 1.397 ficaram presas. Até dezembro de 2023, 70 pessoas ainda permaneciam detidas e 30 pessoas envolvidas nos atos antidemocráticos haviam sido condenadas.
A seguir, a Lupa mostra como estão alguns desses personagens, um ano após os atos golpistas de 8 de janeiro.

Live na cadeira de ministro do STF

Aildo Francisco, durante live transmitida em ato golpista de 8 de janeiro. Foto: Redes Sociais
O empresário Aildo Francisco Lima, conhecido como 'Bahia', foi detido pela Polícia Federal, durante a 17ª fase da Operação Lesa Pátria, em setembro de 2023. Nos atos golpistas de 8 de janeiro, Bahia teria participado da invasão ao prédio do STF e feito uma live sentado em uma das cadeiras de um dos ministros da Corte. 
Por WhatsApp, a defesa de Aildo Lima confirmou que o réu continua detido, "embora tenhamos provado que ele não teve envolvimento nos atos de vandalismo do dia 08/01". 

'Perdeu, mané'

Perdeu, mané" pichado em vários lugares durante atos de 8 de janeiro. Foto: Redes Sociais
A cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, flagrada pichando os dizeres 'perdeu, mané' na estátua da deusa Têmis, monumento da Justiça em frente à sede do STF, foi detida em março de 2023decisão que foi renovada pela Corte em junho
"Perdeu, Mané" é uma referência a uma declaração dada pelo ministro do STF Roberto Barroso, em novembro de 2022, em Nova York. À época, um homem o questionou sobre o código-fonte das urnas eletrônicas. Barroso, então, rebateu: “perdeu, mané, não amola”.
Segundo o jornal O Globo, a ré continua detida no Centro de Ressocialização Feminino de Rio Claro, em São Paulo. Em dezembro de 2023, a família de Débora dos Santos, em depoimento a um blog na internet, confirmou que a acusada permanecia detida. A Lupa não conseguiu contato com a família e a defesa.

'Ramiro Caminhoneiro'

Ramiro se descrevia em sua conta no Instagram como “um patriota a serviço do transporte, um transportador a serviço da pátria”. Foto: Redes Sociais
Reportagem exclusiva da Lupa, publicada em janeiro, após os ataques em Brasília, revelou que Ramiro Alves da Rocha Cruz Junior — conhecido como Ramiro Caminhoneiro —  apareceu em dezenas de mensagens de WhatsApp e Telegram organizando caravanas para a capital federal e pedindo doações via Pix. Após os ataques, Ramiro vinha fazendo postagens e transmissões ao vivo desafiando o ministro Alexandre de Moraes e a Polícia Federal. Ele foi detido em 20 de janeiro de 2023.
Em uma rede social, Ramiro se descrevia como “um patriota a serviço do transporte, um transportador a serviço da pátria”. Ele foi candidato a deputado federal por São Paulo pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, nas eleições de 2022, e recebeu R$ 150 mil para financiamento de campanha do partido. Antes disso, já havia concorrido a uma vaga na Câmara dos Deputados em 2018, quando era filiado ao PSL, mesma sigla de Bolsonaro na época.
No inquérito que investiga os atos no STF, há um pedido de habeas corpus impetrado pela defesa do réu, em 8 de janeiro de 2024. Nele, consta um documento de dezembro de 2023 que mostra que Ramiro continua detido no Centro de Detenção Provisória IV de Pinheiros, em São Paulo. À Lupa, a defesa de Ramiro afirmou que se manifestará apenas após discutir o assunto com a família do réu. O texto será atualizado se houver resposta.

'Regina Brasil'

Thiago Bezerra, em vídeo publicado nas redes com convite para a “Festa da Selma”. Foto: Redes Sociais
Thiago Bezerra Lima, dono da igreja Amor Supremo, localizada em Goiânia (GO), usou um grupo de Telegram para compartilhar coordenadas e instruções da invasão de prédios públicos da capital federal, bem como tentativas de bloqueios a refinarias e distribuidoras de combustíveis — como mostrou reportagem exclusiva publicada pela Lupa em janeiro de 2023. Usando o pseudônimo “Regina Brasil”, transmitiu ao vivo a invasão do Congresso em sua conta no Instagram.
O pastor não estava entre as 1,4 mil pessoas presas pela Polícia Federal por envolvimento em atos de terrorismo e na destruição das sedes dos Três Poderes. Tampouco há informações se foi preso nas operações subsequentes. O nome de Thiago Bezerra Lima também não consta na lista de investigados dos inquéritos sobre os atos de 8 de janeiro no STF. 
No Instagram, Bezerra continuou a compartilhar publicações relacionadas aos atos de 8 de janeiro e críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Seu último post, no dia 7 de agosto, afirmava: "Não é ditadur4! Mas tem presos políticos. Não ditadur4. Mas tem aparelhamento do estado em detrimento de interesses próprios." Desde então, não fez  mais publicações. Em outro post, Bezerra também fez críticas ao que ele chamou de "democracia relativa". "Seja bem-vindo ao Brasil, onde a democracia é relativa, a corrupção é passiva, juízes deuses que faz o que querem e sua opinião pode virar crime". Nos comentários do post, diversos usuários questionam se o pastor Thiago Bezerra foi detido. 
A Lupa entrou em contato por e-mail com Thiago Bezerra, mas não obteve resposta.
À época da publicação da reportagem pela Lupa, a defesa de Thiago Bezerra, em nota enviada à reportagem, afirmou que "não há quaisquer indícios" de que ele "tenha recrutado, coordenado ou financiado qualquer grupo destinado à depredação de prédio público". A nota também destacava que Bezerra "repudia veementemente qualquer ato de vandalismo" e que "a defesa comprovará sua inocência", evidenciando que centenas de pessoas "foram presas injustamente, sem o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal".

Réplica da Constituição como 'troféu'

Homem com réplica da Constituição Federal, retirada da sede do STF, durante ato golpista de 8 de janeiro. Foto: Redes Sociais
O designer Marcelo Fernandes Lima, que esteve presente nos atos golpistas de 8 de janeiro, foi acusado de levar a réplica da Constituição Federal de 1988 que estava na sede do STF. Em 12 de janeiro, ele devolveu o livro à Polícia Federal de Varginha (MG). Em depoimento, afirmou que tomou a réplica das mãos de outras pessoas para evitar que ela fosse destruída.
Fernandes foi detido em janeiro de 2023. A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais, em nota encaminhada, afirmou que o réu deixou o presídio de Varginha em 20 de dezembro de 2023, para cumprir  monitoramento eletrônico com tornozeleira. 

Golpista de toga

Golpista de toga passeando na sede do STF durante atos golpistas de 8 de janeiro. Foto: Reprodução STF
Nas imagens das câmeras de segurança divulgadas pelo STF à imprensa após os atos de 8 de janeiro, um personagem ganhou atenção da mídia: o golpista de toga. Willian da Silva Lima foi identificado circulando pela sede da Suprema Corte com uma toga, vestimenta que simboliza a autoridade dos ministros da Corte.
William Lima foi detido na sede do Supremo e encaminhado para o presídio da Papuda no dia dos ataques golpistas. Em depoimento à Polícia Federal, afirmou que entrou no prédio do STF "por curiosidade", tendo ficado no local por "dez minutos". O réu deixou a prisão em dezembro de 2023. 

Relógio do século 17 danificado

Homem destruiu relógio do século 17 durante atos golpistas de 8 de janeiro. Foto: Reprodução
As imagens da destruição de um relógio que data do século 17 também foram marcantes durante os atos golpistas de 8 de janeiro. O autor da destruição do item foi identificado como Antônio Cláudio Alves Ferreira, tem 30 anos e morava na cidade de Catalão (GO), a cerca de 260 quilômetros de Goiânia. Ele foi preso no dia 23 de janeiro de 2023, em Uberlândia (MG).
Grupos bolsonaristas usaram as imagens de destruição do relógio para afirmar, de forma enganosa, que havia infiltrados da esquerda durante os atos. Logo após os ataques, circulou no WhatsApp uma publicação dizendo que o homem que destruiu o relógio seria integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O boato foi desmentido pela Lupa. Mesmo assim, a fala foi disseminada pelo senador Magno Malta (PL-ES) durante sessão da CPMI do 8 de janeiro. 
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais, em nota encaminhada à reportagem, afirmou que o réu continua detido no Presídio Professor Jacy de Assis, em Uberlândia (MG), e responde ação penal por cinco crimes, incluindo golpe de estado. 

'Musa’ dos ataques golpistas

Cantora Fernanda Ôliver, em Brasília, acusada de participar dos atos de 8 de janeiro. Foto: Redes Sociais
A cantora gospel Fernanda Rodrigues de Oliveira, conhecida como Fernanda Ôliver, foi detida em agosto de 2023 acusada de incitar a invasão dos prédios da Praça dos Três Poderes em uma transmissão ao vivo em suas redes sociais. Fernanda se tornou uma das "musas” dos atos em Brasília e se apresentava em acampamentos montados em frente a quartéis-generais do Exército. 
No perfil da cantora do Instagram, sua assessoria negou que ela tenha responsabilidade pela depredação. "Não há prova de golpismo, vandalismo ou qualquer tipo de conduta ilícita por parte dela". Fernanda Ôliver deixou a prisão em novembro de 2023. Na decisão de soltura, o ministro Alexandre de Moraes determinou algumas restrições à cantora, como o uso de tornozeleira eletrônica.

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